quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O Nobre

Uma questão de nobreza. 
Os títulos nobiliárquicos ou títulos de nobreza pertenciam aos nobres e foram criados com o intuito de estabelecer uma relação de vassalagem entre o titular e o monarca, sendo alguns deles hereditários. 

Foram, depois do século XV, usados como forma de agraciar membros da nobiliarquia, por um conjunto de atos prestados à casa real, ao monarca ou ao país, sem que lhe estivesse adstrita qualquer função pública ou jurisdição ou soberania sobre um território. 

A partir do início do século XX, acabou, na maioria dos países, mesmo nas monarquias, a relação de governança e autoridade dos titulares e demais membros da nobreza perante toda a população.

A relação de hierarquia dos títulos é muito diversa. Nem Arton, na maioria dos reinos segue-se esta relação de hierarquia:
  •     Imperador-Rei
  •     Reis /  Regentes
  •     Príncipe monarca
  •     Príncipe imperial
  •     Príncipe real
  •     Grão-príncipe
  •     Príncipe
  •     Infante
  •     Arquiduque
  •     Grão-duque
  •     Duque (mais importante se da Família Real)
  •     Marquês
  •     Conde
  •     Conde-barão
  •     Visconde
  •     Barão
  •     Baronete
  •     Cavaleiro
  •     Fidalgo
O fidalgo é conhecida como baixa nobreza. São pessoas que possuem sangue nobre e que tem primos, ou familiares em niveis de maior destaque na sociedade. Os fidalgos são aparentados da nobreza e muitas vezes podem reascender a nobreza atraves de casamentos. 
Diferente das pessoas comuns os Fidalgos, podem ter sua genealogia rastreada a grandes nobres do passado mas descendem de linhagens menores, muitas vezes do terceiro ou quarto filho de um antigo duque, barão ou mesmo rei (de um reino caido ou a muito perdido). Por seu sangue azul e suas posses os fidalgos são vistos pela população comum como nobres e respeitados pela nobreza mesmo que eles proprios não possuam titulos feudais ou memso terras. 
A classe nobre no novo Tormenta RPG abrange  principalmente a fidalguia, e os fidalgos compoem quase que a maioria desses aventureiros. Os Fidalgos não possuem titulo de nobreza e assim não são aptos em inveis inciais para pegar os talentos do Valkaria: cidade sob a deusa.


Grandes personagens da literatura são fidalgos e não nobres. No romance de Alexandre Dumas, Os Três Mosqueteiros, D'Artagnan é um jovem fidalgo que sonha se tornar um mosqueteiro. Ele se encaminha pra Paris com uma carta de seu pai para ingressar nos mosqueteiros do rei. Inicialmente D'Artagnan é um nobre e não um duelista.  

O príncipe Valente, gibi clássico sobre a época do rei Arthur nos apresenta um príncipe guerreiro, um nobre, que viaja pelo mundo combatendo. O próprio Rei Arthur e Sir Lancelot nos são apresentados como nobres. De Lancelot se diz que ele era um príncipe de outro reino. Arthur, é criado por uma família de cavaleiros em sua infância, ele até os 18 anos pode ser considerado um fidalgo, só recebe o titulo de rei depois de remover a espada da pedra. 

Fica livre para o mestre permitir que um ou mais jogadores sejam e possuam titulos de nobreza ao ingressar nessa classe. Arthur começa como Fidalgo mas não fica como tal por muito tempo. É uma opção de grupo pra grupo.

CADA UM NO SEU QUADRADO
Conheça a função e a hierarquia dos nobres da Idade Média.
DUQUE
O mais poderoso depois do rei. Era nomeado entre comandantes militares, filhos ou parentes do rei. Recebia as maiores porções de terra para administrar. Os primeiros duques surgiram no Império Romano, onde generais eram chamados de dux ("aquele que conduz", em latim).
MARQUÊS
Homem da alta confiança do rei, a quem eram cedidos territórios fronteiriços ou mal pacificados. Sobre essas porções de terra, chamadas marquesados, ele tinha poder civil e militar. O título vem de um dialeto medieval francês, que nomeava os nobres como "governadores de marcas".
CONDE
Assessor, conselheiro ou oficial do palácio que auxiliava o rei em assuntos cotidianos variados. Recebia condados, porções de terra menores que os marquesados. O título vem da Roma antiga, onde a palavra latina comes ("aquele que acompanha") se referia àqueles que moravam com o imperador.
VISCONDE
Responsável por substituir o conde e assumir as funções de assessor do rei na ausência do titular. Recebia territórios pequenos, do tamanho de vilas. Vem do latim vicecomes, ou seja, "vice-conde".
BARÃO
Súdito fiel do rei, em geral homem rico, que prometia lealdade e serviços em troca de pequenas fazendas ou sítios, que seriam herdados por seus descendentes. A palavra, de origem germânica, quer dizer "homem livre".

O Nobre
Nível
BBA
Habilidades
+0
Autoconfiaça, Frivolidade, Herança
+1
Orgulho 1/dia, riqueza
+2
Comandar, Contatos
+3
Muitos Talentos
+3
Língua de Prata
+4
Orgulho 2/dia
+5
Inspirar Confiança
+6
Muitos Talentos
+6
Aura de Nobreza
10°
+7
Orgulho 3/dia
11°
+8
Comandar Aprimorado
12°
+9
Muitos Talentos
13°
+9
Língua de Ouro
14°
+10
Orgulho 4/dia
15°
+11
Inspirar Glória
16°
+12
Muitos Talentos
17°
+12
Aura de Majestade
18°
+13
Orgulho 5/dia
19°
+14
Comandar Maior
20°
+15
Muitos Talentos
Autoconfiaça: Soma seu bônus de Carisma na CA. No 5° nível, e a cada cinco níveis seguintes você recebe +1 na CA. (CA+1 no 5°, CA+2 no 10°, CA+3 no 15°, CA+4 no 20°).

Frivolidade: A nobreza possui muito tempo livre, no qual praticam passatempos ou estudam assuntos do seu interesse. Você pode escolher uma pericia qualquer e considerá-la uma pericia de classe (permitindo que você se torne treinado nela).

Herança: Você começa o jogo com um item (normal ou mágico) cujo valor não exceda 2.000TO.
 
Riqueza: No 2° nível, passa a receber dinheiro de sua família, patrono ou negócios. Uma vez por semana, você pode fazer um teste de carisma. Recebe um numero de Tibares de ouro igual ao resultado do teste multiplicado pelo seu nível.


