domingo, 6 de julho de 2014

Dogmas


Autor:Antônio Augusto Fonseca Júnior “Shaftiel”

Esse conto é baseado no mundo de RPG Tormenta e se passa pouco depois do romance O Terceiro Deus, tendo spoilers desse romance.

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- Eu avisei que ela era uma puta – disse o elfo, passando as mãos pelos cabelos sebosos e emaranhados.  Os longos dias sendo puxado a ferros cobraram um preço alto sobre a vaidade dele.

   Os outros encaravam com expressões mistas. Havia alguns fartos de ouvir ofensas a uma deusa que tanto sofrera e finalmente lhes arranjara proteção. Havia quem se incomodasse com a freqüência exagerada em que aquele prisioneiro falava. Dahlis não se surpreendia ou se assustava com nenhum. O que mais lhe incomodava era a falta de outros que pudessem concordar. A maioria dos desgraçados de orelha pontuda parecia satisfeita demais com aquela situação... situação de escravos.

   - É uma puta que nos traiu – disse de novo, aproveitando que os minotauros estavam ocupados em negociação. Aqueles monstros escravistas estavam felizes por  terem encontrado tantos elfos. Foram vinte deles de uma vez, todos reunidos apenas esperando para serem pegos. Fora praticamente uma armadilha, uma armadilha tecida pela deusa covarde que havia os criado.

   - Fique calado ou os minotauros vão perder a paciência... de novo – falou um elfo magro cujas roupas, face e cabelos não estavam nem de perto tão imundos quanto os de Dahlis.

   - Você é um resignado... um resignado. Foi você quem ajudou a convocar a reunião e é um dos motivos de estarmos aqui agora. Pouca coisa me dá mais raiva do que você falando como se fosse uma pessoa ainda. Se considera a si mesmo um escravo, então fique calado e deixe quem não se rebaixa protestar.

   O outro elfo abriu a boca para deixar escapar palavras que eram ganidos de um cão chutado e posto em seu lugar. Eram ruídos desesperados de uma ovelhinha perdida no pasto, esperando o pastor levá-la de volta para a cerca onde se sentia segura, onde não precisava lutar para sobreviver. Quanto mais emitia aqueles sons de piedade e de desculpas imbecis, mais Dahlis sentia o estômago revirar com a raiva arranhando o coração e pedindo para sair.

   Saltou sobre o resignado. Os dedos eram quase garras prontas para furar a garganta do maldito. O outro se assustou, saltando para trás e ali ficou de olhos esbugalhados quando Dahlis foi impedido pelas correntes. O ferro frio arranhou a pele do elfo enfurecido e o chamou de volta para o mundo.

   Sentou-se assim como todos os outros elfos. Olhou o recinto de teto alto; uma criança ria para os desenhos nas pedras do chão. Os minotauros observavam. Alguns pareciam rir, observando o modo como cada vez mais os filhos de Glórienn, criadora dos elfos, se entregavam e apreciavam a proteção dos novos mestres, os filhos de Tauron, divindade da força.

   - Minha alma não tem preço – soltou Dahlis, com palavras fracas.

   - Ela não está sendo vendida, Dahlis.  Sua alma sempre pertenceu à Deusa Mãe e tudo o que ela fez foi encontrar alguém para protegê-lo.

   Olhos afiados feito adagas apontaram para o elfo.

   - É isso o que os pais fazem. Eles protegem os filhos e usam os recursos que podem, mesmo quando os filhos ingratos não conseguem entender qual o melhor caminho.

   Dahlis olhou para os grilhões. Aquele nunca seria o melhor caminho e, não importava o que lhe dissessem, a alma que carregava dentro de seu corpo há mais de sessenta anos, tão pouco para um elfo, era sua e de mais ninguém. Se um dia quisesse usá-la para esfregar o chão de uma favela goblin, ele o faria, mas seria por vontade própria, não por causa de uma porcaria de deusa que desistia dos filhos e da vida por covardia. Não porque estava cercado de gente de coração e fé falida.

   “Eu vou fugir”.

   O pensamento cortou a mente de Dahlis acompanhado de sangue de minotauros e elfos. Só enxergou o vermelho, independente de qual raça fosse. Ninguém que representasse ou quisesse sua escravidão continuaria vivo.

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   O dever deles era seguir Glórienn. Eram os paladinos de sua fé, a máxima graça em questões de morte e guerra. A grande benção em matéria de espada e arco. Carregavam o peso de proteger uma raça sem pátria e sem orgulho, depois de terem falhado em proteger um povo com terras demais e humildade de menos. Conviviam com um peso que enxergavam mais como uma penitência do que como benção divina.

   - Precisamos decidir – afirmou Remeneh, um elfo alto que tinha cabelos pontiagudos como pequenos punhais azuis apontando para o céu. Seus olhos anis esperavam a decisão do restante dos guerreiros.

   - Ainda não estão todos aqui – avisou Aetis, de braços cruzados. Encostado na árvore, era o único que não tomara lugar no centro da clareira. Observava o restante dos Espadas de Glórienn.

   Não havia muitos por quem esperar. A elite de guerreiros da deusa dos elfos era pequena naqueles dias. Ali na clareira, debaixo do sol, estavam vinte e três deles e não sabiam onde estavam os outros. Nos dias conturbados da Queda do Orgulho, quando a deusa havia se entregado à proteção do deus dos minotauros, muitos dos Nitfahglorienn haviam desaparecido. A confusão tomara boa parte deles e nem de seu grande comandante havia sinal.

   - Precisamos decidir e faremos isso agora. Sabemos bem que não existem muitos de nós. Quem não foi morto na Guerra, pereceu caçando os shimay. A tarefa de proteger nossos irmãos recai sobre o ombro de poucos e isso só aumenta nossa glória...

   - Pare com o discurso, Remeneh.

   A voz de Aetis era machado cortando a árvore que crescia frondosa. Antes que os frutos da inspiração tocassem os corações dos outros, ele adiantou-se. Não queria ouvir a proposta indecente que estava preste a soar. Não passara anos derramando o próprio sangue e cumprindo votos para agora se tornar escravo. Chorara, matara e assassinara em nome de um povo que amava e ver essas pessoas se entregando era o mesmo que pedir para morrer.

   Os outros guerreiros olharam-no e abriram espaço, convidando mais uma vez para que tomasse seu lugar no círculo. Não quis. Aquilo era deixar que o tecido de seda da proposta começasse a amarrar seus punhos e a água imunda da escravidão enferrujasse sua espada.

   - Tome seu lugar no círculo. Todos os Nitfahglorienn têm direito de falar, mas devem estar no círculo.

   - Não. Sei o que pretende falar e é uma proposta que nem deveria entrar em discussão.

   O vento foi o único falante, conversando com as árvores e tendo folhas farfalhantes em resposta. Nenhum dos elfos disse nada enquanto dois de seus guerreiros mais importantes se olhavam.

   Aetis sacou a espada e ficou no chão. Que a terra fosse testemunha de seu posicionamento. Daquela lâmina não passaria, mas não falou nada. Foi Remeneh quem continuou.

   - Não é uma proposta. É o desejo da Deusa Mãe e não há desejo dela que não cumpramos. A deusa respira e respiramos junto. Falta-lhe ar e nós esvaziamos nossos peitos para que ela respire.

   Aetis riu. Riu sem graça. Riu mortificado. Riu como se anzóis puxassem seus lábios e Hyninn lhe pintasse uma máscara de palhaço.

   - Tudo isso é uma poesia para você, não é, Remeneh? Você é um guerreiro poeta. Passa os dias tecendo palavras sobre a espada e as batalhas. Falta-lhe apenas escrever com sangue os pergaminhos.

