quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Capítulo VI: Hayabusa O ronin

 Tamura, 10 anos atrás:
Dentro da Cidadela Imperial.
 Os samurais faziam guarda em cada esquina da parte interna dos muros do Palácio Imperial, chamada Cidadela Imperial. Pelas batidas que o Portão do Amor Celestial sofria, seria questão de tempo que os demônios entrassem.
Aqui, ali, em todos os lugares, refugiados se espalhavam pelo chão.
Seguravam os restos de seus pertences com desespero, se apegando aos últimos pedaços de suas vidas até o fim. Os médicos e clérigos de cura vieram correndo tratar dos soldados feridos e dos dois jovens que eram carregados por Toranaga e Yoshi. Foram levados para o Interior do Palácio, onde os feridos estavam eram tratados.
A torre principal brilhava com uma aura perolada. O que quer que o
Imperador estivesse planejando, estava funcionando até aquele momento. Aquela área não estava sendo tão castigada pela chuva de ácido e de sangue, cada vez mais pesada.
Após deixar os garotos aos cuidados clericáis, Yoshi e Toranaga se dirigiram ao salão de conferência. Lá, os principais homens de armas, magos e o próprio Imperador estavam reunidos para o Plano de solução.
Ao entrar, a primeira coisa que os dois samurais perceberam foi quão poucas pessoas estavam presentes. Sem que nada fosse dito, sabia-se que, com exceção dos magos ocupados pelo escudo de proteção ao redor da parte do Palácio Imperial em que estavam, os que não estavam presentes estavam mortos.
A segunda coisa que perceberam foi a presença inspiradora.
Em um manto púrpura, com detalhes em dourado e vermelho, longo a ponto de ir até o chão , a partir dos ombros, que pareciam asas, em entalhes com as costas, que se tornavam draconianas.
Asas de Dragão, já que Ele, o Imperador, era um dos Dragões-reis. O Dragão-rei do Vácuo. À sua cabeça, o chapéu do regente, alto e largo, com entalhes de entrelaçamento com fios de ouro, na forma da cabeça de um dragão. Em sua mão direita, o Cetro de Ébano, que indicava o seu poder sobre os vivos.
Na bainha, a Espada de Jade, representando o poder sobre os mortos. Suas feições eram calmas, porém severas. Seus olhos amendoados eram reptílicos, verdes com íris vermelhas em forma de fenda. Seus cabelos longos, quando soltos, iriam até o quadril. Sua pele pálida e de uma tonalidade amarelada era do mesmo tom de seus súditos.
Era o exemplo a ser seguido pelo povo. O ser que inspirava a nação. O Rei que inspirava seus súditos. O Imperador de Jade.
-- Comandante Yoshi, Capitão Toranaga... como está a chegada dos refugiados? -- sua voz era potente como a de um trovão e, mesmo assim, calma como o sereno que cai pela manhã. Os dois homens se curvaram em reverência ao Monarca. Nem mesmo numa hora como aquela deixariam de reverenciá-lo.
-- Senhor... -- Toranaga começou -- tentamos reunir o máximo de pessoas que podíamos. Mas foram poucas. A maioria esmagadora da população morreu, está morrendo ou está tentando outras formas de fuga.
-- E onde estão os refugiados agora, Capitão?
-- Dentro dos muros do Palácio, senhor. Estão na Cidadela Imperial.
-- E quantos são?
Um momento de silêncio. Todos os presentes prepararam seus sentidos para aquela notícia. O comandante Yoshi se adiantou e, com enorme pesar, anunciou:
-- Menos de quarenta mil pessoas, contando com todos os samurais e a guarda, vossa Majestade.
O Imperador respirou fundo. De toda a, outrora imponente Cidade Imperial, com seus seiscentos mil habitantes, menos de um décimo sobreviveria. De um reino ancestral com quase dois milhões... Apenas uma mísera fração seria abençoada com a salvação. Com o semblante de imenso pesar, o Imperador se dirigiu à enorme mesa na qual se localizava um mapa do Palácio e da Cidadela. A área sulestava marcada.
-- Meus filhos -- começou o Imperador -- Eis o plano.


Petrynia, época atual, a dois dias de Malpetryn.

