sábado, 20 de abril de 2019

Caóticos e Trapaceiros

No princípio, o Caos Arock acabara de voltar de uma das lendárias festas elficas de Nimbarann. 
O Azgher já estava para tomar o lugar de Tenebra. Mal troca de roupas e se deita leva um tremendo susto quando abre os olhos e vê uma sinistra figura vestida de preto em pé ao lado da cama.
 Como uma estátua de trevas, tem o corpo imóvel, mesmo com a reação de involuntária de pavor de Arock e seus gritos de "sou muito bonito para morrer". 

Demora para o cérebro "acordar" ( tarefa em que Caos, seu familiar tem uma participação considerável) e perceber através do breu noturno do misterioso ninja conhecido apenas como Sombra. Na mão estendida em direção à cama, um envelope. Refeito do susto, Arock, com uma mão esfrega os olhos de sono e com a outra apanha a encomenda. Então, com um movimento ágil como um bote felino, o ninja arremessa um pequeno objeto com força no chão. Uma pequena explosão e uma densa nuvem de fumaça preenche o ambiente, junto com um desagradável odor que lembra uma mistura de esterco de vaca com ovo podre. Com a mão tampando a boca e o nariz para se proteger do cheiro e da fumaça, Arock ouve um barulho como de impacto na parede do quarto seguido de um gemido.

 Quando a fumaça se dissipa, Arock vê o homem arqueado com a mão na cabeça. Ao perceber que está sendo observado, o ninja dá uma pirueta para trás e se arremessa janela afora. Dessa vez, Arock ouve um forte impacto no chão lá em baixo e um grito agudo de dor (o quarto fica no terceiro piso do templo) Não era próprio de Sombra errar, mas a simples presença do familiar de Arock, um pássaro do caos, já mudava consideravelmente o rumo das coisas. 

Já se completaram algumas semanas desde que Arock escreveu a Hynn pedindo indicações de um ladino para a próxima missão que os deuses lhe confiaram (as missões de Hyninn sempre precisavam de um ladino). Arock tem um presente dos deuses, assim ele afirma, a Marca do Caos, uma espécie de tatuagem de nascença em forma de dado que muda de cor e número dependendo da missão designada. E que melhor lugar para se arrumar um ladino que Ahlen, o reino dos trapaceiros e larápios? Hynn (um halfling, secretamente clérigo de Hyninn, o deus dos Ladrões) possui uma taverna em sociedade com Cavillan (um jogador de cartas): a Copo Trincado. 

A taverna é talvez o maior ponto de encontro da criminalidade de Nilo, cidade ao sul de Ahlen e onde se situa a Copo Trincado. Hynn é também um dos chefes- fundadores do Hexágono, a expoente guilda criminosa de Nilo. Com um divertido sorriso no rosto, Arock acende o lampião depositado sobre o criado-mudo ao lado da cama, eclipsando assim, a tênue luz do início da aurora que penetra pela janela agora aberta. Preguiçosamente, ainda sob os cobertores, Arock rompe o lacre do envelope e lê a carta que Hynn enviou, onde dizia: 

"Caro Arock Cavillan me entregou sua carta. Pelo que percebi, você me pede a indicação de simplesmente o melhor. Claro que o Hexágono não pode dispor de nenhum de seus Vértices, nem você teria dinheiro para isso. Assim mesmo, lhe recomendarei o melhor profissional que você puder pagar. Há um tempo atrás, pareceu por aqui um jovem talento muito promissor. Vindo de família nobre e neto do prefeito da cidade, freqüentava bastante a minha taverna, onde perdia rios de Tibares em apostas com o Cavillan. Ele é um clérigo de Hyninn e deu um baita prejuízo na guilda criminosa da cidade, levando-os à falência: roubou todo o tesouro embaixo dos narizes dos líderes. O resultado foi que ele teve que fugir e sua cabeça foi posta a prêmio. O primo dele é um dos Vértices do Hexágono e o principal perseguidor dele. A recompensa é considerável. Eu mesmo fui atrás dele, mas umas moedas douradas amigas dele me convenceram de que ele era gente boa demais para ir ao encontro de Hyninn tão cedo. A última informação que tivemos dele é que atualmente ele está em Valkaria onde pode se esconder melhor entre a multidão. Tem uma barraca de venda de amuletos "mágicos". Mas talvez não esteja mais lá, já que ele é um nômade fugitivo. 
Boa Sorte! 
Ass: Hynn, clérigo do Mestre das Artimanhas, sócio-proprietário da taverna Copo Trincado e Vértice do Hexágono. 
PS: Desculpe mandar o Sombra para entregar a carta, eu sei que ele te dá arrepios (a mim também dá, na verdade), mas resolvi aproveitar a passagem dele por Fortuna em missão para o Hexágono. 
PS2: O primo dele ainda oferece uma gorda recompensa pela captura, de preferência vivo, mas morto também serve. Caso esteja interessado no dinheiro". 

Arock suspirou e, finalmente se levantou da cama. Pegou papel e tinta, então começou a escrever duas cartas: uma ao tal Kainof outra a Hynn. Caos, o pássaro do caos, tinha saído com Dado, o trobo, pois se os dois fossem esperar Arock acordar para alimentá-los, morreriam de fome. 
Estava em Nimbarann, mas não ficava na casa dos pais para não atrapalhar o sossego deles. Por isso estava hospedado no templo de Nimb. Trocou de roupa e foi almoçar (no horário que ele acordou café não era mais uma hipótese). Após de errar cinco ou dez corredores ("por que esse templo esta sempre sendo reformado?"), chegou à mesa onde Gharats Porion, a sacerdotisa responsável pelo templo, o estava tomando café. 

- Horários irregulares Gharats. - Arock comentou. 

- E o que é regular em um clérigo de Nimb? - ela respondeu. - Obrigado pela hospedagem, mas eu acho que parto ainda hoje. - Manter parado o clérigo do caos é como engarrafar um dragão, simplesmente impossível. 

-Para onde você vai? 

- Valkaria... 

Nisso a porta se abriu e uma bela cabeleira loira pareceu vir junto com ela: 
- Não sei se eu disse, mas você tem visitas. - Gharats disse. 