   - Não é poesia que eu digo. É oração que a deusa dos ensina. Há um novo modo de proteger nosso povo.

   - Não há modo que não seja o suor e o sangue! – gritou o elfo. A cicatriz que tinha na bochecha ficou aparente. O vento levou os cabelos avermelhados. O sol fez os olhos dourados brilharem.

   - Não existe nenhum caminho que não seja a deusa, Aetis. Se quiser tomar modos de proteger nosso povo sem que ela tenha lhe indicado, é melhor que se junte aos shimay... Ou... faça o que realmente deve ser feito.

   Todos os elfos olharam para a adaga na cintura de Aetis. Os Espadas de Glórienn tinham três armas principais em seu artefato. A primeira era a espada, cheia de honra. A segunda era o arco, coberto de glória. A terceira era a adaga, para se certificar que honra e glória sempre seriam mantidas. Só se deixava de ser um Nitfahglorienn morrendo, pelas próprias mãos ou pelas dos outros. Pelo menos metade dos elfos ali haviam caminhado para a clareira e tomado seu lugar no círculo pensando na adaga que tinham na cintura, mas ninguém ainda havia falado sobre a arma. Era um assunto que circulava no ar que respiravam, mas não tomava forma na língua.

   Aetis baixou os olhos, mas não em direção à adaga. Observava a espada. Seus suspiros eram cortados pela lâmina e pelas histórias de batalha em que a banhara tantas vezes com sangue em prol de seu povo. Nunca falhara com nenhum voto, nenhuma palavra. Nunca duvidara de Glórienn.

   - Esse é o maior sacrifício que podemos fazer para nosso povo, Aetis. Todos nos tornamos Nitfahglorienn para servir e assim provamos como serviremos.

   - Esse não é o caminho certo.

   - Se não o considera o caminho correto, então use a adaga – apontou Remeneh. Os elfos colocaram as mãos nas costas e olharam para Aetis. Vagarosamente, deixaram a posição do círculo e formaram filas, tomando posição militar para assistirem ao suicídio ritual.

   - Minha eternidade se resume a amar aquela que me agraciou com um único motivo nobre para morrer. Que um suspiro de amor seja minha última prece à Única Senhora dos Elfos – recitou Remeneh e os outros repetiram.

   - Minha morte é doce perante a eterna vida dos meus irmãos. Que eles vivam para perpetuarem a fé por quem amo e prezo acima de tudo. Que eles vivam para que eu seja lembrado como filho da maior das graças entre tudo o que é considerado divino – falou um outro elfo, citando o segundo lema dos Espadas de Glórienn.

   - A verdade está nas palavras desse servo da Deusa Mãe assim como graça divina abençoa meu sangue através da minha fé – falou um terceiro.

   Recitaram os lemas de suas vidas e repetiram várias vezes, continuando a ladainha. As palavras entravam na mente de Aetis fazendo as memórias arderem. A vergonha agitava-se, mostrando que negava cada um dos conceitos pelos quais lutara e estivera disposto a morrer. Pegou a adaga e olhou a lâmina prateada. Passou os dedos pelo punho trabalhado, em especial pelos nomes de seus parentes talhados. Suspirou e apertou a arma, levando-a ao peito. Os lemas continuavam a ser repetidos.

   O elfo fechou os olhos e passou os dedos pelo fio frio da lâmina. Sentiu o sangue escorrer. Passou-o pelo rosto, sentindo o vermelho que vinha de dentro de si e que era fruto de uma deusa que se escravizara. Tomou então uma atitude que só poderia ser reconhecida entre seus irmãos como loucura. Cortou as pontas das próprias orelhas e ali, sangrando, apontou a adaga para Remeneh.

   - Não morro por isso. Não morro! Morra você por uma deusa que há anos exige de você e agora te toma tudo.

   Arremessou o objeto. Remeneh olhou boquiaberto e esperou a morte, mas naqueles breves segundos, algo brilhou dentro dele, algo que não brilhava há décadas. Era a retribuição da fé e dali veio a rapidez que lhe permitiu sacar a espada e defender um golpe certeiro de um dos melhores guerreiros que Glórienn ainda tinha. A adaga caiu aos pés de outro elfo. Um pouco do sangue espirrou nas botas.

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   Era um mercado aberto e improvisado. Devido à quantidade de elfos que chegavam a Tapista, o reino dos minotauros, agora não se usavam mais somente os mercados oficiais. Negociações prévias eram realizadas fora da capital e das grandes cidades para que nada ficasse saturado. Dahlis sabia que era hora de fugir. Não haveria outra chance tão cedo.

   Os escravos estavam acorrentados a grandes pinos fincados no chão. Poucos deles estavam soltos. Alguns mais dóceis haviam se entregado cedo e um deles até conseguira uma boa posição como servo ao entregar um plano de escapada. Isso rendera a Dahlis cicatrizes de chibatadas nas costas. Agora chegava a pensar se preferia ficar para matar o desgraçado delator vagarosamente ou fugir.

   Negou o pensamento de assassinato. O ódio que fervia dentro dele ainda podia ser controlado. Coçou o nariz e olhou para os minotauros passando para verificar a mercadoria. Mexeram em cada elfo, dando uma atenção especial para as marcas no rosto. Quando mais limpo melhor. Dahlis vomitou quando uma mão peluda o fez abrir a boca e mostrar os dentes. O comprador deu dois passos para trás, horrorizado com os cascos sujos.

   - Elfo maldito – berrou o minotauro vendedor, batendo com força e repetidas vezes, até Dahlis mergulhar na benção da inconsciência, único modo em que se sentia livre daqueles problemas.

   Acordou sabendo que havia apanhado por sujar um cliente e por não ser mais uma boa venda. Seu preço baixaria por causa daquilo e suas chances de fugir também. Agora estava acorrentado sozinho dentro da caixa escura onde ficavam os mais indóceis dos elfos. Aqueles que ainda precisavam aprender sobre a humildade da escravidão.

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   - Impossível – disse um, virando e esse mesmo percebeu que ao mesmo tempo que não conseguia acreditar na defesa do golpe, não achava que as orelhas cortadas de Aetis fossem tanta loucura. De costas, deu alguns passos na direção do elfo que sangrava. Sacou sua adaga e jogou no chão.

   - Magia! – gritou Aetis.

   - Milagre – respondeu Remeneh.

   - É a escolha certa – falou um dos guerreiros com olhos sedentos por mais um milagre.

   O que apareceu em seguida poderia até ser um sinal, mas na verdade era parte de toda uma preparação. Um elfo saiu do meio das árvores e atrás deles vinham seis figuras enormes, cujos chifres davam voltas; os machados e espadas brilhavam em suas mãos. O elfo carregava símbolos sagrados no peito e uma coleira no pescoço.

   - Somos servos e como servos vocês também serão bem-vindos – disse o sacerdote de Glórienn.

   Boa parte dos guerreiros estava surpresa, mas Remeneh, cuja decisão era mais do que ferrenha, adiantou-se para o sacerdote e os minotauros.

   - Segue-se um deus por dogmas e pelo exemplo. Poucos podem servir como nós servimos – falou, ajoelhando-se. Diante de todos os elfos, um dos minotauros se adiantou. Sacou uma coleira de metal com símbolos de Tauron e Glórienn. Foi com cuidado que colocou-a em volta do pescoço de Remeneh. O elfo se levantou com um rosto sério. – Cumpram seus votos e me sigam.

   De pé, agora tinha a espada na mão e ela brilhava com a luz que se apagara nas lâminas de todos os Nitfahglorienn há algumas décadas. Os outros começaram a andar em direção as coleiras. Aetis observava perplexo.

   - Isso é um embuste. Não é um milagre – gritou.

