terça-feira, 16 de junho de 2015

Encontro Amargo





A floresta escura estava silenciosa. Os animais haviam a abandonado, assustados com o grito de ódio. Os pássaros voaram de seus ninhos deixando ovos e filhotes, temendo tanto por suas vidas que não se preocuparam com as crias. Coelhos e raposas correram juntos para se salvarem daquele grito terrível que não conseguiam reconhecer, que era tão afastado de sua natureza. Traçando um círculo a partir de onde os animais começaram a parar sua fuga, sabia-se que o centro seria o lugar onde um elfo, de espada na mão coberta de sangue e cabelos esverdeados tapando o rosto, estava ajoelhado.

                Enfiava uma adaga na terra e gritava vários nomes de heróis e deuses antigos de seu povo. Passou por vários, entidades esquecidas ou divindades menores que já haviam caído perante outros poderes. Só por um deles ele não clamava, sua Mãe e Senhora, a Dama que criara sua raça.

                Ao lado dele, quatro corpos estavam caídos. Eram todos seus amigos que haviam se juntado a ele nessa empreitada. Todos o seguiram tentando convencê-lo a parar com aquela idéia. Aqueles a quem procurava não eram nada mais do que uma lenda. Outros diziam que era a escória de uma raça amargurada. Esses faleceram um a um sob sua espada por desafiarem sua obsessão.

                Ainion das Antigas Noites de Bruma, elfo guerreiro, capitão de infantaria, passara os últimos anos lutando para que sua alma não morresse. Ele a sentiu definhando pouco a pouco, falecendo ainda que seu corpo longevo se mantivesse firme, levantando espada para arrancar sangue de monstros em toda espécie de aventuras.

                Enchera-se de tesouros. Tinha anéis mágicos nos dedos, uma armadura que impedia que qualquer flecha o acertasse, um colar que o protegia contra o fogo, uma espada que cortava o aço, tanto dinheiro que comprara seu próprio grupo de mercenários, com o qual adquirira ainda mais riquezas. Nada disso servira para preencher sua alma.

                Foi com admiração que percebeu o prazer ao cortar a carne daqueles humanos caídos a seu lado, seus antigos amigos de aventura que resolveram acompanhá-lo naquela empreitada. Aquilo só o fez perceber que estivera certo em ir até ali. O descanso de sua alma élfica estava naquela floresta.

                - Querda sleerien farsh – disse. “Que a morte seja breve e eterna”, falava em um ditado para a alma élfica.

                - Canh triani lus malari – completou alguém, que agora colocava a mão em seu ombro. “Para que nenhum deus nos culpe de falta nobreza”, dizia o restante do ditado.

                Ainion fincou de vez a faca no chão e olhou para as duas figuras silenciosas que estava atrás dele. Um era Alyan nih Narceliene, outro elfo guerreiro que ele conhecia desde os tempos do império, antes da queda que destruíra a alma de Ainion. A elfa que o seguia era a sacerdotisa Marwen nih Sarntir, serva da deusa cujo nome Ainion não pronunciava.

                - Você matou amigos, Ainion – disse Alyan, agachando-se ao lado do amigo.

                Lágrimas desceram pelo rosto do líder mercenário.

                - Eles não acreditavam.

                - Nem precisavam. Vieram para salvá-lo dessa crença maldita.

                - Vocês só estão vivos porque acreditam que é verdade.

                - Acreditamos e tememos – disse Alyan, olhando em volta.

                - Não tememos... Desprezamos – corrigiu Marwen.
                Alyan ajudou o amigo a se levantar. Olhou para a face triste. As lágrimas escorriam pela cicatriz na bochecha esquerda. Entregou-lhe uma fita marrom bordada com frases de glória.

                - Não tenho mais orgulho – disse Ainion.

                - Creia e você terá – falou Marwen, adiantando-se. Tomou cuidado para não pisar no sangue dos humanos.

                - Um elfo perece sem seu orgulho e sua morte não se torna breve nem eterna – falou Ainion, recitando os ensinamentos religiosos pelos quais passara na infância.

                - O orgulho vem da deusa, não de você, pois o seu sangue vem do ventre dela. Seu espírito vem da benção dela. Venha, eu vou purificá-lo – disse ela, colocando as mãos sobre o peito dele.

                - Não estou arrependido de tê-los matado. Não posso ser purificado.

                Marwen passou por ele, retirando a fita bordada de suas mãos. Prendeu os cabelos do guerreiro após retirar algumas folhas secas. Notou um pouco de sangue coagulado, mas cuidaria daquilo depois.

                Alyan segurou a mão do amigo.

                - Não há nada nessa mata, meu caro. Nada...

                - Há sim. Aqui há algo que não descansa, cuja morte não foi breve e nem eterna. Eu posso sentir.

                - Não há – insistiu Alyan.

                - Há sim e eles observam junto ao sofrimento dessa alma ignóbil.

                Marwen se colocou diante dele mais uma vez. Deu-lhe um beijo na bochecha e sentiu a lágrima quente que escorria.