Era a irmã mais velha de Arock, Amdira, clériga de Nimb. Amdira era a copia de sua mãe: tinha belos olhos verdes (como o irmão), cabelos loiros esvoaçantes, mais ou menos um metro e setenta e seus sessenta quilos, além de um semblante perfeitamente calmo e tranqüilizante (poderia até transmitir paz para aqueles que não a conhecessem). 
O Clérigo do Caos amava muito todas suas irmãs, o que não impedia que ele ficasse receoso na presença delas: Kilia, sua irmã do meio, era inteligente, paciente, maternal, mas sempre o pegava para cobaia de seus experimentos mágicos; Galian, sua irmã mais nova (e a que ele mais gostava) era brincalhona, juvenil, divertida e adorava o irmão (e isso era recíproco), mas os dois sempre se pregavam peças mutuamente. Mesmo assim Galian e Kilia juntas não chegavam nem aos pés do medo que Amdira causava em Arock: apesar dela sempre manter um rosto perfeitamente calmo, ninguém podia prever o que sairia daquela cabeça completamente maluca. 

Arock achava que se Amdira estivesse sentada no olho de um furacão, sua expressão não mudaria. O Clérigo do Caos respirou fundo, se levantou e andou até a sua irmã. Ela o fitou com a face imutável e seus verdes olhos. Arock tremeu: ele não havia tremido frente a um enorme dragão verde, mas tremia frente a sua irmã mais velha. 

Amdira pegou um papel lambeu e colou na testa do Clérigo do Caos. Conservando a mão em sua testa, ela beijou-lhe a bochecha: 

- Eu também te amo, Amdira. _Arock respondeu. 

Então a clériga de Nimb deu-lhe outro beijo, soltou o papel (ainda colado no rosto de Arock devido à saliva dela) e foi embora cantarolando saltitante. Arock suspirou aliviado ("Pelo menos ela não destruiu nada dessa vez"), pegou o papel de sua testa, limpou a baba e leu:

"Procura-se, Clériga de Hynnin, por vários crimes. Recompensa..." e tinha uma foto de Galian embaixo. 

- Como se já não bastasse os deuses para me ocuparem e eu ainda fui brindado com essas três jóias elficas, que são minhas irmãs. - O clérigo do caos riu irônico para Gharats. -Deixe-me fazer as malas. 

Ainda no corredor, de um canto envolto em sombras, surgiu um belíssimo vulto. Parecia ser a própria Tenebra: pele branca, cabelos e olhos profundamente negro, vestida (ou quase) de cinza e carregando duas laminas típicas de elfo negro. Era Felícia, a enviada de Hynn e outro dos seis Vértices do Hexágono: 

- Tem algo para mim bonitinho? - a meio elfa disse insinuante.

Felícia conhecida como a Bailarina de Tenebra, com sua habilidade como dançarina das sombras e seu charme fatal, além de berço nobre e contatos magníficos, era uma ladina temida e respeitada. Seu fã clube era extenso entre os criminosos, principalmente os de Nilo. 

- Só se você tiver algo para mim! - Arock disse a puxando para perto de si. 

- Não me provoque, eu posso gostar! 
- Vou correr o risco... - Arock a puxou para dentro de uma das muitas salas em reforma do templo. Arock deu algumas instruções finais para a meio-elfa ("como é bela") e ela desapareceu nas sombras, não sem um beijo de despedida. 

Depois das cartas devidamente entregues a Felícia, Arock seguiu ao seu quarto. Lá Caos tentava, sem muito sucesso, convencer Dado de que ele não devia pular a janela para dentro do quarto. O trobo acabou por entrar, para prazer de seu dono. 

- Senhores façam as malas, partimos ainda hoje para Valkaria. - Arock concluiu animado. Dado obedeceu prontamente, empacotando com o bico, roupas, armas, itens mágicos...

 - Porque nós vamos para Valkaria, Arock? - Caos perguntou. Agenda de contatos, garrafas de vinho, livro de autógrafos... Bonequinhos de pelúcia (deuses, Niele, Hit, Dee, dentre outros da coleção particular de Dado), um polidor de chifres, pente para penas...

- Trabalho, como sempre, meu bom pássaro. Eu preciso de ajuda de um ladino para uma missão de Hynnin... - o clérigo respondeu. -... Aí o Hynn me deu um contato de um tal de Kainof, e eu escrevi uma carta combinando de nos encontrarmos lá na capital... 

O trobo continuava guardando os itens, livros ("Valkar e Lalkar simples para corvos", "Seja uma ave feliz", "Meu mestre é um tonto: guia para familiares insatisfeitos"...), óculos para aves, pássaro do caos e pronto: o trobo fechou a mala. 

-... Coincidentemente minha irmã também esta sendo procurada lá. Então eu mato dois kobolds com uma bola de fogo só! Não é ótimo Caos?! Caos? 

- Arock olhou em volta. - Caos?... Dado, você viu o Caos por ai? O trobo balançou negativamente a cabeça. - Estranho eu acho que o vi aqui, agora mesmo... 

Episódio 2 – O vigarista

- Olha o rapa! O RAPA!
É incrível o poder da palavra. Sobretudo a palavra rapa entre os comerciantes ilegais de bugigangas no centro de Valkaria, a maior cidade do mundo. Tão grande e com tanta gente passando pra lá e pra cá que é possível passar toda uma vida nela e mesmo assim não conhecê-la a fundo e por inteiro.
Muitas pessoas são atraídas a Valkaria pelas inúmeras oportunidades que a cidade oferece. Alguns estabelecem pequenas barracas móveis onde vendem utensílios das mais variadas origens e (in) utilidades. Geralmente não têm autorização da prefeitura para comércio, não pagam taxas ou impostos, não prestam conta da procedência de seus produtos, que, aliás, são alvo de várias reclamações de mau funcionamento. O povo os chama de “roleiros”.
Periodicamente a Guarda Municipal de Valkaria realiza inspeções de apreensão nos locais onde normalmente se reúnem os roleiros. Essas incursões da Guarda são conhecidas por “rapa”. Quando isso ocorre, é uma verdadeira avalanche viva de vendedores em fuga, carregando o máximo de seus produtos que conseguirem suportar nos braços. É verdade que a maioria dos guardas inspetores não deseja mais do que “molhar a mão”: receber propina para fazer “vista grossa”. Assim Valkaria vai indo... E os roleiros também.
Entretanto, nem todos os roleiros têm os Tibares suficientes para a “molha” toda vez que há um rapa. Resta a eles fugir sempre que vêem um oficial da Guarda.
- Ei cara! Não ouviu? O rapa!
O rapaz franzino é sacudido de seus devaneios e vê a multidão passar correndo na frente da sua barraca. Ao longe um grupo de oficiais da Guarda de Valkaria se aproxima: um rapa!
Um saco de estopa e alguns segundos são mais que suficientes para todos os medalhões, frascos e amuletos sumirem da barraca. O lucro do dia para a algibeira e pernas-pra-que-te-quero.
Na correria, um encontrão. E outro. E mais um, dessa vez um desequilíbrio. De repente, a parede: um beijo forçado, um “galo” na testa, um corte no supercílio e um corpo na poeira do chão.
- Ei você! Espere aí! Milícia de Valkaria!
Só sobrara ele na rua. Os outros, mais ágeis e experientes no assunto, já haviam escapado. Mas o rapaz ferido se levanta de um salto e corre rapidamente. O medo faz milagres com o limite da dor e da capacidade muscular...
- Alto! Pare em nome da lei! - o guarda brada as frases ícones e de impacto de todo oficial da lei. Mas isso não intimida, já ouviu aquelas mesmas palavras muitas vezes antes.
A visão dificultada pelo sangue que escorre sobre um dos olhos não impede que veja a entrada para um beco salvador. Acelera a corrida e entra bem antes do guarda perseguidor, que quando chega, percebe que o fugitivo sumiu. No beco, somente um inocente macaquinho revirando o lixo.