   Remeneh não respondeu. Só deu dois passos de lado para que o próximo elfo recebesse a coleira. Alguns deles ganharam grilhões com pequenos pedaços de correntes. Somente sete ficaram parados, incapazes de concordar com o pecado de se entregar a própria liberdade. Não havia deus que valesse aquilo.

   - Vão recusar? – perguntou Remeneh. Os outros fizeram que sim. – Então usem suas adagas e provem suas dignidades.

   - Não usem – gritou Aetis, arrancando a espada do chão e se adiantando na frente dos outros. O sangue escorria das orelhas para o pescoço, manchando roupa e armadura.

   - A lei dita que quem não morre pela própria adaga, morre pelo arco ou pela espada – falou Remeneh.

As palavras serviram de ordem para que os outros sacassem lâminas e flechas. Os minotauros observavam decepcionados. Eram oito escravos que perderiam por causa da estupidez élfica.

Aetis sabia que iriam morrer, mas caminhou para frente com a espada na mão com a certeza de que era mais justo morrer por sua liberdade do que ser escravizado por causa de uma deusa. Viu os outros elfos de coleira e os minotauros de braços cruzados. Não havia como vencer, só havia como morrer livre e com honra.

- Vamos morrer livres, irmãos – bradou Aetis.

- Mesmo? E para onde vão depois da morte? Ficar aprisionados no inferno de Ragnar? Entregar-se à Tormenta? – perguntou Remeneh, olhando de soslaio para o sacerdote ao lado.

As mãos de Aetis tremeram como nunca ocorrera em sua vida de guerreiro. Não havia mais a certeza da recompensa após a morte. Fechou os olhos e pensou. Os minotauros moveram as bocas bovinas com o que parecia um sorriso. O lucro aumentaria. Os elfos revoltados se entregariam.

- Escravidão aqui e na pós-vida? Melhor sofrer pelas mãos de Ragnar, assim pelo menos eu sei que estarei sofrendo por um bom motivo – falou Aetis. Então ele tomou uma atitude que nenhum Espada de Glórienn tomaria, nenhum elfo de fé. Ele levantou a espada para os antigos companheiros de luta e correu para bater sua lâmina opaca contra o metal brilhante dos outros. Mais elfos gritaram atrás dele e avançaram. Os outros se posicionaram para lutar... mas tudo ficou escuro e tudo que ouviram foram três estampidos, dois gritos de dor de elfos e um de um minotauro. Corpos foram ao chão e os elfos pararam.

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Aetis piscou uma, duas, três vezes. Tentou raciocinar e conter o medo de esmagava o coração. Respirou profundamente o ar gelado que tomou o lugar da brisa. Trevas. Aquilo eram as mais puras trevas.

- Fechar círculo. Preparar espadas e milagres – gritou para os companheiros. Assim eles sentiram as costas um dos outros se tocarem. No meio, um dos guerreiros sacou um bastão de luz. Os raios brancos lutaram contra as trevas, transformando a redoma de escuridão em uma penumbra maldita em que os gritos de dor e o sangue de elfos preenchia o espaço.

- Shimay? – perguntou inseguro um dos elfos. Era jovem e ainda sem marcas das lutas. Nunca vira um elfo negro na vida, mas as histórias de como matavam os guerreiros sagrados de Glórienn o deixavam arrepiado.

A primeira sombra surgiu da terra. Um buraco se abriu e a criatura saltou em um rodopio mágico para o meio dos minotauros. Outro deles surgiu do alto das trevas, sobre os chifres de um dos monstros. Adagas partiram das mãos dos dois, acertando pescoço e olhos, arrancando sangue e visão. Nem bem tocaram o chão, correram como demônios, ainda arremessando as armas. As lâminas acertaram dois elfos com golpes precisos antes que Remeneh conseguissem juntá-los. Nem bem formaram o círculo de defesa, uma arma ainda mais mortal se juntou à chacina. Mais estampidos, pequenas explosões na penumbra. Ninguém viu os projéteis, mas eles voaram partindo o ar, interrompendo a luz. Tocaram um elfo na testa e arrebentaram osso e cérebro, derrubando-o antes que sentisse de onde vinha a ameaça.

Aetis não sabia quem atacar. Esperava pelos shimay, mas nenhum dos elfos negros tomava uma atitude em relação a ele, não até um deles parar a seu lado. Os cabelos negros e a face pálida só não assustaram mais que os olhos de trevas que o fitaram. Deu um sorriso leve, com aquele sinal de angústia que era tão característico quanto as cores pretas.

- Não salvamos ninguém que não queira ser salvo. Tome uma atitude – falou o elfo negro, envolto em mantos escuros. A voz dele era um sussurro, mas caía sobre os ouvidos como martelo. Cortava como alabarda.

- Senhor? – perguntou aquele elfo jovem, nervoso e com as mãos suadas.

- A escolha é de cada um de vocês. Não temos mais deusa.
Eles levantaram as armas e então lâmina élfica derrubou sangue élfico na terra já manchada de lágrimas e morte. Os gritos torturados de vítimas e algozes não vinham só da pele rompida pelo aço frio, mas pelo rompimento de um acordo de fé. Eles se mataram até a luz começar a reaparecer. As trevas cediam para que o sol mostrasse a vergonha de irmãos se matando.

- Fujam – gritou um dos elfos negros, saltando para a terra e desaparecendo como se atravessasse lama.

Os outros, ensangüentados, feridos no corpo, na alma ou em ambos, hesitaram. Aetis saltou para a terra, sem pensar se encontraria terreno tão sólido quanto as conseqüências de suas decisões. Mas tudo se abriu para que ele e os companheiros passassem.

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O calor e a umidade foram as primeiras sensações que teve, depois foi o sangue que escorria pelo cabo de sua espada. Caiu de joelhos com ombros e cabeça baixa. Estava escuro demais para que visse a arma. Diante dele, o aço molhado em sangue era uma acusação. Ao lado, os companheiros tentavam reaver a respiração.

- Aquele foi um milagre de Glórienn? – perguntou um deles.

- Que a morte deles tenha sido breve e eterna para que nenhum deus nos acuse de falta de nobreza – sussurrou um, apegando-se a um antigo ditado élfico em um momento em que se alma começava a se desprender dos costumes antigos.

Aetis não conseguiu enxergá-los no escuro. Tateou o chão sentido pedra e terra. Perguntou-se se era seu destino agora viver na escuridão. Teve medo de que a luz surgisse do nada para que todos vissem que seus cabelos e olhos haviam se tornado negros como o dos outros shimay. Teria a marca dos renegados, renegados que, por fim, estavam certos? Assustou-se quando uma luz leve transformou as trevas em penumbra. Os elfos negros os cercavam.

Eram seis deles, observando de braços cruzados, sem armas a vista. Pôde reconhecer três deles com armaduras leves. Os cabelos longos e as marcas no rosto demonstravam que eram a elite guerreira, Garras de Tenebra. Chamavam a si mesmos de Bryr´Niantharen como descobrira. Termos antigos que a sociedade élfica abandonara quase quando pisara pela primeira vez no continente.

- Teremos que nos tornar shimay? – perguntou um dos companheiros.
Aetis o observou. Era o mais jovem. Tentou buscar pelo nome dele na mente, mas esquivava-se a cada busca na memória. Juntara-se ao grupo não havia nem duas semanas e já era obrigado a enfrentar uma situação que só se comparava com a queda do reino élfico.

- Não. Não forçamos ninguém, garoto – disse o elfo de mantos negros, adiantando-se. Coçou o queixo e respirou profundamente, observando a situação lamentável dos outros. Fez sinal para uma elfa com duas lâminas circulares penduradas na cintura. Tinha um broche prateado em forma de um arco quebrado prendendo a capa. Marcas de uma expressão raivosa estavam nítidas no rosto. Ela se adiantou e verificou ferimentos, curando quem precisasse.