Contatos: No 3° nível, estabelece uma rede de contatos, que podem ajudar com favores e informações. Para Pedir ajuda faça um teste de carisma + seu nível. A CD do teste depende do que esta pedindo: 10 para algo simples, 20 para algo caro ou complicado, 30 para algo perigoso ou ilegal. Pode pedir ajuda apenas 1 vez por semana.

Orgulho: Nobres acreditam que suas habilidades são maiores do que realmente são. Uma vez por dia um nobre pode somar seu bônus de carisma em uma jogada ou teste.  Você pode anunciar o uso dessa habilidade antes ou depois da rolagem de dados, sempre antes do mestre  declarar se você teve sucesso ou não. Nos níveis:  6°, 10°, 14° e 18°, recebe um uso adicional.

Comandar: No 3° nível recebe Comandar como talento adicional. No 11° nível recebe um bônus de +2 nos testes quando usa o talento comandar, no 19° nível para +3.

Muitos Talentos: Nos 4°, 8°, 12°, 16° e no 20° nível recebe um talento extra.

Língua de Prata: A partir do 5° nível, uma vez por dia, como uma ação livre, pode somar seu nível em um teste de diplomacia, enganação ou intimidação. Você pode anunciar o uso dessa habilidade antes ou depois da rolagem de dados, sempre antes do mestre  declarar se você teve sucesso ou não.

Inspirar Confiança: A simples presença de um nobre é capaz de entusiasmar as pessoas. A partir do 7° nível, qualquer aliado a até 9m de você recebe um bônus de +1 nas jogadas e testes. Essa habilidade não funciona se o nobre estiver inconsciente e se acumula com o talento comandar.

Aura de Nobreza: A partir do 9° nível, qualquer criatura inteligente (inteligência 3 ou mais) que tentar machucá-lo (causar dano, através de um ataque, magia ou hab. especial) deve antes fazer um teste de vontade (CD 10+metade do seu nível + mod. de carisma). Se falhar a criatura não conseguirá causar dano por 1 dia. Ela ainda pode derrubar, agarrar ou outras ações desde que não cause dano. Se você atacar a criatura esta habilidade é anulada e a criatura pode atacá-lo nomalmente por 1dia.

Língua de Ouro : A partir do 13° nível, 1x dia como uma ação padrão, pode gerar um efeito igual ao da magia sugestão em massa, com CD igual a CD 10+metade do seu nível + mod. de carisma. Note que essa não é uma habilidade mágica e provem de sua capacidade quase sobrenatural de influenciar outras pessoas.

Inspirar Gloria: A presença de um nobre motiva as pessoas a realizar façanhas impressionantes, capazes de colocar seu nome na história – como o do nobre certamente estará. A partir do 15° nível qualquer aliado a até 9m pode realizar uma ação padrão adicional por rodada, uma vez por combate. O aliado escolhe quando vai usar essa ação adicional, mas deve iniciá-la dentro de 9m do nobre. Afastar-se do nobre e depois aproximar-se dele não garante outra ação adicional.

Aura de Majestade: A partir do 17° nível, o nobre se porta de maneira tão distinta que impõe respeito  - e mais que isso, veneração – a todos. A habilidade aura de nobreza  passa a funcionar contra criaturas com inteligência 1 ou mais. Alem disso uma criatura que falhe no teste por 5 ou mais  se arrepende tanto de querer machucar o nobre que passa a proteger o mesmo,  lutando a seu lado – e seguindo suas ordens se puder entende-lo – pelo resto do combate.

Fonte: DragonSlayer 32 

Novos Talentos

MEMBRO DA BAIXA NOBREZA [Geral]
O personagem é filho ou protegido de nobres. Com isso ele conhece as manhas e regras das relações dos nobres.
Benefício: O personagem recebe +2 de bônus em todos os testes de Diplomacia e Conhecimento (nobreza e realeza) e elas são consideradas perícias de classe, independente de sua classe de personagem. Além disso, ele recebe como bonus um valor extra de 100 PO em equipamento, para se somar ao valor inicial normal de personagem de nivel 1.
Especial: Este talento só pode ser selecionado por personagens de 1º nível.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Defeitos para magos

Fadiga Arcana: conjurar magias arcanas é especialmente exaustivo para você.
Pré-requisitos: Habilidade de lançar magias arcanas
Efeito: cada vez que você conjura  com sucesso uma magia  você precisa fazer imediatamente um teste de fortitude (CD 10 + nível da magia) se você falhar você fica fatigado.

Parasitas Arcanos:
Centenas de parasitas invisíveis  dentro da sua carne devoram o seu poder arcano a cada magia que você lança
Pré-requisitos: Habilidade de lançar magias arcanas
Efeito: Cada vez que você lança uma magia  a CD  dos testes para resistir a  magia  é reduzida em -2. Esses parasitas não podem  ser removidos de forma alguma nem com desejo ou milagre.

Folklore: Você não possui  familiar
Pré-requisito: Habilidade conjurar familiar
Efeito: Você perde a  habilidade de conjurar familiar


quinta-feira, 23 de julho de 2015

Sob os Olhos da Deusa

O vento soprava pela muralha, vindo diretamente da densa mata dezenas de metros adiante. O ar estava carregado de expectativa, trazendo também o cheiro de terra e o barulho contínuo da mata dos sussurros. De pé no alto do muro, ele observava. Berforam Lâmina de Luz fixava olhos sérios e aperolados adiante, avaliando toda a distância entre o posto de vigília recém-construído e a beleza das árvores. Algumas delas se misturavam aos tijolos que formavam a proteção para dar ainda mais firmeza à barreira. Era um muro tão espesso e firme quanto o próprio homem que estava sobre ele.

O líder élfico tinha títulos pomposos e longos como era normal da raça. Ele não era apenas Berforam, era Lord Berforam, era Berforam Dannórien da casa Zafirah, era Berforam da Oitava Geração Dannórienn a pisar em Arton, era Primo do Rei Imortal Khinlanas e líder supremo dos Espadas de Glórienn. Tinha alma de guerreiro, sangue de nobres e do povo comum, olhos de líder e fé de sacerdote. Ele não era menos do que um homem de armas e mais do que um sacerdote, segundo suas próprias palavras. Homem orgulhoso do sangue que corria em suas veias, rezava todos os dias agradecendo pela supremacia élfica e por poder proteger seu povo dos bárbaros globinóides.