Ferido, carregando um saco de bugigangas nas costas, sujo e cheirando a lixo, o jovem caminha até um templo de Marah. Odeia aquele lugar cheio de mendigos e pedintes, mas lá pode tomar um banho e receber cuidados médicos graça. Alcem de ser um lugar tranqüilo, perfeito paras se esquecer do estresse de um dioa estafante de trabalho árduo.
Depois a mesma taverna-estalagem capenga de sempre:
- Dia duro Senhor Kainof? - pergunta o taverneiro.
- Nem me fale Olmo! - reclama o rapaz cansado.
- Um bom vinho pra relaxar? - oferece o comerciante.
- Não. Não hoje, de novo. Me vê o de sempre: um caneco daquela sua cerveja aguada...
O taverneiro pega um copo parcialmente limpo e enche na torneira do barril. Serve o cliente que bebe ávido.
- Você tem que parar de colocar água nesse barril, Olmo. Daqui a pouco não terá mais gosto algum. Ou pelo menos coloque uma água de qualidade... Isso aqui são larvas? - pergunta o freguês apontando o resto do líquido no fundo do copo de vidro. - Que nojo!
O atendente pega o caneco, analisa, dá de ombros e deposita o resto de volta no barril.
- O que temos no jantar hoje Olmo?
- Sopa de grão-de-bico com miúdos de frango.
- Outra vez! - desanima Kainof - é a sexta vez essa semana! Deixa pra lá, fiquei sem fome. Passe a chave do meu quarto, por favor, Olmo.
- Para a cama tão cedo? Não fará uma visitinha hoje às moças da Senhorita Natasha?
- Não, elas...são...exigentes quanto a data do pagamento...
Olmo alcança a chave ao seu inquilino.
- Que decadência! De nababo a mendigo. Eu que já fui grande, famoso e rico... - lastima o jovem sumindo no corredor escuro.
- Boa noite Senhor Kainof!
Olmo faz gestos circulares com o dedo perto da cabeça.
- Esse aí tomou meio copo de cerveja e já ficou bêbado! - comenta o taverneiro com o cliente mais próximo - Pra você ver como é boa essa minha cerveja.
Kainof ouve cornetas de caça e latidos. O som é irresistível, precisa segui-lo. No caminho, homens correndo com medo. Os latidos aumentam. O som também. Ele vê uma raposa montada num cavalo soprando um clarim. Os latidos aumentam mais. De repente a raposa tira do bolso um objeto e arremessa na direção dele. É um dado que aumenta, aumenta cada vez mais que chega perto. Já é do tamanho de um homem. Choque! Ele acorda na estalagem em que dormiu. Um sinal, e bem claro.

- Bom dia Senhor Kainof! - sem receber resposta, Olmo prossegue - Ah, esqueci de lhe avisar que ontem à tardinha um homem esteve aqui lhe procurando.
- Ah é?! - assusta-se - Como ele era?
- Agora que o senhor perguntou, era um sujeitinho bem estranho, acho que era meio maluco...ou estava bêbado...ou...
- A aparência Olmo! - corta-o - Carregava armas?
“Ele é bem folgado para um baixinho magrelo!” - pensa Olmo ofendido.
- Ele tinha uma bainha na cintura, mas não vi arma nenhuma guardada. Tinha meia altura, cabelos e cavanhaque pretos, roupa de clérigo e muitos anéis e amuletos pelo corpo. Chapéu e um corvo no ombro.
- Um corvo no ombro? Um tapa-olho e perna-de-pau também?
- Só o corvo senhor... - titubeia o taverneiro.
- Você não disse a ele que eu estava aqui, disse?
- Não era pra dizer?
- NÃO!
- Ufa! Ainda bem que eu não disse...
- Eu acho que você deveria aprender a mentir melhor Olmo. - conclui cansado, massageando as têmporas.
- O que o senhor quer dizer com isso?
- Que você, com sua burrice estratosférica, não só disse que eu pernoito aqui, como disse onde trabalho, onde ele poderia me encontrar. Mas como tive uns probleminhas, houve um desencontro.
O taverneiro fica rubro de vergonha e raiva. “Ele é mesmo bem folgado!” - pensa indignado com a ingratidão do cliente. O inquilino vira as costas e se dirige à saída.
- Hoje é dia do pagamento semanal Senhor Kainof, não esqueça! - alerta Olmo já irritado.
- Eu sei! - declara entre dentes - Eu sei...
- Ei! Essa chave colou na minha mão! Alguém me ajuda aqui, por favor!
Kainof vai embora rindo.