- Vocês nos salvaram por que renegamos a escravidão? Não significa que por causa disso vamos louvar Tenebra. Não vamos orar para ela! Eu não vou – falou um dos guerreiros. – Somos renegados, mas não somos como vocês. Os votos que quebramos não são como os que vocês fizeram...

Os elfos negros continuaram ouvindo a ladainha. Aetis ficou quieto, deixando que o elfo falasse e os outros o acompanhassem às vezes. Precisavam extravasar seus pensamentos, falar sobre as difíceis escolhas que haviam tomado. A necessidade de se justificarem os corroeria se não o fizessem. Os shimay devem ter compreendido, pois apenas observaram. A elfa sacerdotisa continuou os curando calada, só olhando mais nervosa diante de alguns comentários mais ofensivos.

Quando os elfos esgotaram as forças e a boca secou, Aetis manteve silêncio. Não queria se justificar aos elfos negros, mas agora os entendia um pouco e queria saber mais sobre a condição que enfrentavam. Será que eles ainda seriam renegados? Párias? Quem teria esse título agora que a deusa se entregara à escravidão e seus sacerdotes gritavam exasperados presos em seus sonhos. Acordavam com recordações de almas sofrendo em nome da covardia de Glórienn e não encontravam justificativas para o comportamento da Mãe Única e Eterna.

- O sacerdote que entregou as coleiras tem feito o mesmo nas últimas semanas. Foi ele quem espalhou a idéia dos conselhos para decidirem se os elfos se entregariam à escravidão ou não – falou o elfo de manto.

Aetis notou as tatuagens negras no rosto dele. Símbolos arcanos marcavam os cantos da face, começando pelo queixo, estendendo em forma de serpentes pela mandíbula, subindo como runas élficas pelas têmporas até se juntarem na testa, onde terminavam com um círculo negro. Continuou o olhando até que a revelação finalmente foi processada. Um sacerdote de Glórienn estava entregando os elfos à escravidão.

- Mentira – foi a primeira palavra que disse desde que chegaram. Dois dos Bryr´Nyantharen se olharam como gêmeos de guerra. A sacerdotisa fitou o mago e balançou a cabeça. – Você pode ter salvado nossas vidas, mas isso não significa que vamos acreditar em tudo o que diz. Nem seus nomes sabemos.

- Khessarel – apresentou-se o mago. Nenhum dos outros se deu ao trabalho de dizer nada. – Não estou aqui para mentir para vocês. Não tenho razão para uma mentira. Se há algo que você pode ter certeza é de que nenhum elfo negro mente sobre a vergonha de seu passado muito menos para trazer outros para o difícil caminho que percorremos.

- Então por que está aqui? – falou Aetis, agora se levantando. Só depois de tanto tempo percebera que ainda estava de joelhos. Aquela não era uma posição para conversar. Os outros o imitaram. Sacou um lenço da cintura e um odre da cintura. Molhou o tecido e limpou o sangue já coagulado nas mãos.

- A situação mudou. Tudo o que prevíamos aconteceu. A Mãe Moribunda fracassou e agora leva muitos dos nossos para o fracasso. Na escravidão não existe salvação, guerreiro. Estamos tentando salvar muitos dos seus, mas existem muitos mais almas moribundas do que elfos despertos que possam ajudar na libertação. E nem sempre vocês querem nos ouvir.

- Quer nossa ajuda para evitarmos a captura dos outros? – perguntou Aetis. Os outros se animaram com a proposta.

- Sim – respondeu Khessarel.

- Pretende levar todos para as trevas?

- Não. Apenas quem quiser nos acompanhará.

- Mas continuaremos sendo inimigos. Vocês odeiam quem não os seguem.

- Não é o caso de odiar. Muitos de nós odeiam sim, como é o caso de Kelena, aqui ao meu lado, mas o sentimento mais comum é o de pena e todo elfo negro sabe que criaturas dignas de pena não são dignas de viver, são menos que a terra em que pisamos. A entrega da Mãe Moribunda ao Deus Touro também nos afetou, guerreiro. Tivemos que fazer escolhas e nossos planos já começaram. Se quiserem nos acompanhar, serão bem vindos.

Aetis estendeu a mão para o mago. Sentiu o aperto forte da mão tatuada do outro.

- Meu nome é Aetis nih Sarntir.
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Dahlis nunca poderia ter sido vendido para um dos ricos minotauros da capital. Seu futuro era servir bem longe dali, fazendo nada mais do que se humilhar para um dos duros senhores do campo. Compartilhava seu trabalho com mais seis elfos, sete humanos e dois halflings. Desses, somente os elfos faziam o trabalho com felicidade nos olhos. Os outros exerciam as tarefas do dia a dia com afinco para não desagradar os mestres. Faziam um trabalho bem feito e minucioso sem se entregar à felicidade da servidão.

Seu senhor era um minotauro de pêlo amarelado, com o focinho já esbranquiçado pela velhice. Os chifres eram grandes e retorcidos, um deles lascado por batalhas antigas. Enriquecera em aventuras e agora vivia para vender os frutos de suas terras. O casarão abrigava dezesseis escravos, mas lá fora, nas plantações, havia muitos outros exercendo o trabalho sob o chicote dos minotauros.

Os dias eram uma tortura só menor do que o momento do culto, quando o sacerdote de Tauron fazia os rituais de submissão. Todos se ajoelhavam diante da estatura do Deus Touro, minotauros ou escravos. Depois que os senhores se levantavam, cada servo passava diante deles e se ajoelhava, demonstrando a submissão.

- Malditos desgraçados – falava Dahlis antes de se ajoelhar. Um dia cuspiu nos cascos de um dos minotauros e gritou ofensas. Perdeu dois dentes e ganhou mais algumas cicatrizes de chibatadas. Infelizmente não lhe concederam o prazer da morte. Continuaria a ser escravo, para provar algo ainda pior.

- Ela chegou! Ela chegou! – falou um dos elfos. Era o pior deles. Saíra correndo da vila élfica de Valkaria tão logo soubera da proteção dos minotauros. Entregara-se e agora era o chefe dos escravos dentre do casarão, coordenando e avaliando enquanto passava os dedos pela coleira de ouro.

Dahlis pensou que fosse mais alguma escrava, talvez uma amante do elfo. Foi pior do que isso. Todos os elfos foram para um pequeno quarto e lá estava uma estátua de Glórienn feita em mármore. Tinha as mãos acorrentadas estendidas ao pescoço. Os dedos tocavam uma coleira com o símbolo de Tauron. O sorriso agradecido no rosto dava nojo.

- Vamos orar – falou o chefe dos escravos.

Dahlis encostou-se à parede, zonzo com a visão. Era um choque forte demais que fizera até outros elfos entregarem as últimas esperanças e se ajoelharem. Ele chorou diante da visão e também caiu ao chão. Dedos passaram em seus cabelos e falaram com carinho para que se erguesse para orar. Levantou os olhos, viu os elfos e depois olhou para a porta. Um humano e um halfling estavam lá. Foi o ápice da humilhação ver o olhar de desprezo na face daquelas raças inferiores.

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A noite havia chegado há muito, mas Aetis não podia afirmar quanto tempo se passara desde o pôr-do-sol. Passar tanto tempo andando sob a terra o deixara desconectado com o ciclo do mundo. Ainda havia o pensamento pesado de que estava pecando ao andar na companhia dos shimay. Os outros guerreiros seguiam falando pouco, seguindo-os pela mata, subindo o morro tentando não deixar os ombros caídos e a cabeça baixa. Pelo menos dois deles haviam tentado falar com os elfos negros, mas apenas Khessarel e um outro estavam abertos a conversação. A sacerdotisa Kelena mantinha-se mais afastada com os Bryr´Niantharen, andando como sombras do grupo. Às vezes Aetis não conseguia enxergar nenhum deles nas sombras.