                - Você está apenas desnorteado, Ainion. Pense consigo mesmo e em breve a doçura de sua alma o levará ao arrependimento. Você sentirá misericórdia dessas criaturas, mesmo elas sendo inferiores.

                Ainion baixou a cabeça. Marwen estava para levantá-la quando a temperatura na floresta caiu repentinamente. Alguma coisa gritou com uma voz estridente.

                - Misericórdia é tudo o que eu quero!

                Era um grito doloroso que feriu os corações dos elfos. Era como vidro sendo arranhado. Sacaram suas espadas longas e olharam em volta. Só viram uma escuridão densa que foi se afinando aos poucos, até formar o vestido glamoroso de uma criatura que se sentava em um galho. A saia dela descia pelo tronco. Tinha a face pálida e triste, as orelhas pontudas de um elfo e o olhar desesperado de alguém que encontrou a morte e não sabe como reagir. Não sabe que deve seguir adiante.

                - Ela existe! A banshee está aqui! – gritou Ainion, olhando em volta, procurando por “eles”.

                - Criatura patética! – gritou Marwen, adiantando-se. – Que Nossa Mãe Gloriosa lhe dê paz por seus pecados e a arraste para o domínio em que será purificada.

                A criatura riu amargurada e saltou da árvore, voando na direção deles. Marwen continuou imóvel, levantando um símbolo sagrado. A banshee passou por ela. Ainion e Alyef saltaram, escapando de garras fantasmagóricas. Marwen virou-se para procurar a criatura. Ela sumira.

                - Venha receber sua purificação!

                - Não! – respondeu a voz agonizante.

                - Ela quer ou não quer ser salva? – perguntou Alyef.

                - A dor dela impede que aceite. Ela só consegue pedir o que ninguém pode dar. Se eu a ofereço a salvação, ela nega e passa a me odiar – respondeu Marwen.

                As garras da criatura seguraram o pé de Alyef de repente. Agora ela vinha do solo. Subiu como um raio levando o elfo. Marwen orou com fervor e um raio atingiu a banshee. Ela soltou o elfo, que caiu e se levantou rapidamente com a mão no ombro.

                Ainion procurava o fantasma élfico. Estava com a espada meramente em posição de defesa. A banshee agora voava no alto esfregando o rosto e gritando.

                - Ela vai gritar – disse Marwen, orando.

                A criatura abriu a boca de um modo que um mortal não conseguiria. Saiu de dentro dela um ar de outro mundo, repleto de dor e morte, carregando o som da angústia. Os elfos sentiram aquele brado de morte como espadas atravessando seus espíritos e os fazendo se lembrar de suas dores. Marwen se manteve de pé protegida por sua deusa. Alyef caiu de joelhos lívido, enquanto Ainion chorou, apenas chorou.

Então a banshee desceu com as garras apontando para o pescoço de Marwen. Ela preparou a espada para golpear, mas Ainion foi mais rápido. Saltou e interceptou o fantasma. Sua lâmina mágica, que cortava aço, atravessou a inimiga com um brilho que separou as trevas que compunham aquele ser. A banshee deu seu último gemido e desapareceu. As trevas do mundo retomaram sua essência assim como a terra exige de volta a carne de um mortal.

Ainion ficou parado olhando em volta. Marwen abaixou-se para ver Alyef e rezou para a deusa para que ele melhorasse.

- Ele não está bem. Minha magia pode ajudá-lo, mas o espírito dele está enfraquecido.

- Se o espírito de um elfo se enfraquece, só seu sangue pode fortalecê-lo – disse outra voz que vinha das trevas como a da banshee, só que essa tinha o vigor dos vivos e a vontade férrea dos imortais.

Um elfo surgiu da escuridão da noite. Usava um manto que cobria todo o corpo. Portava uma tiara dourada com uma pedra negra no centro. Seus cabelos eram escuros como as entranhas de um demônio e os olhos eram o espelho negro do ódio.

- Shimay! – gritou Marwen, mal acreditando no que via. Era a primeira vez que estava diante de um. Era a primeira vez que realmente levava a sério aquela lenda maldita.

Ainion olhou para o recém-chegado com a primeira fagulha de esperança que já tivera em quase duas décadas. Andou até ele, fincou sua espada no chão e se ajoelhou.

- Salve-me, pois eu não tenho mais orgulho do meu sangue, nem me lembro mais de minha linhagem.

- Afaste-se dele, Ainion! – gritou Marwen, se adiantando com a espada na mão.

- Só tenho palavras como armas, sacerdotisa moribunda – disse o elfo negro, andando até ficar ao alcance da espada dela e com a oportunidade de tocar Ainion. Encostou um dedo nele e então recitou toda a linhagem, dos seus pais, aos pais dos seus pais e a seus antepassados que haviam pisado em seu continente.

Ainion sorriu e chorou.

- Me dê a glória deles – disse.