Prevenido, Kainof prepara sua banca em local diferente hoje. Espalha seus amuletos, supostamente mágicos para venda: ofício aprendido na viagem que fez a Luvian, no reino de Fortuna. Seus frascos de poções-placebo cuidadosamente distribuídos no balcão.
Caminhando entre as barracas espalhadas pela rua, olhando distraidamente os produtos, um jovem de chapéu de abas largas que escondem o rosto, roupa comum aos clérigos do Panteão, manto azul da Academia Arcana e muitos, mas muitos amuletos pendurados no pescoço e fixados nas roupas. Já vira pessoas com a mesma moda em Fortuna, onde, para se atrair sorte, usa-se os mais diversos amuletos. Seguindo o rapaz, um trobo albino e um corvo.
- Crá! - grasna o corvo quando o jovem passa na frente da barraca.
- Tem certeza? - pergunta o jovem dos amuletos ao corvo.
- Cráá... - agora um grasnar de enfado, se é que é possível a um corvo demonstrar enfado.
Kainof simula distração polindo um medalhão. O estranho ergue o chapéu e expõe profundas olheiras de quem passou a noite na farra sem dormir.
- Senhor Kainof? Kainof Riguad? - indaga com sonolência o desconhecido.
- Quem quer saber? - pergunta Kainof, fingindo trivialidade e disfarçando o medo.
- Arock, o Clérigo do Caos!

Continuaria no próximo episódio... Mas os autores  não  concluiram o conto/novel

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Autores
Texto: Rômulo "Kainof" Ohlweiler
Idéia original: Arthur "Arock" Diniz

quarta-feira, 17 de abril de 2019

O Curinga do Baralho

Autor: Rafael publicado na lista Tormenta 2 de out de 2003
Uma certa noite um jovem de corpo rígido e feições reservadas entrou na taverna A Rosa e o Arbusto. 
A taverna de certo era a mais movimentada de toda a cidade de Curanmir, na costa sul do reino de Petrynia, principalmente em dias de festivais, quando a cidade era visitada por uma grande quantidade de viajantes. 

De qualquer forma, o jovem não fora atraído por festivais ou feiras de artesanatos - estava apenas de passagem; Há alguns dias atrás chegou de uma viagem pela costa do Mar Negro, e buscava agora apenas algum descanso para os dias ainda vindouros. Estava hospedado nos porões do próprio "Pugnaz", o navio o qual passara pelo menos os últimos dois meses. Mas era fato: Sempre ao cair da noite, o jovem corria para a taverna e se embebedava até o amanhecer.


- Boa noite, senhor... - disse ele ao taverneiro, que agitado com os pedidos de seus outros clientes. O homem mal respondeu à sua cordialidade, e perguntou o que o jovem desejava. - Uma cerveja. Apenas isso... - respondeu. E aguardou por alguns instantes até que o taverneiro lhe trouxesse sua bebida.

Foi quando uma chuva forte começou a banhar o solo do lado de fora; A até poucos minutos atrás, uma garoa fina cortava a noite, como vinha acontecendo nos últimos dias. O jovem recebeu sua cerveja e a entornou pela garganta, enquanto um outro homem, ensopado, que provavelmente tinha acabado de chegar na taverna, sentou-se ao seu lado no balcão.

- A chuva me pegou desprevenido... - disse o homem que trajado em uma capa escura, que por sobre encontrava-se um talismã singular de prata, que entalhado em forma de rosa. O homem virou-se ao jovem e o encarou. - Por que está triste? - perguntou.

- Não estou triste; Aborrecido... - respondeu o jovem.

- Mas não parece.

- Quem é você afinal? Porque me perturbas? - disse o jovem irritadiço.

- Desculpe-me por minha inconveniência, é que acabei de chegar à cidade, e estou em busca de pessoas para trocar algumas idéias e histórias.

- Eu que devia me desculpar. Ando fora de si nestes últimos dias... - O homem sorriu-lhe e disse que estava tudo bem. Voltou-se ao taverneiro e também lhe pediu uma cerveja. - Qual é seu problema, meu jovem? - perguntou-lhe então, alguns momentos antes de receber sua bebida. - Você se incomodaria se eu o acompanhasse na bebedeira? - o jovem respondeu-lhe que não, que poderia juntar-se a ele, e explicou-lhe o que aconteceu consigo:

- Eu acabei de atracar nos portos de Curanmir; Eu e meus companheiros e meu irmão, fomos de encontro a uma ilha, que diziam rumores, era cercada por tesouros, e como toda boa história, por monstros e armadilhas mortíferas que os guardavam. Depois de algumas semanas navegando neste mar, encontramos a tal ilha, e também o tal tesouro. Devo-lhe dizer, fiquei desapontado com o que encontramos; Apenas poucos tibares num velho baú pirata, que se divididos entre toda a tripulação não recompensaria todo o tempo gasto.

- Mas não é motivo para entristecer-se; Eu, em meus tempos de aventureiro, também muito me desapontei. - disse o homem encapuzado.

- Sim, mas não apenas por isso. Enquanto voltávamos, nossa caravela foi atacada por uma criatura marinha gigante; O barco ficou bastante danificado, metade da tripulação foi morta e devorada pela besta, e entre os inúmeros desaparecidos, estava meu irmão... Desde então resolvi largar a vida de explorador, e por muito pouco não resolvi largar toda minha vida...

- Sinto muito. - disse-lhe o homem. E um silêncio triste venceu a conversa. A taverna permanecia bastante movimentada e tumultuada, mas aquele silêncio parecia onipotente entre eles. O jovem então pediu ao taverneiro mais uma cerveja, enquanto o homem voltou a lhe dizer:

- Como lhe disse, também fui um aventureiro, confiante e valente. Era um bravo guerreiro; Durante muito tempo eu viajei junto a um grupo de exploradores, mas resolvi abandona-los e permanecer apenas como um peregrino solitário. Depois de um tempo de aventuras, tudo o que você fez parece ter sido em vão, então resolvi coletar informações pelo Reinado afora, só assim poderia resguardar lembranças de tudo o que havia feito. - o homem deu uma pausa breve, terminou de tomar o restante de sua cerveja e voltou a dizer. - Eu tenho uma boa história que me aconteceu em alguns dias atrás, você gostaria de ouvi-la? Ela poderia colocar um fim em seus problemas...

- Porque não? Faltam ainda muitas horas antes do amanhecer... - disse o jovem.

- Pois então meu jovem, lhe contarei sobre o dia em que quase morri...