O elfo que andava junto com Khessarel era Rhyer´Dyh Profanador da Guerra. Era um jovem com as marcas negras dos shimay, mas com pequenas cicatrizes de queimadura no rosto e nas mãos. Carregava consigo estranhas armas na cintura e nas costas. Claro que deveria empunhar lâminas, mas o que estava exposto eram os canos estranhos, dois curtos presos nos cintos e um longo nas costas.

Aetis esteve curioso para perguntar o que era aquilo, mas o assunto se enveredou por outros caminhos, na maioria das vezes discussões sobre as batalhas contra a Tormenta e como o mundo estava mudando. Pararam de falar somente quando chegaram ao alto do morro. Enxergaram o acampamento dos escravistas logo abaixo, ao lado de um rio curto e calmo.


- Nosso objetivo é libertar quem quiser ser libertado. Não desperdicem sua fúria matando os minotauros nem argumentando. Soltem os grilhões e ajudem quem se mover. Matem quem os impedir.

- Não pretendo matar outros elfos a não ser que sejamos agredidos – disse Aetis, olhando para os outros. Somente dois dos guerreiros não assentiram com a mesma determinação. Um deles era o jovem. Nelup... Finalmente se lembrara do nome.

Khessarel deu um suspiro e se voltou aos outros shimay. Conversaram em sussurros e abraçaram-se. Kelena beijou um por um na testa e desejou que as trevas os ocultassem dos males provocados pelos ímpios e moribundos. Os Bryr´Niantharen bateram forte com os punhos fechados contra o peito. Rhyer´Dyh os acompanhou no gesto, mas ao contrário de pegar em lâminas, sacou o cano maior das costas e tratou de limpá-lo. Colocou alguma coisa na entrada, próximo à empunhadura e ali remexeu.

O mago se aproximou mais uma vez de Aetis. Mexeu em alguns bolsos no meio dos mantos e emitiu um sorriso frouxo. A sacerdotisa estava ao lado dele.

- As noites são sempre mais belas quando anunciamos que vamos matar em nome de Niantharen – falou Kelena. Os shimay sempre usavam o nome antigo de Tenebra, deusa das trevas. A Senhora Obscura dos Condenados, Mãe Negra, Protetora dos Pecadores eram nomes para a senhora da escuridão tão antigos e esquecidos quanto os motivos de os elfos terem pisado no continente.

- Eu não pretendo louvar essa deusa das trevas. Nem pense que vou homenageá-la com minha fé – falou Aetis.

O sorriso continuou no rosto do mago.

- Nem deveria. Nós também não louvamos Tenebra, Aetis. Alguns de nós até que aceitaram a fé dela, mas o que enxergamos em Tenebra é uma protetora, não uma deusa. Temos um pacto com ela; sua proteção por nossas ações. Já fizemos muito pela Mãe Negra. Já sujamos de tanto sangue nossas mãos que o que corre em nossas veias hoje deve ser tão negro quanto nossos olhos. Mas ao menos nós vivemos e não choramos dia após dia.

Aetis começou a pensar naquilo, mas sacou as espadas e chamou os outros para cercá-lo. Era o momento do plano. Khessarel já havia discutido a situação com eles. Seria uma entrada rápida para confundir os minotauros. Sob a magia do mago, os antigos Espadas de Glórienn começaram a marchar. Correram pelo campo rumo aos inimigos. Estavam agora sob o céu noturno, sem árvores para ocultá-los. Somente a magia impedia que mais de trinta minotauros saltassem sobre eles com machados e espadas.

A maioria dos inimigos estava sob as tendas brancas. Cerca de dez deles vigiavam do lado de fora, alguns conversando em volta das fogueiras, outros fazendo um círculo em volta do acampamento, ao lado de grandes tochas. Esses últimos ficavam eretos com lanças firmes nas mãos peludas. Avaliavam o ambiente despreocupados, mas cientes de seu dever. Aetis levou seus elfos até a dupla mais afastada do rio.

Todos estavam nervosos, não só pelo poderio do inimigo, mas pela ação que tomavam. Espadas de Glórienn não eram assassinos. Treinavam para combater o inimigo frente a frente, vencer com honra e glória, sem subterfúgios. Quando Nelup se aproximou o suficiente do primeiro minotauro, Aetis deu o sinal. O jovem elfo adiantou-se com a espada. A magia de ocultamento se quebrou com a agressividade do ataque e então um minotauro surpreso enxergou a morte como um vulto e só pode ter certeza do que enfrentava quando a lâmina já despedaçava seus intestinos. Estava para gritar quando outro elfo atravessou sua garganta com uma flecha.

A outra sentinela também não teve tempo de dar o sinal de alerta. As flechas fincaram-se no pescoço largo, abaixo dos chifres grandes, em um dos olhos. Aetis encerrou a vida da criatura com a espada enfiada no coração. Precisou de toda sua força para impedir que o corpo do minotauro caísse em um baque só. Mesmo assim, alguém deve ter ouvido algum barulho. Logo três outros haviam saído de uma das tendas com machados nas mãos. As flechas élficas zuniram na noite para despedaçar mais do couro e vazar o sangue dos guerreiros de Tauron. Os cortes das espadas os detiveram, mas já era tarde demais. Os minotauros começavam a ficar alerta.

- Avancem – ordenou Aetis. Fez sinal para dois dos guerreiros cobrirem a rota de fuga. Viu o elfo negro Rhyer´Dyh na borda do acampamento. Apontava o cano longo na direção dos elfos. Então, apertou algo na empunhadura da arma estranha. Aetis queria ver a magia que sairia dali, mas não viu a bala rodopiar no ar, passando por cada um de seus guerreiros. Juraria mais tarde que sentira o ar esfriar quando o projétil passou por ele. Ao olhar para frente, já havia um buraco na testa de um dos minotauros que avançavam para o meio dos elfos.

- Matem! Matem! – gritou Aetis com ódio. Queria saber por que estava odiando tanto, mas não havia tempo para filosofia no meio da luta.
Evadiu-se de um machado e o viu fincar-se na terra. O minotauro usou o escudo para defender a lâmina élfica. Levantou a arma pesada de novo, levando pedaços de terra e grama. Empurrou o elfo com o escudo, ganhando espaço para um novo golpe. Aetis esquivou-se pela segunda vez, agora se dobrando e girando o tronco. Estendeu o braço para enfiar a espada entre as placas da armadura do inimigo.

O inimigo não se abalou com a dor. O sangramento era nítido, entretanto a criatura mantinha os cascos firmes no solo e voltava a atacar. Desceu a arma em mais um arco mortal. Qualquer tentativa de aparar o golpe quebraria os braços de Aetis, mas o elfo fora treinado para usar velocidade e acabar com oponentes mais fortes. Tanto fazia se era goblinóide ou minotauro. Mesmo que os últimos estivessem longe da barbárie dos primeiros, eram monstros, nem mais nem menos. Eram aberrações que pretendiam dominar a glória dos elfos. E Aetis saltou rodopiando e evitando a arma mais uma vez. Contra-atacou com uma investida. Fintou, escapando da proteção do escudo, evitou que o minotauro acertasse seu rosto com o cabo do machado e então subiu a espada, atravessando a jugular. A criatura mugiu de um modo tão patético que Aetis se lembrou dos abatedouros que visitara na infância. Teria rido da cena se não estivesse acostumado a enxergar a morte com frieza e não com prazer.