Hayabusa estava em um dilema. Akukama falava a verdade. O desespero que alegava sentir por estar de mãos atadas com relação ao futuro da filha era, em muitos aspectos, igual ao que sentia a anos por conta do rapto de Ti-Neh. 
Era o desespero de quem ama demais alguém e não pode fazer nada... Sabia muito bem que, se as situações fossem invertidas, não hesitaria em matar quem quer que fosse... E era justamente isso que o intrigava.
-- Akukama-sam, tire-me apenas mais uma dúvida e te libertarei -- ponderava as palavras com cuidado. A verdade era vital -- Por que, mesmo comigo em sua mira, não me acertou? Quando você e seus companheiros me cercaram, você estava em minha frente, com a fogueira iluminando o seu alvo. Estava protegido por árvores e com tempo suficiente para mirar. Poderia ser um tiro perfeito... Mesmo assim, você errou duas vezes... É tão mau arqueiro assim?
O sorriso do ferido foi algo envergonhado...
-- Não, Hayabusa-san. Quando de meu tempo no Corpo da Guarda Imperial, era arqueiro. E um dos melhores naqueles tempos. No cerco final, eu fui um dos últimos a sair... E até o fim protegi os refugiados. Sempre me orgulhei de ser um bom homem de arco... -- fez uma pequena pausa – eu quis errar você.
Os homens se encaravam. Hayabusa, desde a primeira flecha, havia percebido que o oponente que o alvejara não queria acertá-lo. Ele havia mirado deliberadamente aos seus pés. Foi com base nisso que o samurai imaginou a sua estratégia. Na segunda flechada, que foi dada onde seu corpo estava e não onde ele deveria estar à certeza foi total.
-- Eu percebi isso, Akukama-sam. E foi essa atitude sua que me fez poupá-lo. A flecha que disparei poderia matá-lo. Mas precisava de informações e queria que seus companheiros se apresentassem. O meu jogo foi perigoso... Mas o seu foi quase suicida!
-- Como eu poderia ser um bom servo de Lin-Wu, se matasse um de seus iniciados? E logo o que é filho de Yoshi-sama? Se fizesse isso, o pouco de honra que resta estaria perdido para sempre. E nem que meu contratante cumprisse a promessa que me fez... Nada valeria a pena...
Os dois homens possuíam um toque em comum. Eram amargurados por não terem perto quem amavam. Triste sina essa, do povo do Império de Jade...
Hayabusa pensava em como o destino era enganador. Durante a entrevista que ele teve com Toranaga-sama, fatos foram passados ao Ronin, para que sua missão pudesse ser facilitada.
Alguns dias antes, enquanto Hayabusa estava em uma missão de recuperação de artefatos tamuranianos contrabandeados em Vectora, Toranaga recebera informações importantes de sua rede. Segundo suas fontes, raptos estavam ocorrendo em Valkaria, novamente. Eram mulheres e meninas que sumiam sem deixar vestígios. Sumiam de suas casas. Desapareciam no caminho das compras. Iam ao banheiro em uma festa, e não voltavam... Já que eram raptos espaçados, a população em geral não se importava muito. Ainda que tenha havido mais proteção com relação às mulheres, não houve pânico na cidade.
Com exceção do bairro de Ni-Tamura. Lá, onde os seqüestros eram mais freqüentes.
Lá, a população estava intrigada com o sumiço das mulheres. O padrão era o mesmo de outras ondas de seqüestros: mulheres e meninas bonitas simplesmente sumiam sem deixar vestígios sem que nenhum resgate fosse pedido.
Colocando dinheiro na mão das pessoas certas, usando do prestígio que possuía e postando homens infiltrados no submundo, Toranaga conseguiu, em alguns meses, decifrar o mistério e ligá-lo com as ondas anteriores, quase cíclicas.
De tempos em tempos, aconteciam raptos entre a população feminina tamuraniana. Todos possuíam as mesmas características, tendo o primeiro acontecido a, aproximadamente, oito anos, meses após a instalação do bairro e chegada dos refugiados.
Atraídos pelos traços exóticos das tamuranianas, alguns bandido começaram a raptar e vendê-las como escravas ou prostitutas em outros reinos. A maioria acabava em bordeis em reinos próximos e outra parte acabava em haréns de minotauros. Outras eram simplesmente mortas em rituais de magia.
Avisado da situação, oito anos antes o Rei Thormmy autorizou que o protetorado do reino caçasse esses traficantes. Eu algum tempo, quase toda a rede foi desativada. Para evitar qualquer incidente diplomático, principalmente com
Tapista, o fato não se espalhou.
Desse evento em diante a Milícia Ni-Tamuraniana foi estabelecida para lidar com os assuntos tamuranianos. Com poder de polícia dentro das fronteiras do Valkaria, tinha o status de serviço autônomo de espionagem, sendo constantemente anistiado de seus erros (muito poucos) por parte do Imperador-rei. Um contingente de aproximadamente 500 homens e mulheres se tornou o exercito e a polícia secreta de um povo vivendo numa cidade estrangeira.
Tendo o beneplácito do Imperador-rei, as missões iam de recuperação de artefatos culturais, armas e produtos, até resolução de contendas e crimes internos. No entanto, a maior atribuição da Milícia sempre foi combater o tráfico de tamuranianos e recuperar as mulheres seqüestradas, no que foram muito bem sucedidos em parte, mas algumas das seqüestradas não foram encontradas.
Algumas das não encontradas estavam mortas e suas mortes foram regularmente vingadas (não que isso impedisse os bandidos de tentarem mais e mais). Um pequeno número, porém, simplesmente desapareceu.
Entre elas, Ti-Neh.