Berforam carregava símbolos de status como era o caso da espada Enanquessir, abençoada por Glórienn. Era uma arma que ele retirara do antigo líder dos guerreiros sagrados da deusa, passando a liderança para a casa que carregava a Orquídea do Dragão no escudo. A arma que cortava tão rápido quanto o sol e tinha golpes tão quentes que evaporavam o sangue inimigo não garantiu a proteção do seu ex-dono perante à habilidade do Dannórien. Agora ela estava à esquerda da cintura do elfo de olhos atentos. Não carregava nenhum arranhão e nunca perdera o fio nos trezentos anos desde que fora forjada e abençoada. Tinha um cabo de ouro e prata com a face de Glórienn modelada perfeitamente.

A perfeição era uma das obsessões dos elfos. Berforam era vítima dessa mania que o fazia treinar para defender o povo. Também era abençoado com uma beleza incomum. O corpo bem constituído, de músculos definidos era coberto por uma pele de poucas cicatrizes e cor tão suave quanto o sol de Lamnor permitia. Os olhos eram tão aperolados e brilhantes quanto os fios de cabelos que se quedavam sobre os ombros cobertos pela armadura. Às vezes fazia tranças para não se incomodar com os cabelos longos durante as batalhas. A proteção do corpo era dourada e negra com os símbolos da deusa no peito, arco e flecha prateados estampados para o orgulho daquele guerreiro fiel. A capa que o protegia dos ventos era branca como os espíritos da noite.

A mente do elfo vagava junto com os olhos, alcançando aonde a visão chegasse para avaliar o perigo que estava para chegar. Berforam reconhecia os sinais de um mal iminente. As nuvens negras que começavam a formar não eram apenas de chuva. O sopro do ar trazia mensagens de morte. O vento levantava a poeira na área livre e criava fantasmas que eram os arautos da aproximação inimiga. Ele sentia. O sangue de guerreiro o mostrava. Não eram instintos, porque elfos estavam acima disso. Era a alma evoluída, presente de Glórienn, que o mostrava.

Começou a emitir ordens para uma preparação bélica. Os homens deviam se posicionar e manter atenção contínua. A troca de turnos era importante e deveria ser feita discretamente para evitar que os inimigos se aproveitassem do momento crítico. As palavras do elfo chegavam a outras orelhas pontudas como ordens divinas e ele agradecia pela obediência. Segurou um pingente de prata que sempre carregava onde fosse. Ergueu a cabeça para os céus enquanto colocava uma mão sobre o peito. Foi com humildade que pediu forças a deusa.

“Eu me submeto à Senhora Nossa Mãe e peço a guarda da minha alma para que eu possa continuar a proteger nosso povo. Agradeço à Deusa que está nos Céus e no meu sangue”, orou, parando quando sentiu o perfume da mulher que amava.

A esposa escolhera a época errada para visitá-lo. Seria essa a razão de estar tão preocupado? Celiene era sua fraqueza e sua força, era uma paixão desvairada que o submetia há setenta anos. Era o maior presente que Glórienn já lhe dera. Ela e os três filhos que já haviam saído de seu ventre. Felizmente os dois mais novos não estavam ali. Apenas o mais velho, que seguia os passos do pai.

A elfa o abraçou por trás com aquele toque de quem merece toda a confiança. Berforam se virou devagar para aninhá-la nos braços. Era bom ter certeza de que ela estava viva. Sentia-se mais forte quando a tocava. Aqueles olhos dourados o inspiravam a lutar para a proteção do povo e a nunca duvidar do quão perfeito fora o trabalho de Glórienn ao criar os elfos. Ah, amor assim era raro. Sentimento que queimava a cada segundo para brilhar em seus olhos e aquecer sua pele desde quando pensava nela até nos momentos de amor nos lençóis.

Ele não queria perde-la e sentia que sozinho nunca seria capaz de defendê-la, por mais orgulhoso que fosse de suas capacidades. Morreria por ela, porém não dispensava a habilidade dos outros Espadas de Glórienn. Ficava mais tranqüilo com a elite guerreira por perto. Berforam deixaria mil flechas vararem seu peito para proteger Celine, porém não poderia admitir que enquanto morria alguém pudesse tocá-la.

- Algum problema? - Celiene perguntou, sentindo a preocupação do marido. Ela o conhecia e não precisava nem de sentir seu cheiro para saber que algo afligia a alma do guerreiro.

- A tempestade - o guerreiro respondeu, desviando o olhar e apontando para o horizonte. As nuvens negras se movimentavam no céu tomando formas monstruosas. O forte vento que soprava poderia ser hálito maligno daquela criatura elemental.

- Acho que não escolhi uma boa semana para vê-lo - a elfa disse, sabendo que completava os pensamentos do marido. Berforam se preocupava com a vida de todos os elfos. Mas naquele posto de vigilância moravam apenas guerreiros e eles sabiam se defender. Celiene não.

Recentemente os glóbinóides haviam aparecido com mais intensidade. Justamente por isso, os Espadas de Glórienn estavam ali. Elas deveriam impedir a entrada de seus inimigos no território élfico. Khinlanas achou desnecessário, afirmando que os estúpidos goblinóides nunca passariam da Mata dos Sussurros. Um grupo de guerreiros liderados por um sacerdote de Glórienn seria suficiente. Berforam não concordou e o rei não ousou questioná-lo. O nobre Zarfirah submetia-se à realeza, porém, quando o orgulho e a fé borbulhavam no sangue, nem mesmo a figura de Khinlanas o enfrentava sozinho ou diretamente.

O guerreiro sagrado estava certo. Desde que passaram a controlar o posto, cerca de duzentos hobgoblins foram mortos. Simples guerreiros não resistiriam a esses ataques constantes. Apenas a experiência de seu líder aliada ao poder divino das Espadas de Glórienn permitiu a sobrevivência de todos e a proteção da fronteira.

- Acha que haverá algum ataque hoje? - a elfa perguntou, na esperança de poder passar uma noite em paz com seu marido.

- Tenho quase certeza, meu amor. Quero que parta amanhã de manhã e fique com nossos filhos. Não quero que se arrisque aqui. Mandarei três guerreiros a escoltarem junto com uma mensagem para manter todo elfo longe da região. As patrulhas de rastreadores também devem ser dobradas - Beforam disse, já pensando nos planos. Abraçou a esposa com força, como se seu único medo no mundo fosse perdê-la. Os dois se beijaram longamente e ficaram abraçados por um tempo, observando a tempestade e conversando sobre seu significado. Acabaram concordando que Glórienn os protegeria de qualquer mal.