Nem bem o minotauro tombou, sentiu o sangue espirrar em seu rosto. Não era sangue inimigo. Era de um dos companheiros. Viu o elfo ainda caindo, jogado a um metro de distância com o rosto deformado pelo impacto de uma maça. Aetis olhou para o monstro que o matara. Era um minotauro de pêlos pretos usando maça e espada.

- Matem com glória! – gritou o minotauro. Não queria escravos. Queria apenas se livrar da peste que os atacava. Aos pés dele, um outro elfo jazia. Os outros tentavam se reorganizar quando Rhyer´Dyh avançou.

O shimay tinha agora uma das armas de cano curto. Mais tarde Aetis aprenderia a chamar aquilo de pistola e veria que era incomum que tivessem cristais negros na empunhadura e uma grande lâmina abaixo no cano. Na outra mão, o elfo carregava uma espada curta. Saltou para o meio dos minotauros, defendendo um golpe de espada, esquivando-se de um segundo. O terceiro golpe foi conduzido pela pistola. A lâmina encaixou-se na espada de um dos inimigos e começou a desenhar um arco diante do rosto do minotauro. No meio do caminho, Rhyer´Dyh apertou o gatilho. Não fez nenhum barulho, só emitiu um cheiro de enxofre e fagulhas amareladas quando a bala de cristal foi impulsionada pelo cano, cortou o ar, atravessou o crânio do minotauro e foi desaparecer no céu.

Rhyer´Dyh abaixou-se, escapando de outro ataque, depois saltou para trás para evitar um dos dois minotauros que o cercavam. Passou por cima do inimigo que acabara de matar e disparou o gatilho mais uma vez. Essa bala passou pelo olho do monstro. Bateu os pés no chão e avançou contra o último. Era o minotauro com a maça e a espada.

Aetis não quis ficar parado. Saltou junto com o shimay contra aquele monstro negro. Obrigou-o a defender um golpe. O oponente precisou de toda sua habilidade para usar a maça para aparar a espada de Rhyer´Dyh, mas já não havia braços para impedir que a baioneta fosse enfiada entre suas costelas. Aetis finalizou e olhou em volta para avaliar o cenário.

- Onde estão os outros shimay? – perguntou agressivamente ao ver que eram agora só cinco elfos e os minotauros continuavam chegando. Sentia o cheiro de traição.

- Estão libertando os outros. Deve haver minotauros lá também – respondeu Rhyer´Dyh, colocando a pistola da cintura e sacando a segunda. Apontou para um minotauro e o derrubou com um tiro preciso.

- Mas o que é isso?

- É a profanação de todas as honrarias da guerra. Vamos continuar matando ou acha que os chifrudos vão ficar só mugindo pra gente?
Agora os minotauros eram muitos. Aetis via apenas que seria suicídio ao enfrentar oponentes como aqueles. Outro de seus companheiros caiu trespassado por uma lança. Agora eram cinco elfos e um shimay cujas armas ele não conhecia e não participaria de nenhum ataque coordenado. Não daria certo.

- Vamos recuar. – Apontou para dois dos elfos com um comando especial. Os dois recuaram. Rhyer´Dyh foi junto com eles, o que deixou Aetis de olhos arregalados e com mais certeza de que morreria, talvez antes que pudesse começar a executar seu plano. – Nelup e Maiec, defender e recuar.

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Khessarel entrou na tenda levantando devagar o tecido que barrava a entrada. Olhou para quase cinqüenta elfos acorrentados. Era o maior número que encontraram até agora e talvez finalmente pudessem cumprir seu intento.

Havia somente cinco minotauros vigiando, todos com olhares cobiçosos para fortuna que seu chefe conseguiria com todos aqueles escravos. As armas brilharam sob os lampiões e os elfos se remexeram.

- Salvem-nos – gritou um, mas o cabo de uma lança batendo no rosto o silenciou. Outro se levantou depressa, tentando atacar, mas as correntes o prenderam. Mais uma vez a lança atacou.

- Mais escravos – disse um dos minotauros, notando a sacerdotisa Kelana logo atrás do mago.

- Acho que nem precisaremos dos outros aqui – disse Khessarel. Pegou duas adagas negras debaixo dos mantos e lançou para os elfos.

Os minotauros olharam atrapalhados para o gesto, parando por um segundo. Um deles observou os olhares espantados dos prisioneiros para o chão. Andou até ali e bateu com a pata no local. Não sentiu nada além da grama batida sob o casco.

- Existem duas liberdades que vocês podem conseguir. Uma é para essas correntes e a outra para o vazio de ser abandonado por uma mãe de espírito quebrado. Só se consegue as duas opções com o sangue de quem não quer nenhum das duas.

Um dos minotauros deu um grito de guerra e avançou durante as palavras de Khessarel. Kelana agiu sem a necessidade de ordens. Tinha nas mãos uma espada e uma lâmina circular. Abaixou-se sob o machado voador de um minotauro, estendendo a espada para cortar o tendão do oponente. Em meio ao sangue e à dor, a criatura começou a tombar. Kelana movia-se em ritmo de morte, com as figuras a matar lentas diante de seus olhos. A arma circular, o aji, rasgou o pescoço do minotauro.

- Obrigado, Kelana. Odeio ser interrompido – disse o mago, com um chifre do minotauro quase tocando seus pés. Seu próximo gesto foi retirar carne e seda negra dos bolsos. Com o material na palma esquerda, mexeu com os dedos diante do rosto enquanto apontava a mão direita aberta para um inimigo. Fechou os dedos depressa. Um minotauro paralisou-se, colocou a mão no peito. Os olhos ficaram vazios e um filete de sangue escorreu pelo focinho. A morte o encontrou com o peito aberto e o coração feito fatias.

Outro minotauro caiu sob o aji e a espada de Kelana. Dos dois que sobraram, um não precisou daqueles dois shimay para morrer. Um elfo se jogou sob seus pés durante a carga. Caído, sentiu dezenas de mãos o segurando e socando. Era forte e foi a socos e coices que começou a sair do meio das criaturas. O peito ardia pela humilhação de ter sido tocado por escravos. Gritou impropérios e fez juras de guerra e aí a chama de fúria desapareceu com a primeira pontada fria nas costas. Não conseguiu compreender. Outras vezes o frio entrou em seu corpo. Os joelhos bateram no chão. Alguém enfiou um dedo em seu olho, arrancando metade da órbita. Outro enfiou a lança em sua virilha. Tombou cheio de furos.

O último minotauro se viu cercado de elfos com as mais variadas reações. Mexia-se como cão acuado diante de criaturas que até o momento eram suas vítimas.

- Vamos deixá-lo vivo e talvez eles nos perdoem. Eles disseram que eram misericordiosos – falou uma elfa de cabelos dourados.

- Cale-se, sua vadia! Cale-se! Foi culpa sua eu ter ido lá, culpa sua! – falou uma outra elfa muito parecida, mas com um semblante de juventude que somente outros elfos podiam notar. Ela tinha uma das adagas escuras na mão. No meio de toda a gritaria, ela atacou. A arma foi enfiada três vezes na carne tenra e o sangue brotou da pele branca com vontade súbita de escapar para o ambiente. A elfa loira olhou incrédula para a outra, mais ainda quando viu as algemas abrindo-se como milagre.

Khessarel bateu palmas. Tanto os elfos quanto os minotauros o observavam.

- São as escolhas mais árduas que definem quem somos e ninguém é livre nesses tempos sem que as mãos fiquem calejadas por torcer o próprio destino – falou. – Os minotauros entrarão em breve aqui. Temos pouco tempo. Quem quiser abrir os grilhões do corpo e da alma, que use as adagas. Quem quiser só romper as correntes do corpo, procurem a chave nesse minotauro ainda vivo.