Recentemente o ciclo se reiniciou, com os seqüestros tornando a acontecer, mas em número menor do que antes para que não chamasse a atenção das autoridades.
Toranaga descobrira que uma nova rede havia se formado e que os raptos eram feitos sob encomenda. Descobriu quem os organizava e descobriu, também, que organização conhecida como Guilda dos Prazeres estava por trás de tudo.
Era uma organização extremamente bem montada, que lidava com o seqüestro de mulheres para prostituição e para haréns, além tráfico de seres humanos (e outras raças inteligentes e/ou humanóides).
Não apenas Minotauros eram os clientes, mas muitos homens importantes (pelo menos um regente importante tinha organizado uma "casa de massagem" para seu proveito) compravam mulheres. O negócio rendia  fortunas.
Em Valkaria, nos últimos meses, Toranaga descobriu, utilizando todos os seus métodos de persuasão (torturas, raptos, magias de leitura de mente e muita dor) que o primeiro responsável, pelos primeiros casos, oito anos atrás era a mesma pessoa por trás dos seqüestros mais recentes.
Era um comerciante que se estabelecera a alguns anos na cidade. Seu nome era Hector Conner e, como fachada, trabalhava com artesanato importado e tapetes. Dizia-se que havia sido expulso de Vectora e que se estabelecera em Valkaria por falta de opção.
Ainda segundo suas fontes, Toranaga descobriu que o motivo de sua expulsão era suspeito de tráfico de escravos.
Ao chegar a Valkaria, vindo de Vectora, Hector ainda tinha problemas graves por possuir pagamentos realizados sem que mercadoria nenhuma houvesse sido entregue (a fuga de Vectora aconteceu no momento correto, ainda que um tanto apressadamente). Por isso, seus clientes ainda cobravam a "mercadoria" e já estavam no estágio das ameaças.
A situação ficou mais e mais difícil, quando passou a ser seguido, mesmo quando ia para a loja de tapetes e vasos que havia montado no centro de Valkaria. Dia após dia, as ameaças se tornavam mais sérias, até que recebeu um ultimato de um de seus clientes: ou entregava a mercadoria que devia, ou poderia se despedir das duas pernas, juntamente com sua genitália.
Sem opção, raptou uma de suas clientes. Uma jovem viúva que havia herdado o dinheiro do marido e que se ocupava apenas de festas e frivolidades. Era bela e com um bonito corpo, com olhos azuis e cabelos encaracolados castanhos, ela era tudo o que Hector precisava. Contratou três bandidos e desapareceu quando chegava de uma recepção a qual fora convidada. Algumas semanas depois, o nobre de Ahlen recebia sua nova concubina, devidamente sob efeito de magia amnésica e com garantia de dois meses (com retoques na magia, de tempos em tempos).
Percebendo que havia dado certo, Hector continuou com seus seqüestros por mais algum tempo, até quitar todas as suas encomendas. Enquanto isso, paralelamente, seu negócio de importação corria de vento em popa e servia tanto de fachada para o negócio escuso, quando de chamariz para novas vitimas.
Com astúcia, armou um esquema no qual outros serviam de tenentes para suas operações. Dessa forma se algo desse errado, poderiam "cortar as cabeças" dos tenentes e tudo estaria resolvido. Não poderiam chegar a ele. No entanto, quando os pedidos se tornaram muitos, o inevitável ocorreu: as autoridades ligaram os raptos e perceberam que estavam diante de uma rede de trafico. Hector se viu quase perdido em um jogo de gato e rato para não ser descoberto. De quando em quando "dava" um dos seus tenentes para enganar as autoridades. Ao final de tudo, estava só, mas estava livre!
Aos poucos remontou o seu esquema. Só que, agora, mais cuidadoso, aceitaria poucas encomendas  e, a preços mais altos. Começou a trabalhar seus seqüestros para que coincidissem com períodos de festividades, passagem da cidade voadora ou outros eventos que mascarassem as atividades. Há anos trabalhava dessa forma, sem, nunca mais chamar atenção demais.
Mesmo assim, á algum tempo o Comandante da Milícia estava pacientemente na pista do traficante que, a alguns anos vendera Ti-Neh.
Seus homens reuniam pistas aqui e ali, ouviam conversas. Batiam em alguém acolá, até que conseguiram descobrir que um minotauro chamado Taupys havia comprado a menina. Parecia que ele tinha um apreço maior por tamuranianas e já encomendara outras três.
Era um comerciante que se estabelecera numa villa próximo a Fronteira entre Petrynia e Tapista. Sua villa era um local isolado no qual viviam apenas os seus empregados e servia de pouso seguro para o minotauro quando entre uma viagem de negócios e outra. Trabalhava com Cerâmica e fazia transações de contrabando entre a Tapista e Petrynia.
Essa ultima informação só chegou às mãos de Toranaga na manhã da entrevista com Hayabusa. Um de seus informantes havia mandado uma correspondência com essas informações num envelope. O mesmo envelope amarelo que tinha a sua frente quando Hayabusa chegara.
Esse era outra das coisas que Hayabusa tinha em comum com Akukama: ambos queriam conversar com o minotauro chamado Taupys.

4 comentários:

  1. muito boa essa cronica, realmente emocionante.

    parabéns

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  2. Muito bom^^ E essa rede agora??? aff... Hayabusa encontre sua irmã^^

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  3. Ficou bem bacana!

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  4. bela crônica, muito rica em detalhes, parabéns!

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