- Não posso lhe dar o que você já carrega. Está no seu sangue – disse o elfo negro.

- Não! Está no seu espírito. A Deusa lhe deu e está junto dele!

- A Moribunda não dá nada há muito tempo, mas nos faz acreditar que o que é inerentemente nosso é presente dela – falou o elfo negro, paciente.

Marwen queria atacá-lo, porém sentiu que fazê-lo seria o mesmo que dar crédito para as ações de Ainion. Seria mais combustível para o que o shimay dizia.

- Fortaleça minha alma – pediu Ainion. – Eu perdi família, perdi um império. Um elfo não é nada sem o orgulho de seus parentes ou o que seus antepassados construíram. Minha alma se torna mais bárbara, mais... humana... a cada dia que passa... Parece que tudo vai mudar de um dia para o outro... dia após dia.

- O mundo muda, mas os elfos ficam, Ainion – disse Marwen. – O mundo muda, mas nossa graça se mantém aqui ou junto à deusa, pois tudo aqui acaba, mas o reino dela é eterno.

- Nossas vidas acabam, sacerdotisa moribunda. Nossa cultura e glória continuam. Esse é o propósito. Ou isso, ou seria melhor todos vocês passarem para junto dela logo.
Segurou a face de Ainion.

- Quer vir comigo?

Ele chorou e disse que sim. O elfo negro se ajoelhou diante dele e o abraçou. Marwen quis matar os dois, porém não podia atacar. Não deu atenção para o elfo negro, mas apenas para a alma de Ainion que era seu único propósito ali.

- Você nunca mais se ajoelhará a não ser para abraçar outro elfo que estará de joelhos para você também. O que tem a fazer agora, é ter o sangue de um dos Venesse... que os fracassados sucumbam – falou ele. Retirou uma adaga de dentro do manto e enfiou-a no coração de Ainion. Levantou-se e se afastou. – Cada um sabe em seu coração o que deve ser feito. Que a agonia escorra com seu sangue.

- Vai me matar também, elfo negro? Quer a batalha derradeira? – gritou Marwen.

Ela se adiantou com a espada na mão. Apontou-a para o elfo negro.

                - Você matou quantos de nós?

                - Vários. O primeiro foi aqui, quando minhas mãos ainda tremiam e eu não era mais do que um agricultor sem terras para arar e que chorava por perder tudo o que tinha. Foi quando minhas cicatrizes ainda ardiam e um pedaço de metal que os goblinóides enfiaram em mim ainda ardia dentro de minha barriga. Eu matei minha senhora ali. Eu a servia carregando suas coisas com essas mãos feitas para arar a terra. Quando ela chorava para a Deusa e percebi que eu precisava mais do abraço daqueles que sofriam comigo dessa divindade – contou o elfo negro, olhando distraído para onde estavam os corpos dos humanos.

                Marwen ouviu um murmúrio repentino. Olhou para trás para ver Ainion diante de Alyef. O guerreiro estava com a faca que deixara fincada anteriormente no chão. Sangue escorria de seu peito quando ele enfiou a lâmina no coração do elfo ajoelhado.

                - Um coração destruído para a salvação de uma fagulha de esperança – disse Ainion.

                Alyef segurou a mão do amigo, sentido o próprio sangue brotar. Viu o ferimento no corpo de Ainion se fechando. Seus cabelos começaram a escurecer, assim como seus olhos. Arrancou a faca e andou até ficar ao lado do elfo negro.

Marwen olhava estarrecida. Correu até Alyef para invocar sua deusa e pedir a cura do colega.

- Não há magia que possa curá-lo. Sugiro que vá embora elfa.

Ela viu que não conseguia fechar a ferida, por mais que rezasse. Ergueu-se furiosa, com a espada nas mãos.

- Não vai querer me matar?

O elfo negro sorriu.

- Não. Se Ainion quiser, ele pode fazê-lo, mas nós só matamos vocês quando precisamos nos aliviar ou quando já estão perdidos. Vá embora elfa, antes que seu amigo desperte...

- O quê?

Ela ouviu os gemidos. Ouviu o vento mórbido que passava pelo corpo de Alyef e sentiu a raiva dele ao ter falhado com Ainion, a raiva por não ter sobrevivido ao tentar provar o erro do amigo. Havia angústia demais embaixo da fé daquele elfo. E todo aquele fracasso havia acabado de tocar sua alma quando seu amigo finalmente se rendeu a escuridão e passou para aquele lado extinguindo a luz no coração de Alyef.

- Banshee... – disse ela chorando.

O elfo negro e Ainion deram-lhe as costas e andaram para as trevas.

- Eu voltarei para caçá-lo, elfo negro.

- Espero que sim, sacerdotisa moribunda.

- Eu sei qual sua tática e como seu ritual funciona.

- Não saberá mais – disse ele, desaparecendo nas trevas. E ela não soube mais assim que deu o primeiro passo rumo a sua vingança.


Autor:Antônio Augusto Fonseca Júnior “Shaftiel”