====

Maiec retirou o arco das costas e correu para trás. Nelup e Aetis deram passos mais curtos e começaram a defender-se dos primeiros golpes, até as flechas do outro elfo voarem. Os minotauros começaram a preparar os escudos e finalmente acionaram sua defesa típica. A parede de escudos se formara. O ataque rápido dos elfos e a confiança de que ninguém investiria contra um acampamento de pelo menos trinta deles havia os deixado pouco preparados para uma defesa conjunta.

Nelup passou correndo por Maiec retirando o arco das costas e preparando uma flecha. Agora apenas Aetis portava a espada. Uma flecha passou por ele quando corria. Era Nelup que provavelmente atingira apenas os escudos dos minotauros. A cada momento um elfo parava e disparava, cobrindo a retirada. Os minotauros avançaram um pouco mais lentamente, até começarem a preparar uma carga. Foi o momento preciso em que os outros dois elfos e Rhyer´Dyh atacaram pelos flancos. Flechas e balas perfuraram as laterais e as costas dos inimigos. Protestaram contra o subterfúgio com ofensas e berros indignados e pelo menos um ajoelhou-se ferido demais.

A parede de escudos transformou-se em um triângulo, mas já era tarde demais. Os Bryr´Niantharen apareceram. Dos treze minotauros que formavam a defesa compacta, três caíram no primeiro ataque e outros dois sucumbiram nem um minuto depois. Os guerreiros shimay dançavam entre os monstros, misturados em sombras e rasgando o pêlo dos oponentes com espadas frias e escurecidas pela energia das trevas. Rhyer´Dyh pegara mais uma vez o rifle e recomeçava seus tiros. Dois tiros tinham um intervalo muito maior do que duas flechas, mas eles atravessavam armadura como se fosse papel com uma precisão de mestres arcanos do arco.

Aetis e os outros também faziam chover flechas nos minotauros. Não temiam acertar os Bryr´Niantharen. Elfos arqueiros deveriam saber muito bem como matar inimigos sem acertar aliados durante a confusão de um combate. Sem isso, não eram mais do que crianças brincando de guerra.

De repente, o número de flechas diminuiu. Aetis olhou curioso para o lado. Maiec deixara o arco cair e segurava o pescoço atravessado. O sangue escorria pelo buraco gerado pela haste de madeira. Aetis não viu o companheiro tombar, mas olhou para a fonte do ataque. Das sombras vinham os elfos com coleira. Os Espadas de Glórienn eram conduzidos por minotauros e traziam consigo outros elfos acorrentados, esses sem armas, apenas meros cativos.

- Precisamos de cobertura! – gritou.

Os Bryr´Niantharen continuavam sua dança mortal; coube aos outros elfos e Rhyer´Dyh dispararem contra os Espadas de Glórienn. Remeneh tomou a dianteira, avançando pelo campo sem temer flechas ou bala. Nada o tocou até que sua espada bateu contra a de Aetis.

- Fuja, Nelup – gritou Aetis, defendendo-se.

- Entreguem-se e cumpram seu dever sagrado. Matem-se – berrava Remeneh.

Nelup recuou, obedecendo as ordens e se juntando aos outros. Aetis ficou para lutar e morrer se isso fosse necessário. O ódio que sentira no início do combate estava aceso novamente. Ele entendia bem porque tinha tanta raiva. Precisava de culpados para tudo o que ocorrera obviamente. Mas havia mais do que isso. Matar os monstros era mostrar que sua espada ainda servia para dissipar do mundo todas as aberrações que ameaçavam a perfeição dos elfos. Matar seus irmãos de espada era mostrar que não estava errado, que aqueles captores, viciados em uma deusa enlouquecida e acovardada, eram os verdadeiros vilões. Todo Espada de Glórienn que deixasse de ser um guerreiro sagrado deveria se matar ou ser morto por seus pares. Não havia volta nesse trabalho. E escravizar elfos não era um voto a ser seguido. Não era proteção. Era covardia.

- Fanáticos! Covardes! – acusou Aetis, aparando os golpes de Remeneh.

- Covardia é não se entregar à vontade da Deusa Mãe por temer perder algo intangível como a liberdade, Aetis – falou Remeneh, afastando-se alguns passos quando uma flecha de Nelup quase o acertou. – Liberdade é uma ilusão. Como os elfos aproveitaram a liberdade depois da queda do reino? Choraram e pediram esmolas. Agora seremos amparados.

Aetis balançou a cabeça, negando a sucessão de bobagens. Cuspiu diante dos pés do outro elfo e atacou.

- Não vou permitir que continue com essa loucura!

O barulho das espadas se chocando quase suprimia o som do protesto. Os outros inimigos continuavam se aproximando. Um deles pulou o corpo de Maiec. A espada por pouco não levou metade do braço de Aetis. Foi a escuridão quem o salvou. De repente, já atravessava um corredor escuro em que dedos sombrios raspavam sua pele e vozes sedosas pediam para que ficasse. A luz voltou de novo e ele já estava distante de Remeneh, junto aos shimay, mas agora não havia apenas seis deles. Quase não conseguiu contá-los sob a fraca luz da lua. As tochas distantes do acampamento não ajudavam, mas diante dele, pelo menos dez outros elfos de cabelos escuros e mãos sujas de sangue estavam de pé.

Aetis só pôde tomar uma conclusão do ocorrido:

- Vocês mataram os outros...

- Não – respondeu Khessarel. Os dedos do mago dispararam em movimento quando os minotauros começaram a atravessar o campo. As trevas tomaram o chão e delas saltou a morte. Espectros vieram do solo, arrancando grandes pedaços de carne e pedindo por mais. Morderam até os minotauros caírem e continuaram a devorá-los vivos. Eram mordidas frias, isentas de sangue. Esvaíam-se a vida e a alma pelas feridas enegrecidas. O espírito escapava como o ar e a essência vital se transformava em vermes que deixavam depressa o corpo em forma de moscas e larvas.

Sete minotauros e três elfos estavam caídos diante de olhares estarrecidos. A magia era uma profanação da vida. Era claro que nenhum daqueles seres encontraria seu paraíso, tendo a alma sido desfeita em pedaços que nunca mais seriam reconstituídos. O sacerdote élfico do outro lado vomitou. Os minotauros protestaram com sons terríveis como urros de dragões.

- Elfos não são escravos! Nós somos a lâmina e vocês a carne. Nós somos a flecha e vocês o coração – gritou Kelana, a shimay sacerdotisa. Apontava um arco para os inimigos e soltava flechas escurecidas pelos milagres da deusa das trevas. Pelo menos uma delas atravessou um dos guerreiros de Remeneh no coração. Ela continuou disparando até Khessarel tocar em seu braço. Lançou-lhe um olhar violento, mas a desobediência não estava em seu sangue. Baixou o arco e soltou as últimas palavras. – Isso não acaba aqui!

- Chega de poesia e bravatas. Elfos negros matam, não gritam.

Os inimigos estavam parados do outro lado, temendo atravessar o campo de trevas. Um dos minotauros balançou o sacerdote de Glórienn exigindo algo, mas o pobre elfo agitava a cabeça impotente. Aetis teria continuado observando eternamente se Nelup não o chamasse. Só então percebeu que havia outros elfos sem as marcas negras dos shimay que o esperavam.

- Eles não querem seguir Niantharen e muito menos a Mãe Escrava.

- Nós vamos lutar como não lutamos antes – gritou um dos elfos, balançando os braços para o outro lado do campo.

- Chega de lamento – falou outro, querendo buscar forças nas próprias palavras.