O homem então pigarreou, e antes que começasse seu relato, pôs sobre a mesa um velho baralho de cores vermelhas, e pediu para que ele retirasse do monte, uma carta, mas que a deixasse de ponta cabeça sobre o balcão, para que não a visse. O jovem perguntou-lhe o que isso significava, e o homem apenas explicou que seria importante para ele compreender o que aconteceu. E depois que a carta fora retirada, ele começou:

- Você já ouviu falar sobre a Maldição do Curinga do Baralho? - perguntou ele. O jovem respondeu que não, e então o homem disse: - Pois bem... Era uma noite muito parecida com esta. A chuva caía forte fora de uma velha baiúca de uma terra distante. Dentro, uma lareira aquecia os corpos das poucas pessoas que conseguiram vencer o sono. Numa rústica mesa num canto do estabelecimento, estavam o sr. Jinglles, o sr. Nomadan e o sr. Landher. Eles estavam tomando um chá de ervas da mata, apenas para aquecer a garganta. O sr.Jinglles era um aprendiz de ferreiro, e começaria seu primeiro trabalho na ferraria de seu tio no dia seguinte. Ele era muito pobre, mas muito feliz; Nomadan era um bardo, um artista popular de sua terra, um célebre ex-aventureiro em busca de conhecimentos. Ele carregava um belo semblante em seu pescoço, que esculpido na forma de uma rosa de prata.

- Você? - objetou o jovem. Mas o homem continuou seu relato sem responder à sua pergunta, mas de certo estava falando de si mesmo.

- Landher era um homem forte, cheio de vigor, mas não tão popular quanto seu companheiro bardo. - disse o homem. - Enquanto conversavam, Landher retirou um baralho de seus bolsos e pediu a seus dois companheiros para que escolhessem uma carta do monte. Os outros dois aceitaram suas palavras, e cada um retirou uma carta daquele baralho.

"Virem-na. Coloque-as sobre a mesa", disse ele. Jinglles conseguiu um "Dez de Copas", enquanto Nomadan conseguiu um "Às de Ouros". Landher então lhes disse algo sobre uma maldição antiga, nomeada como a Maldição do Curinga do Baralho. Para ele, a maldição pertencia ao deus Nimb, o deus da sorte e do azar. Ele contou-lhes que neste baralho existiam apenas naipes vermelhos, e um único curinga. Ele também falou que a partir do momento em que a carta fora retirada do baralho, suas vidas tomaram um novo rumo, um rumo bem mais curto. Os outros riram e gostaram da brincadeira, até quando o terceiro se levantou, sereno, e lhes disse que não era uma gozação, era um destino. Ele deu dois passos para trás e disse que voltaria algum dia para buscar suas cartas, e deixou a baiúca rapidamente. Sr. Jinglles e o sr. Nomadan nada compreenderam, e realmente não fizeram questão nenhuma de entender; Eles prosseguiram pela noite conversando até quando a manhã surgiu. Depois de algumas horas, era certo que aquela "brincadeira" imposta por Landher já havia sido esquecida pelos dois, e assim prosseguiu por dois dias.

- Na noite do terceiro dia, o sr. Nomadan aguardava sozinho na mesma mesa daquela noite, na mesma baiúca. Ele agora tomava uma cerveja, e aguardava a chegada de Jinglles. Ali ele permaneceu durante duas horas. Havia bebido mais do que deveria, e preocupou-se com seu companheiro que outrora sempre pontual. Quando da portinhola do estabelecimento, surgiu um homem agitado, aflito e aparentemente sorumbático. Este era o tio ferreiro de Jinglles, procurando por Nomadan. Algo triste havia acontecido: seu companheiro estava morto em seu próprio aposento, talvez vítima de assassinato. Sr. Laer, o tio, conduziu Nomadan à sua casa, e o levou até os andares superiores, onde se encontrava o quarto do antigo companheiro. Quando lá chegou, encontrou o corpo de seu amigo jogado ao chão, sobre o tapete, ao lado de sua cama; Provavelmente havia sido derrubado enquanto dormia. Nomadan procurou vestígios do que poderia ter acontecido, e acabou por descobrir que ele havia sido morto há bastante tempo, talvez ao amanhecer deste mesmo dia, e que provavelmente fora morto enquanto seu sono. Nomadan também se deparou com algo que lhe fez tremer, e imaginar o pior: No peito exposto do cadáver, uma adaga encravada, e não apenas isso. Com seu sangue, que inevitavelmente banhando o tapete, um lembrete fora rabiscado na altura de sua barriga, pouco abaixo do ferimento que fatal. Com uma caligrafia pecaminosa, estava escrito:
 "Depois do Dez de Copas, o Às de Ouros...". Ele procurou pela carta que Landher havia lhe dado, mas não a encontrou em lugar algum do aposento; Provavelmente já deveria estar nas mãos de seu dono. Colocou então sua mão em seu próprio bolso, e catou a carta que recebeu e a segurou. Em sua cabeça, persistiu o pensamento de que agora corria perigo de vida.

- Dois dias mais haviam se passado. Nomadan recorreu à guarda da cidade, mas não havia provas de que sua história era verídica. Nas duas noites de pouco sono que tivera, não conseguiu livrar seus pensamentos da carta que lhe pertencia. Ele tornou-se cada vez mais aflito, e mais frenético. Até a noite do terceiro dia.

- Naquela madrugada, ele pouco conseguiu comer, e não deixou os limites de seu lar. Ele já estava ouvindo coisas e vendo coisas que realmente não existiam; Estava apavorado com o que poderia lhe acontecer. Em certo momento, estava em frente à sua lareira, pensativo, quando ouviu passos do lado de fora de sua casa. Com um salto se pôs de pé, e com um movimento inusitado estava protegido detrás de sua poltrona, de costas para o lume da lareira. Ele observou atento aos movimentos pelas janelas, e imaginou ter visto uma sombra que passou batida; Então tremeu.