****

Era uma noite de presságios ruins. Os inimigos estavam ocultos pelos elementos agitados e caóticos que se erguiam e se misturavam no ar. Khessarel, o mago e melhor amigo de Berforam, balançava a cabeça xingando a si próprio pela incapacidade de desfazer aquela barreira elemental que incomodava tanto o trabalho das sentinelas. Coçava o queixo enquanto os olhos perdiam-se em preocupação e procura por uma solução. Entretanto, ainda que os sentimentos oprimissem a alma, nem uma única ruga de preocupação surgia no rosto. Era uma figura controlada e segura de si que não se rendia à observação externa. Tentava imaginar se poderes clericais ajudariam, porém Lissinim, a jovem sacerdotisa local, não fora de muita valia.

A magia não fora útil até o momento, portanto os Espadas de Glórienn decidiram que a espada e a fé deveriam bastar. Eram o que sempre lhes serviram melhor e nunca lhes faltaram. Rel´Keram, filho mais velho de Berforam e Celiene, estava liderando o posto naquela noite. Ele se aproximou de Khessarel com a mão no punho da espada.

- O que você acha? - o jovem guerreiro perguntou ao velho e experiente mago.

- Seu pai está sempre certo, meu jovem. Aprendi a não duvidar de sua sabedoria durante esses anos - Khessarel respondeu. Ele estava com os braços cruzados e não retirava os olhos da escuridão do horizonte. Naquela noite, a lua não aparecera e o vento gerava ruídos horríveis, parecidos com gritos de almas desesperadas. Geralmente, as noites na Mata dos Sussurros eram calmas e o sopro do vento gerava apenas ruídos fracos como sussurros. O mago estava preocupado com a mudança.

- O antigo líder do posto disse que já aconteceram outras tempestades por aqui e sempre que o vento sopra mais forte aparecem esses gritos - Rel´Keram disse, tentando acalmar a si mesmo e ao mago. Khessarel quase riu, mas não caçoaria do filho de Berforam. Elfos não esqueciam de ninguém que feriam seu orgulho. Além do mais, Rel´Keram ainda teria muito tempo para aprender a avaliar os sinais do mal.
Assim que o guerreiro terminou a frase, Lissinim se aproximou.

A pequena sacerdotisa apareceu nervosa e apreensiva. Fora alistada para acompanhar aquele grupo de Espadas de Glórienn há poucas semanas apenas porque o clérigo habitual que os seguia não pudera comparecer. A pequena e jovem elfa era a única disponível no momento.

Berforam dizia que aquela seria uma boa experiência para a garota, mas ela duvidava disso principalmente porque o que os guerreiros chamavam de boa experiência ela preferia não ver. Além do status por estar ao lado das Espadas de Glórienn, só havia mais uma coisa que a elfa gostava ali. Ela se apaixonara por Rel´Keram e sempre procurava um motivo para estar ao seu lado. E, naquela noite, além da paixão, ela queria sentir segurança.

- Lissinim, tudo bem? - o elfo guerreiro perguntou, após fazer o gesto habitual para cumprimentar um sacerdote. Mostrou a palma da mão e a apontou na direção do coração de Lissinim. Ela respondeu com o cumprimento certo para um guerreiro sagrado, bateu a mão direita aberta na palma esquerda.

Khessarel resmungou e balançou a cabeça. Não entendia o motivo daqueles rituais. Os dois se conheciam e se gostavam, dormiam abraçados durante a noite e, no entanto, sempre se cumprimentavam da mesma maneira. A sacerdotisa entendeu errado o resmungo e começou a tomar posição para se apresentar ao mago. Ele simplesmente abanou a mão a dispensando.

- Os soldados parecem um pouco nervosos, mas eu já conversei com eles. Os Espadas de Glórienn estão preparados. Sua fé é inabalável e sei que chegariam até o fim do mundo por nossa deusa - Lissinim disse. Khessarel achou o discurso desnecessário, porém a formalidade élfica praticamente o exigia. Agora era hora de alguém dar uma resposta pomposa.

- Nossas armas sempre estão prontas para se erguer em nome da deusa - Rel´Keram disse, ignorando mais um resmungo de Khessarel. O mago odiava aquelas conversas melodramáticas. Por que os dois não começavam a se beijar de uma vez e se calavam?

- Essa noite será longa, mas teremos a proteção da... - Lissinim tentou continuar, mas foi interrompida por Khessarel.

- Cuidado! - o mago gritou, já erguendo um escudo mágico. A barreira brilhante citilou quando sete flechas a atingiram. A madeira das setas partiu-se e espalhou-se pelo chão, o barulho acompanhado da espada de Rel´Keram sendo desembainhada. - Hobgoblins. Demorou, mas eu consegui enxergá-los. Agora sim! Estava guardando essa magia para acabar com a escuridão próxima. Ela não durará muito tempo. Lissinim, chame Berforam. Rel´Keram, prepare-se para a primeira das piores batalhas de sua vida.

Uma correria se iniciou nas muradas do posto de vigilância. Enquanto isso, Khessarel procurou pelos componentes materiais de sua magia nos bolsos de seu manto. Retirou uma pétala de uma orquídea negra, uma das plantas mais raras de Arton e esfregou nas mãos. Enquanto começava a recitar as palavras mágicas, a planta começou a pegar fogo. Pequenas faíscas começaram a surgir nos dedos do mago, expandindo-se aos poucos até desaparecerem instantaneamente. O sumiço foi seguido por um clarão súbito que iluminou uma centena de metros á frente.

Para a surpresa de todos, mais de cinqüenta hobglobins estavam escondidos na mata próxima. Começaram a correr na direção do posto de vigilância como criaturas desgraçadas e violentas que eram. Carregavam a sujeira e o fedor da existência de Ragnar naquela marcha furiosa. Flechas, vindas de ambos os lados, tomavam o ar iluminado para aterrissar em armaduras rígidas ou em carne macia. Khessarel começou a preparar bolas de fogo que clareariam ainda mais a noite. Em pouco tempo, o odor de carne queimada já se espalhava enquanto a tropa de goblinóides avançava e deixava corpos de irmãos carbonizados para trás.

*****
No início, Berforam imaginou que as muralhas os protegeriam. Bastaria atirar magias e flechas de lá de cima para acabar com todos os hobgoblins. Ele estava errado. A dor do erro o perseguiria pois os golpes que seguiriam não atingiram sua pele, mas sua alma. O pesadelo começou quando a primeira pedra voou assobiando pelo ar infectado da noite. Os olhos de Berforam mal acreditavam quando a imensa rocha desceu para bater contra as muralhas. Os tijolos e as árvores se partiram como vasos de cerâmica e gravetos jogados no chão.