Aetis começou a andar na frente, clamando terreno.

====

O amanhecer estava muito próximo. Os shimay olhavam-se com questões nos olhos negros. Aetis via mais dúvidas quanto ao futuro próximo do que quanto a seu novo destino. Nenhum deles ainda limpara-se do sangue em suas mãos. Eram apenas magia que se fora tão logo o perigo passara.

Rhyer´Dyh aproximou-se, passando entre as árvores das florestas e vendo os elfos se lavarem em um pequeno córrego. Alguns deles estavam sentados em grupos, cochichando. Eram em número maior do que o de shimay libertos e a dúvida e o medo eram muito maiores que a quantidade de filhos de Glórienn.

- Nós vamos partir. Nossos caminhos se separam aqui – falou o shimay, estendendo a mão.

Aetis olhou para o outro pensativo.

- Não seremos mais inimigos?

Rhyer´Dyh deu de ombros. Apoiou uma das mãos em uma pistola e suspirou.

- Tempos difíceis, não é?

- Muito difíceis, mas ao menos agora vocês entendem porque não queríamos mais aquela deusa de espírito quebrado. Vocês mesmos já a chamam de Mãe Escrava, Deusa Acovardada.

Foi a vez de Aetis suspirar. Era mesmo uma deusa quebrada como os elfos negros haviam avisado e poucos haviam ouvido. Só que agora, muitos prestariam atenção à mensagem e quem não o fizesse, seria um exemplo dolorido da verdade, fosse como escravo, fosse como cadáver.

Os shimay se foram com a noite. O amanhecer alcançou elfos cansados e preocupados. Aetis sentiu um peso árduo nos ombros quando percebeu que havia mais de vinte vidas sob sua guarda. Esfregou o rosto, imaginando se sua antiga deusa não havia caído por piedade de si mesma diante de uma cena como aquela. Não emularia a Mãe Escrava. Era hora de ser forte. Faria ao contrário dela e traria outros para sua causa. O único preço que estava disposto a pagar pela liberdade era sua própria vida.

====

   Os elfos que haviam acabado de chegar contaram diversas histórias sobre a viagem até ali. Dahlis ouviu cada uma, antes que os minotauros aparecessem para silenciá-los por falar sobre liberdade. Para contribuir com o silêncio, o elfo da coleira dourada levava todos para o culto da Deusa Salvadora, a Senhora das Escolhas Difíceis. Ali os elfos se entregavam à servidão e calavam-se, esquecendo-se do banho de sangue sob a tenda, quando elfos negros apareceram e ofereceram a liberdade.

   - Liberdade é pecado. Servidão é privilégio – falavam depois de deixar a sala da estátua de mármore.

   Dahlis não entrava mais lá. Executava suas tarefas e pensava nas histórias, fantasiando com elfos ou elfos negros aparecendo para matar os minotauros e salvá-lo. Mal falava com os outros depois que não tinham mais histórias de fuga para contar. Foi só com um deles que trocou palavras, um elfo machucado, de olhares indecisos com quem precisou de mais de uma semana de esforço para arrancar a palavra liberdade da boca.

   - Eles fizeram a oferta, mas eu tive medo demais para recusar. Eu não podia simplesmente matar, Dahlis.  E eles seguiam Tenebra. Quem pode acreditar em quem segue a deusa das trevas? São mentirosos por natureza – falou enquanto comiam na varanda, observando os outros escravos trabalharem no terreno adiante.

Os minotauros observavam o momento de descanso dos elfos, o que fez Dahlis tremer de medo, pois o colega acabara de retirar uma adaga negra de dentro dos trapos que vestia. Nenhum dos captores fez mais do que um olhar curioso na direção deles.

- Ao menos isso é verdade. Nenhum minotauro pode ver ou tocar a faca. Só os elfos. Só os elfos.

Surpreso e cheio de medo, Dahlis colocou a arma depressa entre as roupas. Ao contrário do outro elfo, já tinha permissão para andar com vestimentas melhores devido ao trabalho bem feito e por não causar mais problemas.

- Mas quem vai usar isso? Sangrar um dos nossos por uma promessa? Vai orar para quem? Falaram que Berforam nos salvaria. O Alma Negra traria mesmo liberdade? Eu duvido.

- Mas eles libertaram os outros?

- Sim. Não conte a mais ninguém isso. Essa faca me dá esperança e às vezes me pego orando para que Berforam me salve. Vou deixá-la com você para evitar a tentação e as falsas esperanças.

As tochas estavam sendo acesas quando Dahlis encontrou o sacerdote. Ele andava junto com o elfo da coleira dourada. Sorriram juntos ao vê-lo e o chefe dos escravos estendeu o braço o apresentando.

- Esse é Dahlis. Ele não participa dos cultos e se recusa a crer na proteção da deusa.

- Eu me lembro de seu rosto, Dahlis. Você estava em um dos nossos círculos – falou.

Sim, ele estivera no círculo. Foi lá que os minotauros pegaram os elfos de surpresa e os levaram. Pelo menos três dezenas deles foram pegas e três guerreiros mortos.

- Vamos conversar, Dahlis – falou o sacerdote, começando a caminhar.

 O escravo o acompanhou, vendo a coleira de prata com o arco e a espada envoltos em uma corrente. O brilho nos olhos dele era de um fanatismo intenso, de quem não enxerga nada além dos desígnios da fé e distorce o mundo em prol disso.

- Não tenho o que falar – disse Dahlis, vendo que o outro elfo ficara para trás sorrindo.

Viraram em um corredor em que uma elfa limpava o chão. O sacerdote falava sobre os benefícios e a importância de seguir as duras provações da vida.

- Isso não foi nem de longe tão difícil para você quanto para a deusa. Imagina o que é um deus se submeter à escravidão. Tudo por causa de seus filhos. Ela fez tudo por nossa causa. Se sacrificou por nós.

Dahlis não acreditava nisso. Para ele, a deusa fora covarde. Entregara-se somente porque as circunstâncias a fizeram fazer isso. Não havia como evitar aquele destino sem uma coragem pungente que a fizesse erguer as armas e lutar, algo que seu povo encararia com mais decência e pelo qual daria sua vida.

- Entregue-se à verdade e ao sacrifício, Dahlis. Você é um filho de Glórienn e essa é a única alternativa que não é pecado. Seja um renascido de Glórienn e aceite que esse é o nosso destino.

Dahllis olhou para o sacerdote. Baixou a cabeça e avistou a elfa limpando o chão duro onde batiam os cascos dos minotauros. Eram animais, os mesmos animais que os elfos criavam em pastos e currais antes da queda do reino. Não eram mais do que bois com vozes e agora precisava limpar o estrume deles. Precisava cuidar do esterco daquelas criaturas.

- Não! – gritou, sacando a adaga negra. O sacerdote viu assustado sua barriga ser furada uma, duas, três, quatro vezes. Caiu em poça de sangue com Dahlils de joelho a seu lado. O elfo segurava com firmeza a adaga sangrenta e chorava. – Berforam. Berforam... – sussurrava, com a elfa olhando estarrecida. Tudo ficou escuro.

A elfa ouviu vozes. Alguma coisa estava acontecendo na escuridão. Alguém procurava por inimigos, mas tudo desapareceu e só restava sangue, cadáver e adaga no chão sujo. Minotauros e escravos corriam para o local. Assustada, pegou a adaga e escondeu dentro do balde. Começou a gritar nervosa pedindo por socorro; dentro de si ela orava. Orava para ter forças para chamar pelas trevas. Chamava pelo último nome que Dahlis pronunciara, um nome que ela diria a outros, mesmo que a maioria negasse ou não acreditasse.

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