"Quem está aí?", perguntou ele, em vão. Não houve respostas. A casa estava completamente silenciosa, salve o som da lenha em chamas. Repentinamente, a porta à sua frente se abriu, lentamente, talvez por obra de algum vento saliente, ou talvez não. Mas o sr. Nomadan novamente se apavorou. Ele estava com a carta nas mãos neste momento, e quando uma silhueta humanóide surgiu frente à porta, o homem sabia que era Landher, vindo cumprir o que prometido. E realmente era ele. Ele deu alguns passos para dentro da casa e sorriu para o sr. Nomadan. Apavorado, o homem jogou a carta em direção ao invasor, e lhe disse:
"Aqui está ela... Agora vá embora, você não é bem vindo em meu lar".
Landher então lhe respondeu:
"O que adianta tê-la, se você já a viu?", e saltou por cima da poltrona, derrubando o outro homem no chão. Nomadan vacilou, e só então percebeu que o invasor carregava uma adaga de lâmina afiada nas mãos, mas agora já estava encurralado, e pouco podia fazer.
"Porque? Porque você tem que me matar?", perguntou o pobre coitado.
"Tudo por causa desta maldição...".
"Mas porque?", insistiu.
"Já que você tem que morrer, vou lhe contar o que acontece: Em uma aventura antiga, eu encontrei este baralho e seu manual. Quando li o manual, a maldição então foi lançada, e eu sabia disso. Acontece que o baralho me obrigou a usa-lo, ou minha morte se daria. Pois então dizia no manual: Uma carta por alguém deve ser retirada. Se a carta não for o Curinga, esta pessoa deverá ser morta, ou você morrerá. Caso contrário, se a carta escolhida for o Curinga, a Maldição será passada à diante, e aquele que a tirou deverá continuar usando o baralho até que a Maldição seja repassada, e aquele que outrora foi o Jogador, estará livre da Maldição".
"E não há alguma forma de reverter essa maldição sem que ela seja repassada?", perguntou Nomadan.
"Creio que não", respondeu. Sr. Nomadan permaneceu por alguns instantes buscando em seus pensamentos alguma forma de acabar com a maldição, e finalmente, antes que o outro homem o atravessasse com a adaga, achou uma solução que talvez única: destruir a carta.

Sr. Nomadan então se esquivou do golpe e por pouco não foi atingido, se arrastou por entre os cômodos e catou a carta que outrora jogada ao chão. Com ela nas mãos, ele disse que ia pôr um fim de uma vez por todas nesta maldição estúpida. Landher manteve-se resoluto em suas ações, mas apenas até o sr. Nomadan catar um lampião que próximo e aponta-lo para a carta.
"Vamos ver o que acontecerá então com seu joguinho maléfico...", disse.
Ele acendeu a lamparina e viu Landher tornar-se aflito e inseguro. Parecia que era mesmo a forma de se acabar com a Maldição. Landher ainda gritou por misericórdia, mas a carta em chamas foi destruída rapidamente. Depois de alguns instantes, o assassino se contorceu de dor, e tombou ao chão, imóvel. A maldição estava então, quebrada...

Isso era o que o pobre sr. Nomadan imaginou. Mas a Maldição de forma alguma pode ser quebrada, como os dois homens naquele aposento vieram a descobrir. A carta havia voltado ao baralho, e estava intocada. Sr. Landher se levantou furioso, vivaz como nunca, talvez ainda mais poderoso. Nomadan pouco pôde fazer além de esperar pela morte que aconteceu instantes depois, com uma punhalada fatal.

-Mas eu pensei que você fosse o sr. Nomadan... - o jovem então se tornou aflito, e incrédulo, pois sem saber, havia entrado em seu jogo maligno. - Você é o sr. Landher... - afirmou. - Mas... - vacilou, apontando para o colar de prata que fora mencionado. O homem apenas sorriu, e disse que o defunto não iria precisar dele. Ele então catou a carta que outrora escolhida pelo jovem, que largada sobre o balcão. A observou por alguns momentos e lhe disse:

- Você já matou alguém inocente, meu jovem?

- Não... - respondeu ele, desconfiado.

- Pois então é melhor se acostumar com a idéia... - E o homem revelou a carta que o jovem havia escolhido: Era o Curinga do Baralho...

terça-feira, 16 de abril de 2019

Jardins Imperiais de Lenórien

Pedro Henrique 5 de ago de 2008 lista Tormenta


Diz a lenda que os *Jardins Imperiais de Lenórien* haviam sido construídos para servir de ponto de encontro entre os druidas que habitavam a região e   os primeiros sacerdotes de *Glórien*, logo após a chegada da frota élfica ao continente Lamnoriano. Dizia-se que aquele era o mais belo jardim de todo Arton. Com o passar dos anos viajantes, que passavam pela região, desviavam de sua rota para apreciar a beleza criada por * Allihanna* e realçada pela
magia dos elfos. Logo pequenas comunidades surgiram nas redondezas e com o aumento populacional os druidas não-elfos decidiram abandonar a região deixando-a aos cuidados dos elfos dogmatizados. Os *Jardins* recebiam visitantes de todos os cantos do antigo reino dos elfos em todas as estações, famílias inteiras vinham visitá-lo. Até que eles vieram, até que o mundo mudasse.

XXXXXX

Elianitalana se esgueirou pela vegetação que rodeava o antigo* Jardim Imperial*, a jovem sempre quis voltar ao lugar. O cheiro a fazia lembrar de tempos felizes. Os jardins ficavam há pelo menos dois dias de viagem da antiga capital *Lenórien*, hoje tomada pelo inimigo, o acampamento do grupo de Elianitalana não estava muito longe. Eles eram alguns dos poucos sobreviventes que permaneceram e não foram capturados, eram a resistência
contra o exército invasor. Estavam em território hostil e não estavam seguros. Parte de uma missão de reconhecimento e ela havia abandonado seu posto como vigia do acampamento, confiante que a magia que deixou para trás seria o suficiente para alertar seus companheiros se o perímetro fosse violado por algum invasor.

A antiga fonte, que antes brincava com a água de maneira a atrair os olhares dos visitantes, estava destruída e não mais retinha o liquido que brotava do subterrâneo. As estátuas e esculturas que se espalhavam pelo parque estavam em pedaços, as representações das deusas dos elfos profanadas. As milenares árvores sagradas da deusa da natureza que permeavam o local aparentemente foram arrancadas do solo, despedaçadas e deixadas para apodrecer, ou então queimadas até virarem cinza. Os invasores devotos de *Ragnar * fizeram tudo ao seu alcance para destruir a presença harmoniosa das deusas no local.

Já haviam se passado quase duas décadas e ela temera que com a
permanência dos bestiais na região os *Jardins* perdessem sua beleza que tanto a cativara na infância. Tudo aquilo que ela tinha esperança de encontrar não estava mais lá. Elianitalana mordeu seu lábio inferior por frustração, seus olhos começaram a lacrimejar. À medida que o tom de cor do céu começou a clarear de maneira melancólica expondo a depedração do local que a deveria fazer lembrar da época sem preocupações e de felicidade de sua
vida agora a entristecia. Ela quase deixou que chama da esperança de retomar seu lar e de ser feliz novamente se apagasse em seu âmago.