O elfo não se abalou por muito tempo. As ordens saltaram depressa para que os guerreiros saíssem do posto de vigilância. Era preciso alcançar os inimigos no campo de batalha e impedir o avanço. Os Espadas de Glórienn entrariam diretamente na batalha, enquanto Khessarel lideraria os guerreiros que ficariam na muralha, dando apoio com arcos e na proteção da retaguarda.

Lissinim observava assustada. Uma pedra caíra a metros dela e os estilhaços gerados a derrubaram. Não houve ninguém para ajudar a elfa a levantar-se. Os guerreiros precisavam passar apressados para alcançarem os inimigos. Quase tremendo de medo, só mudou de atitude quando, de pé, viu Berforam avançar para a luta com a aura radiando coragem e orgulho élficos. Lissinim começou a rezar para a vitória dos filhos da Deusa. Fez uma prece especial para Rel´Keram.

O jovem guerreiro lutava ao lado do pai, impressionado com a cena de batalha proporcionada pelos Espadas de Glórienn. Berforam movia-se entre os monstros como um gato, desviando-se de ataques e levantando Enanquessir para derrubar inimigos com um golpe só. Rel´Keram quase duvidava que a espada realmente atingisse os goblinóides. Os golpes eram rápidos demais e o sangue que espirrava das feridas logo desaparecia no ar, evaporando devido ao calor da espada sagrada.

A luta estava equilibrada. Eram três goblinóides para cada elfo. Berforam esperava mais. Aquela batalha mal estava o cansando. Os Espadas de Glórienn avançavam sobre os goblinóides e desfaziam a parca organização dos monstros com entradas rápidas e golpes inclementes. Berforam sentia o cheiro de sangue e agradecia à deusa por não ter aquele mesmo líquido podre e fedorento correndo em suas veias. Era o agradecimento de todo elfo nas orações, ter nascido elfo, ser um Filho da Deusa. A existência daquelas criaturas era a prova do quanto eles eram melhores e do que deviam à Mãe Élfica por ser o que eram.

A batalha terminou antes do esperado. Os goblinóides que ainda estavam no meio das matas recuaram, levando os estranhos instrumentos que utilizaram para arremessar suas pedras. Berforam impediu qualquer tentativa de perseguição. Com certeza seriam mortos se entrassem na mata. E havia algo de estranho naquele ataque. Aquilo parecera apenas um teste.

O guerreiro percebeu que fora um teste bem sucedido assim que olhou para trás e viu os muros do posto de vigilância destruídos. Ele interrompeu seu agradecimento a Glórienn assim que se lembrou de Celiene. Berforam começou a correr de volta, dando ordens para que levassem qualquer ferido para os cuidados de Lissinim.

*****
Khessarel balançou a cabeça lamentando a desgraça à frente. Ele bem que preferia estar triste pela destruição dos muros ou pelos novos instrumentos de guerra dos goblinóides, mas não, estava diante de algo pior. Em meio aos tijolos quebrados e escombros do antigo posto estava Celiene. Khessarel se abaixou para verificar o estado da elfa. O sangue escorria pela boca e pelo nariz, um braço estava roxo e torcido enquanto uma das pernas sumia debaixo das pedras. O peito dela se movia com dificuldade. Khessarel deu ordens para chamarem Lissinim e Berforam. Teve medo de tocar a esposa do amigo e causar mais danos.

Foram precisos dois guerreiros para impedir que o líder das Espadas de Glórienn corresse até sua esposa. Todo guerreiro sagrado tem o dom de curar outro elfo com o simples toque de sua mão. No entanto, aquilo não bastaria no momento. Sua esposa precisava de cuidados mais urgentes que apenas  a sacerdotisa poderia providenciar.

Lissinim rezou por bastante tempo e derramou água com pétalas de rosas nos ferimentos de Celiene. Infelizmente, mesmo com toda sua fé, a jovem não conseguiu curar completamente a esposa do general. O que conseguira apenas havia permitido aos elfos carregarem Celiene para um local mais adequado, onde pudesse esperar por sua morte com um pouco de conforto. Ela foi levada para um quarto pequeno, mas aconchegante, cheio de desenhos e decorações belas. A cama era macia e confortável, coberta por lençóis prateados, sempre colocados para os elfos moribundos descansarem.

Berforam sentou-se ao lado da esposa e não saiu dali o dia inteiro. Não derramou uma lágrima, pois acreditava que Glórienn ainda poderia salvá-la. E se fosse vontade da deusa ter sua esposa, assim seria. Ele apenas parou suas preces para encarregar Khessarel e Rel´Keram da liderança do posto. Foi um ato de lamentação, pois ele sabia que não deveria abandonar o comando. Já enterrara tantos amigos e subordinados antes, por que agora se sentia tão fraco e desolado?

- Não se preocupe, meu daelih, meu querido. De um jeito ou de outro, estarei a seu lado. Eu me unirei a Glórienn e sempre que você rezar para nossa deusa, estará conversando comigo - Celiene disse, em um dos seus poucos momentos de consciência.

- Poupe suas forças, meu amor. A deusa não te chama ainda - Berforam disse, mas ele mentia para si mesmo. O elfo via o sangue da esposa escorrendo pelo lençol e sentia seu coração se apertando. Cada gota vermelha era como um pouco de areia caindo na ampulheta da vida.

- Não minta para si mesmo, meu daelih. Eu sinto o chamado dela e não temo. Despeça-se de nossos filhos em meu nome. Não precisa dar nenhum recado além de pedir para rezarem para a Deusa. Aí nós conversaremos - sussurrou e abriu os braços, esperando um abraço. Berforam se aproximou cautelosamente e a envolveu com todo seu amor, mas já cheio de saudades.

Quando os dois se soltaram, o calor do corpo de Celiene já se esvaía. O coração não se movia no peito com o ardor de todas as vezes em que via o marido. O guerreiro ficou parado por alguns instantes apenas a observando. Havia um dragão em seu peito que devorava suas forças e ele ainda pensava em como resistir àquela fera nascida da morte da esposa. Então ele pediu que a Deusa a trouxesse de volta. Rezou durante quase meia hora, com medo de chamar qualquer pessoa que confirmasse a morte da elfa. Quando finalmente aceitou o fato, agradeceu a Glórienn pelo fato de os dois terem conversado antes da partida de Celiene.

Berforam aproximou seu rosto dos lábios da esposa para um último beijo. Para sua surpresa foi correspondido. O guerreiro ergueu-se assustado e olhou para a esposa. Ela o fitava com os olhos tranqüilos. Berforam já ia abraçá-la quando notou que havia algo de errado naquele olhar. Aquela não era Celiene. Ele não sentia mais a compreensão, o amor e a simplicidade. O brilho daqueles olhos tinha amor e compreensão, mas também uma sabedoria quase infinita.

- Você não é Celiene - o elfo disse, já sabendo quem habitava o corpo de sua esposa. E não precisou olhar para saber que os ferimentos haviam desaparecido.

- Trate-me como sua esposa. Transforme sua fé em puro amor, Berforam. É só isso que eu quero - ela disse, com uma voz suave e materna. Percebendo que não deveria falar daquele modo, alterou seu tom, deixando-o sedutor e apaixonado.

Berforam não sabia o que dizer. Ele a olhou e soube que Celiene estava ali, de algum modo. Todos os elfos se unem a Glórienn depois da morte.

*****
Khinlanas ordenou que Berforam voltasse para casa assim que soube do acidente com Celiene. O líder das Espadas de Glórienn reportou pessoalmente ao rei tudo o que acontecera e dera todas as suas opiniões sobre as decisões a serem tomadas.   Ele passou horas conversando com o conselho, tentando convencê-los de que algo estava sendo tramado entre os goblinóides. E também afirmou que aquela tempestade não fora comum. De nada adiantou. Eles apenas responderam que analisariam o relatório e pensariam no assunto.

Berforam saiu contrariado da reunião. O guerreiro queria que Lenórien tomasse alguma atitude e pensou em pressionar o rei, porém os acontecimentos recentes o deixaram abalado e ao mesmo tempo seguro de que uma atitude imediata não seria necessária. Nervoso, pensava que os elfos precisavam eliminar os malditos goblinóides de uma vez só. Resolveu se sentar em um dos jardins do castelo para tentar se acalmar. Não queria encontrar sua esposa e filhos naquele estado. Acomodou-se diante de uma fileira de Orquídeas do Dragão e percebeu que, sem querer, havia chegado ao jardim da Casa Zafirah. Toda casa nobre tinha o direito de cuidar de um dos belos canteiros em volta do castelo real. Era um símbolo de status e uma grande competição para os nobres. De fato, os jardins eram lindos, obras primas criadas por jardineiros, magos e sacerdotes especializados na arte de aproveitar a máxima beleza das plantas.

Observou as grandes torres espalhas pela cidade. Todas eram claras e refletiam a luz solar para as inúmeras árvores que cresciam no meio das construções. Crianças brincavam despreocupadas pertos das fontes naturais e velhos conversavam nos bancos construídos nas gigantescas raízes.

Um elfo de longos cabelos, vestindo um simples manto marrom e portando um cajado de madeira, se sentou a seu lado. A testa estava enrugada e cheia de preocupação. Berforam o conhecia de outras épocas e outras batalhas. Aquele era Razlen, sacerdote de Allihannatantala, a deusa da natureza. Ele ajudara os Espadas de Glórienn em várias missões que envolviam procurar por inimigos nas matas do reino.

- Acredito que tem a mesma preocupação que eu, guerreiro da fé - Razlen disse, com uma voz suave, que lembrava mais o canto de um pássaro.

- Sim. Nossos inimigos estão tramando algo. Devemos marchar logo para destruí-los - Berforam disse, batendo o punho fechado na palma da mão esquerda.

- Não resolveremos essa situação assim - Razlen respondeu, como se estivesse cansado de ouvir aquela frase.

- Como não? Temos Glórienn do nosso lado - o guerreiro disse, segurando o símbolo da deusa.

Eles também têm seus deuses, Razlen pensou. Só que achou melhor não falar nada. Não adiantaria. A fé de Berforam estava mesclada com a arrogância natural da raça élfica. O druida apenas ficou calado e olhou para as árvores, como que pedindo ajuda a sua deusa. Porém, o próprio Razlen desconhecia o motivo do abalamento psicológico de Berforam. Não sabia o tumulto que devorava o coração do elfo, com aquela mistura de fé, amor, orgulho, desejo e devoção. Era preciso ser mais do que um guerreiro, mais do que mortal para lidar com tantos sentimentos de uma vez só.

- Pelo menos você sabe que Lenórien deve agir rapidamente para evitar um desastre - Razlen disse. Então o druida se levantou tentando controlar sua própria impaciência. 

Berforam não o impediu de ir embora. Os dois nem se despediram. O guerreiro ainda ficou um tempo parado, pensando na própria vida, tentando esquecer os problemas. Então se levantou e tomou o rumo de casa.

*****
Berforam ficou em Remnora durante um mês juntamente com sua família. Apenas Rel´Keram não estava lá. Ele e Khessarel ficaram encarregados de comandar o posto de vigilância que fora reconstruído. Antes era a primeira defesa da cidade de Lizessir, agora defenderia toda a nação, sendo uma das principais bases do exército.

Aquele só não foi o mês mais feliz da vida de Berforam porque às vezes ele não conseguia enxergar Celiene apenas como sua esposa. Ela era mais do que elfa, era a essência élfica encarnada diante dos olhos do guerreiro. Os momentos na cama eram uma mistura de orgulho e sacrilégio para o guerreiro, sentimentos que desapareciam durante o prazer e voltavam quando sentia o calor dela em seus braços e nada tinha além do silêncio e as luzes apagadas como companhia. Não havia mais aquela mulher que era igual a ele para sentir seu desabafo e compartilhar fraquezas. Agora era outra... uma estranha que, ao mesmo tempo, era mais do que familiar. Era seu sangue e sua companhia na vida e na morte.

Às vezes agia como uma deusa, exigindo atenção constante e tratava os filhos da mesma maneira. Para a antiga Celiene, cada um deles era único e merecia um tratamento diferente. O tom de voz da mãe mudava de acordo com o filho com quem falava. Aquela elfa que agora segurava Talim, de apenas três anos de idade, via as crianças apenas como uma professora que cuida de seus alunos no jardim de infância. Estava sempre preocupada e queria agradar, tratando todos muito bem. Mas faltava algo, talvez a mortalidade ou o fato de ter concebido.

Talvez o segundo problema pudesse ser resolvido já que Celiene estava grávida. E seu sorriso mudara desde então. Estava sempre mais feliz e ansiosa, como se fosse seu maior desejo. Berforam estava orgulhoso por ser pai mais uma vez. Ainda sim, sua mente às vezes se confundia. Quando se deitava com aquela elfa, não sabia se realmente podia a tratar como sua esposa ou se devia reverenciá-la.

Algumas vezes, Celiene ficava irritada ao ser tratada como uma simples pessoa. Então mudava de idéia de repente, pedindo para que Berforam voltasse a ser simplesmente seu marido. E ninguém entedia aquilo, pois Berforam nunca dissera a verdade sobre o que acontecera naquela dia.