Quando a luz do sol nascente avivou as cores do que restou dos *Jardins* Elianitalana se deixou levar pela contemplação do local. Aonde deveria haver destruição e caos a natureza se sobressaiu. As árvores que permaneceram intocadas já haviam dado frutos e novas árvores permeavam as bordas da clareira. Os restos de árvores mortas se tornaram abrigos para insetos e pequenos animais. As águas não mais retidas pela fonte escorriam em vários riachos que umedeciam o solo para prover as mudas que cresciam mais fortes alimentadas pelas cinzas das árvores queimadas há tanto tempo
atrás e onde os animas da região se juntavam aquela manhã para beber,.

"Eles marcharam, queimaram, cortaram e profanaram, mas não tiveram o poder de destruir tanta beleza. Não para sempre" murmurou Elianitalana tocando de uma das árvores que a rodeavam. Ela sentia que a árvore lhe transmitia uma força que alimentava sua esperança em dias melhores. "Talvez fosse assim quando os colonizadores encontraram este local, uma beleza bruta
e de certa maneira mais pura."

Oculta pelas árvores Elianitalana se permitiu lembrar dos entes queridos que a guerra havia tomado, entre eles seus pais e sua irmã, e de sua vida desda queda do reino dos elfos. Ela buscou forças contra o desespero na beleza ao seu redor: Um pássaro pousara perto de um tronco de árvore no centro da careira e se alimentava de alguns insetos que estavam em atividade por ali. Um grupo cervos bebia água em um riacho, enquanto os raios de sol achavam as brechas nas folhagens das copas das árvores. Aproveitando a aparência etérea da cena Elianitalana se permitiu relaxar após muito tempo.

Uma coruja piou três vezes assuntando alguns pequenos roedores e
tirando a elfa de seu devaneio. Por instinto sua mão procurou o aji preso à sua cintura. Ela sabia que corujas são animais noturnos, a esta hora da manhã uma coruja estaria bem alimentada e pronta para descansar, não haveria razão para uma manifestação tão sonora num ambiente sem ameaça aparente como aquele. Ela sabia disso por ser uma elfa, uma raça com grande afinidade com a natureza, e por ter vivido a maior parte da sua vida escondida na floresta sem um refugio fixo. Ela sabia disso, mas os hobgoblins não, ou pelo menos ela e seu companheiros rezavam para que não, este era um sinal de sua tropa, uma solicitação para aproximação. Ela respondeu com um pio curto de coruja permitindo que quem quer que fosse se aproximasse, sua mão ainda repousava no cabo de sua arma.

O vulto que se movia graciosamente pela cobertura das árvores ela
barulhento demais para ser Phylisten, irmão de Elianitalana e comandante da missão. A elfa só se permite relaxar a guarda quando um feixe de luz atingiu as mechas douradas e revelou os penetrantes olhos verdes e o rosto impassível e sereno de Kenlann, o sacerdote de Glórien destacado para tropa.

"Meu turno ainda não acabou para que você me substituir na guarda Ken."

"Eu sei, mas acordei no meio da noite e percebi que você não estava onde deveria estar. Adivinhar o resto foi fácil, você falou sobre esses jardins desde que seu irmão os apontou no mapa como referência." Repreendeu o sacerdote como se dirigisse a uma criança, apesar de não ser mais do que um ou dois anos mais velho do que a elfa. "Se fosse seu irmão a ter insônia ele ficaria extremamente preocupado com a sua ausência"

"Não ia me demorar muito, apenas queria ver o jardim mais uma vez. Talvez nunca mais possamos nos aproximar dele o suficiente para que não seja um risco muito grande vir até aqui." Enquanto conversavam Kenlann varria o lugar com seu olhar que repousou demoradamente nas imagens profanadas da deusa dos elfos, mas não se prenderam lá. Ele também começou a notar a beleza oculta que emanava da clareira.

"Estes * Jardins* devem ter sidos maravilhosos nos temos de glória do Império." Kenlann vivia em uma pequena comunidade no litoral norte do reino antes de tudo desmoronar, ele nunca tivera a oportunidade de visitar o lugar antes que seu mundo desmoronasse. Não foram somente a capital e outras grandes cidades que sofreram com a chegada da Aliança Negra.

"Meus pais costumavam trazer a mim e meus irmãos para visitar os *Jardins*. Costumávamos brincar com as outras crianças o dia inteiro e nos reuníamos perto da fonte para comer enquanto observávamos os movimentos da água. Era muito bonito, haviam várias flores e plantas espalhadas, várias estátuas cercadas de vida e cobertas de trepadeiras que complementavam o trabalho do artista. As grandes árvores sagradas eram estrondosas e parecia que nada no mundo poderia derrubá-las, algumas delas eram interligadas por
pontes de corda e passarelas que nos deixavam mais perto dos pássaros e animais das copas. A grama tinha um tom de esmeralda que meu pai dizia quelhe lembrava o mar." 

O comentário fez surgir um sorriso esquio nos lábios do elfo. 
"Em qualquer estação era um prazer visitar estes jardins. Lembro de como era difícil para minha mãe nos convencer que já era hora de ir embora. Meu pai se recusava a partir sem que todos nós nos reuníssemos e orássemos perto da estátua da Deusa que ficava no centro dos * Jardins * cercada por uma cerca viva."

"Não podemos deixar de perpetuar boas tradições." Respondeu o sacerdote começando a se dirigir para a base de mármore no meio da clareira, o único indício de onde se localizava anos antes a magnífica estátua de *Glórien* destruída pelos goblinóides.

"Ei! Não vá, ficará muito exposto, é perigoso e você sabe disso."
Alertou a elfa num tom de voz um pouco mais alto do que um murmuro, mas o mais alto que ela se permitia proferir.

"Isso não fará mal a ninguém. Ambos vasculhamos os arredores,
dificilmente deixaríamos de notar a aproximação de alguma ameaça e estamos a uma distancia segura das rotas de patrulha da região. Se não quiser me acompanhar tudo bem, fique aí então." Respondeu ele dando de ombros sem se virar, agindo exatamente como se a provocasse.