A família passava a maior parte do tempo unida. Berforam treinava sua filha do meio, Nenianna, sendo observada atentamente por Tali e Celiene. De vez em quando a mãe aparecia para corrigir a postura da filha ou algum erro na defesa. Nenianna estranhava, pois nunca vira Celiene lutando. Ela preferia apenas cuidar de seu jardim e ensinar os outros a escrever. Tinha modos diferentes da jovem elfa que sonhava em ser uma arqueira dos Espada de Glórienn.

Berforam se sentia aliviado por nunca ter sido corrigido pela esposa. Mas isso não era preciso. O estilo de luta do guerreiro era quase perfeito. Só melhoraria se ele fosse imortal. O que enchia o coração do guerreiro de saudades era o cuidado que sua esposa tinha com sua aparência, sempre tentando mantê-lo arrumado para as reuniões e corrigindo qualquer erro no comportamento. Os dois se divertiam muito quando conversavam sobre isso.
*****
A paz de Berforam terminou assim que Khessarel avistou um exército de goblinóides se aproximando do posto de vigilância, agora chamado de Primeira Barreira da Eternidade. O guerreiro montou em seu cavalo e correu para tomar sua posição, deixando a família em Lizessir. Ao mesmo tempo, ele mandou as Espadas de Glórienn se espalharem por todas as cidades do reino e montou um posto especial de proteção em Remnora. O guerreiro sabia que aquele não era o exército completo dos goblinóides. Havia mais daqueles seres vis vindo de todas as direções.

A Primeira Barreira da Eternidade deveria atrasar aquele exército para que Lizessir pudesse se proteger. A batalha seria difícil, mas os guerreiros estavam preparados.

Lissinim estava mais agitada do que nunca. Ela correu até Rel´Keram com o coração batendo forte no peito. Seu amado estava conversando com Khessarel, o que a fez hesitar antes de se aproximar. A jovem elfa não gostava muito do mago, principalmente porque ele não era um homem de fé. Tinha mais crença em sua magia do que na Deusa. E sempre havia aqueles resmungos malditos que ela nunca entendia. 

- Rel´Keram, prepare-se para a primeira das piores batalhas de sua vida - o mago disse. Esse era outro costume que irritava a sacerdotisa. Antes que de qualquer luta, Khessarel insistia em dizer essa frase.

- Nós venceremos com a ajuda de Glórienn - Lissinim comentou, tentando provocar.

- Lissinim, prepare-se para a primeira das piores batalhas de sua vida – Khessarel resmungou. O sorriso de vitória no rosto de Lissinim desapareceu imediatamente. Ela nunca conseguia irritar o mago. E seus resmungos nem sempre significavam irritação.

Uma discussão estava para se iniciar quando se deu o sinal para todos tomarem seus postos. A batalha estava para se iniciar. Arcos e flechas foram preparados. Espadas foram sacadas. Armaduras foram ajeitadas no corpo. As últimas preces foram feitas.

Lissinim acabara de abençoar os guerreiros quando ouviu os barulhos dos tambores do exército goblinóide. Eram assustadores. Seu coração parou por um momento quando olhou para o horizonte. Ela nunca vira tantos hobgoblins e bugbears juntos. Sua marcha levantava uma enorme nuvem de poeira que quase tomava a forma da alma de Ragnar. Por pouco a jovem não duvidou de sua fé e da vitória. Ela correu para Rel´Keram e o abraçou pela última vez. Os dois se beijaram sem dar atenção para o resmungo de Khessarel.

Berforam esperou o beijo acabar para chamar o filho. Os dois desceram imediatamente e ficaram esperando pelo momento certo para os portões serem abertos e a batalha começar. Dessa vez, eles não esperariam as gigantescas pedras quebrarem os muros. Enquanto as flechas matavam os inimigos da tropa de frente, os elfos sairiam de sua base para enfrentar os inimigos cara a cara.

Nenhum dos guerreiros da Espada de Glórienn duvidou da vitória naquele dia. Eles só não sabiam qual seria o preço dessa vitória. Enquanto rezavam para a Deusa, pediam proteção para suas famílias e longa vida para o reino.

Khessarel se aproximou de Berforam pouco antes da luta começar.

- Desculpe-me questioná-lo, mas somos amigos há muito tempo. Você não acha que deveríamos recuar e enfrentar esse exército juntamente com os soldados que estão em Lizessir? - o mago perguntou.

- Não, precisamos atrasá-los. Essa foi a ordem de Khinlanas. E você não precisa se preocupar. Glórienn está protegendo nossas famílias. Não vamos falhar aqui. E se perdermos, a Deusa ainda estará lá. Ela não deixará ninguém chegar a Remnora - Berforam falou, com os olhos cheios de fé e orgulho.

Khessarel não disse mais nada. O mago julgou que o guerreiro soubesse de algo a mais. Talvez tivesse recebido um aviso da deusa ou um grande grupo de sacerdotes e Espadas de Glórienn estivesse se movendo para proteger Lizessir. A cidade seria a última barreira antes da capital do reino élfico.

*****
A luta estava desequilibrada. Quase oito goblinóides para cada elfo. Não fosse pelas estratégias de luta de Berforam e pelo poder das Espadas de Glórienn a derrota ocorreria em pouco tempo. Mas eles resistiram com todas as suas forças. Sua fé era inabalável.

Berforam ergueu Enanquessir para matar mais um hobgoblin e voltou-se para os elfos que o acompanhavam para gritar mais uma ordem. Quando foram cercados no meio do campo de batalha, eram um grupo de oito, agora só restavam Rel´Keram e mais dois Espadas de Glórienn. O guerreiro olhou para todos os lados e viu que o mesmo estava acontecendo com outros grupos.

- Precisamos nos reunir novamente - ele gritou e mandou uma mensagem mágica para todos os Espadas de Glórienn. Sempre havia pelo menos um desses guerreiros sagrados liderando um destacamento. - Eles conseguiram nos separar. Perderam muitos soldados para isso, mas ainda há mais deles. Não recuem. Glórienn está conosco! Lutem com fé!

A luz de sua espada brilhava cada vez mais forte, cegando os hobgoblins que se aproximavam e criando um escudo contra qualquer flecha ou pedra que fosse arremessada. Mais uma vez a lâmina cortou o pescoço de um oponente. Berforam a recuou depressa para aparar o golpe de outro inimigo.

Rel´Keram estava orgulhoso do pai. Ele nunca deixava de se impressionar ao vê-lo lutar. Seu estilo de luta era impressionante. Praticamente perfeito. Pena que o seu não era. O jovem guerreiro esforçou o máximo que pôde, mas Glórienn não estava disposta a ajudá-lo naquele dia. Pelo menos foi o que pensou quando sentiu a lâmina enferrujada de um bugbear penetrar em seu peito. Não teve tempo de se despedir de seu pai.

Berforam mal pôde se conter quando viu o filho cair. Ele entrou em um estado de fúria incontrolável. Enanquessir aparou a espada do bugbear e a partiu ao meio. O monstro nem teve tempo de se surpreender. Os ataques que o mataram em seguida foram tão rápidos que ele nem teve tempo de um grito de dor. Enanquessir cortou o peito duas vezes e depois decepou a cabeça do adversário. Foi um momento raro, pois o general élfico raramente desperdiçava golpes. Não precisava de mais do que um para acabar com um goblinóide.

A batalha terminou no fim do dia. Berforam não se lembrava direito do que acontecera. Sabia que lutara muito e com todas as suas forças. Seus membros ainda doíam devido ao esforço. Ele acordou coberto de sangue com Enanquessir caída a seu lado. Corpos de elfos e goblinóides se espalhavam por toda parte.

Demorou um pouco para o guerreiro recuperar completamente a consciência. E ele só voltou à realidade quando sentiu alguém o levantando. Berforam levou a mão à cintura para retirar sua adaga e atacar, ainda que o braço doesse, cobrando o preço do esforço da batalha.

- Sou eu Khessarel - o mago gritou. Por pouco não foi morto pelo amigo.

- O que aconteceu? - Berforam perguntou, balançando a cabeça e começando uma prece.

- Perdemos. Fomos forçados a recuar. Eu o julguei morto, meu amigo - Khessarel disse. O mago vira Berforam enquanto usava suas magias do alto da murada. Nunca vira o guerreiro lutando tanto. Não duvidaria se dissessem que cem hobgoblins morreram por sua espada naquele dia.

- Sobreviventes? - o guerreiro perguntou, interrompendo momentaneamente sua prece.

- Poucos. Estamos nos preparando para rumar para Remnora ou para fugir. Soubemos que algumas caravanas estão partindo de Lenórien. Elas podem precisar de ajuda - Khessarel contou. Ele já julgara a guerra perdida. Se as Espadas de Glórienn, lutando ao lado de Berforam com o máximo de seu poder, não conseguiram parar os goblinóides, então nada mais deteria aquele exército.

- Ainda não perdemos, meu amigo. Glórienn está do nosso lado. Vamos para Lizessir. Ela estará nos esperando lá para nos abençoar em mais uma batalha - Berforam disse, tentando se manter de pé por conta própria.

A maioria dos sobreviventes da Primeira Barreira da Eternidade pensava do mesmo modo que Khessarel, mas eles decidiram seguir Berforam pelo respeito que tinham por seu líder. O mago também foi. Durante o caminho, não havia nenhum sacerdote para ajudá-los. Todos haviam morrido, inclusive Lissinim.

*****
A cidade estava queimada e completamente destruída. Os goblinóides não pararam ali nem para saquear. Fariam isso depois, assim que acabassem com Remnora. Era na capital que estavam escondidos os verdadeiros tesouros.

Em Lizessir só restavam alguns goblins e hobgoblins que queriam atormentar os sobreviventes. Berforam acabou com todos esses monstros com a ajuda do que restara de sua companhia. O elfo lutou quase sem ânimo. Apenas uma leve esperança de encontrar sua família movia sua espada. Quem estava ao seu lado nem imaginava que aquele fosse Berforam Lâmina de Luz. Os olhos aperolados quase não tinham brilho no meio daquele rosto sujo de sangue.

Quando todos os monstros foram mortos, os elfos reuniram os sobreviventes e começaram a cremar os mortos, buscando identificá-los. Berforam achou os corpos de seus dois filhos. Perdera toda sua família durante a batalha. No entanto, Celiene não estava ali. Ninguém soube explicar o que acontecera com a esposa do guerreiro.

Pela primeira vez em muitos anos, Berforam chorou. Ele simplesmente se ajoelhou segurando os corpos frios de seus filhos e deixou as lágrimas escorrerem pelo rosto. No início ele se culpou por não ter recuado. Deveria ter ouvido Khessarel. Poderia ter salvado muitas vidas.

Quando se lembrou que faltava um corpo em seus braços, o elfo se revoltou. Onde estaria Celiene? Ela deveria ter protegido sua família. Não! Ela não deveria ter protegido apenas Talim e Nenniane? Toda Lizessir deveria estar viva e festejando em homenagem à Deusa. No entanto, Celiene desaparecera. Teria fugido? Estaria preparando um novo plano?

- Não se preocupe. Glórienn é sábia e acolhedora. Ela receberá as almas de seus filhos e eles a ajudaram a defender Remnora - um velho sacerdote disse, tocando no ombro do guerreiro.

Berforam fitou-o com os olhos cheios de raiva e fúria, sem nem um pouco da beleza de antes. O sacerdote recuou com medo de ser atacado. Percebendo a hesitação do elfo, o guerreiro levantou-se e levou os corpos dos filhos para serem queimados. Pediu que alguém fizesse as preces, pois ele não conseguia. E não foi o único a recusar-se a fazê-lo. Naquele dia, vários elfos morreram sem terem uma prece feita por seus parentes. Cada cadáver era uma lança de humilhação atravessando o coração orgulhoso de um filho de Glórienn.

Todos os sobreviventes de Lizessir fugiram de Lenórien escoltados por Berforam. Durante o caminho, eles se encontraram com várias caravanas e o guerreiro não se cansava de perguntar se haviam visto alguém com a descrição de sua esposa. Cada vez que uma cabeça balançava ou ouvia um não, um pouco de sua fé se esvaía.

O que restava da fé de Berforam se foi quando ele viu o sofrimento nos olhos de seu povo. Ele vivera para amar, para ter fé e para proteger os elfos. Perdera o amor, começava a perder a fé e não podia admitir que ainda perderia seu povo. Olhando para as próprias mãos, viu que nelas estava a resposta para a sobrevivência de seus pares. Os elfos precisavam de proteção e não podiam contar com ninguém. Apenas suas espadas poderiam defendê-los, nada mais. E aí começou a queda do mais poderoso dos guerreiros elfos. Foi quando surgiu o primeiro elfo negro.



Autor:Antônio Augusto Fonseca Júnior “Shaftiel”