Elianitalana não se mexeu imediatamente, estava paralisada pela repentina mudança de comportamento de Kenlann. Ela lembrou das inúmeras vezes onde ele a havia repreendido por atitudes similares, uma a momentos antes, quase nunca o sacerdote agia por impulso como seria comum para idade dele se as coisas fossem diferentes.

Quando ela saiu do torpor ele já havia se aproximado da base de mármore. Não era o local onde ela orou com sua família décadas atrás, mas não havia porque disser isso em voz alta, o que valia era a intenção. A estátua de sua infância ficava em outra clareira ao norte e Kenlann não tinha como saber que eles estavam nas ruínas de um dos pequenos jardins que faziam parte do conjunto que formavam os *Jardins Imperiais*.

Antes que ele começasse sua oração ela já estava ajoelhada ao seu lado. O sacerdote sabia que como a maioria dos sobreviventes Elianitalana já não mais acredita que *Glórien* pudesse ajudá-los agora, ela fazia isso pelo carinho e amizade que compartilhavam entre si, e para ele isso era o suficiente. Ele só esperava que a deusa dos elfos fosse da mesma opinião e ouvisse as preces dela também. Os dois realizaram suas pequenas preces e se levantaram. Kenlann tocou seu símbolo sagrado com os lábios. 

 "Como eu disse, sem problemas, agora vamos antes que seu irmão acorde." Antes que sua companheira pudesse elaborar alguma resposta eles ouviram o barulho de passos, passos bem diferentes de elfos e de qualquer criatura da floresta, passos pesados feitos por botas militares. Quase uma dúzia de hobgoblins se aproximava rapidamente em formação de ataque. Eles sabiam que não resistiriam a tantos em um embate.

Sem que fosse preciso trocar qualquer palavra ou gesto ambos de viraram na direção oposta, buscando a proteção das árvores para despistá-los, e se depararam com um hobgoblins esquio de pelagem acobreada portando duas adagas de punho bloqueando seu caminho e lançando sobre eles um olhar penetrante de satisfação. Elianitalana buscou olhá-lo nos olhos e teve certeza que ele era um psicopata treinado, alguém que poderia matá-los apenas pelo prazer de vê-los sofrer. Sua postura e prontidão indicaram que aquele caminho estava fora de cogitação. Ele havia se aproximado demais sem que nem ela ou Kenlann percebesse, ele era um batedor muito eficiente, mesmo sozinho eles precisariam de minutos para superá-lo em uma batalha.

Agarrando a manga de Kenlann ela tentou alternar o momento de ambos para uma rota perpendicular. Eles estavam quase na metade do caminho em direção a proteção das árvores quando um enorme vulto surgiu obstruindo novamente seu caminho. Era um goblinóide grande demais para ser um hobgoblin; Era um bugbear, intimidante, portava um martelo enorme como se esmagar muitos crânios fosse parte de suas atividades diárias. Seus outros perseguidores estavam logo atrás, o batedor de olhar atemorizante estava praticamente em seus calcanhares. Eles estavam ficando sem rotas de fuga.

Uma flecha disparada por um hobgoblin do batalhão fez Kenlann tropeçar. Ele caiu rolando e rapidamente estava em pé, mas era tarde, eles estavam cercados. Com armas sacadas e de costas um para o outro eles esperavam um ataque iminente.

Com o cerco fechado os dois elfos sentiam o tempo de prolongar da
maneira surreal. Eles buscavam o olhar de cada oponente para intimidá-los, procuravam brechas em sua formação e postura de combate que pudessem ser exploradas. Não havia nada.

Contra goblinóides muitas vezes um olhar intimidante retirava a vantagem numérica, o medo da morte individual normalmente superaria a confiança nos ganhos do trabalho em equipe. Os pequenos goblins estão mais sujeitos a essa tática, mas muitos grandes guerreiros elfos conseguiam fazer o mesmo com os disciplinados hobgoblins. Nenhum dos dois elfos era um grande guerreiro élfico e por isso não esperavam que essa tática funcionasse.

Guerreiros inexperientes não sabem como manter uma boa formação. Mesmo os mais experientes só conseguem manter uma formação sem falhas a custa da confiança em seus companheiros, característica rara entre os goblinóides. Este grupo lutava escudo com escudo, um protegendo o outro. Era sabido que muitos clãs de hobgoblins tinham conseguido atingir este nível habilidade. Opoentes inseguros ou confiantes demais deixam à mostra seus pontos fracos, ou por se preocupar demais com eles ou por subestimar a habilidade do oponente. Os membros do cerco eram definitivamente experientes e expunham cicatrizes suficientes para não cometer o erro de subestimá-los mesmo com a ampla vantagem numérica que possuíam. Não havia um elo fraco na corrente.

Tanto Elianetalana quanto Kenlann chegaram a conclusão que iam precisar de muito mais que sorte para escapar dessa vivos. Dois hobgoblins abriram espaço e um hobgoblin com cabelos compridos e pelagem negra, trajando um peitoral de aço platinado e empunhando uma espada de duas mãos se adiantou pela brecha momentânea. Ele emanava um ar de liderança e extrema segurança
que não deixou dúvidas sobre quem estava no comando.

"Se sobrevivermos a isso me lembre de nunca mais confiar em seu senso de perigo." Murmurou Eliantalana sem conseguir conter o leve sorriso que se formou em seus lábios e fazendo Kenlann explodir um riso que ecoou pela carreira.

XXXXXX

O manto de Tenebra que cobria os céus já tinha se desaparecido, era hora da face de Azgher clamar sua metade do dia. O vento balançava os galhos das árvores, o barulho da cachoeira distante ressoava por toda aquela parte da floresta, os animais noturnos já estavam recolhidos em seus lares e as criaturas diurnas davam início as suas atividades.

Poucas coisas estavam diferentes do alvorecer anterior, uma dessas pequenas mudanças era a caverna que se encontra em uma afloração rochosa no meio da floresta. Diferentemente da manhã anterior a caverna possuía visitantes. Um grupo de elfos da resistência Lamnoriana a utilizava com abrigo temporário. Os anfitriões, uma ursa parda e seu filhote, se sentiam contentes em partilhar seu lar com seus novos amigos que tão gentilmente haviam os presenteados com peixes e favos de mel.

Não se ouvia barulho algum partindo de lá, a caverna contrastava com a luz do alvorecer realçando a escuridão, todos ainda dormiam. Bem, quase todos: a presença dos elfos era uma novidade paro o pequeno urso que levantou logo cedo. Inquieto ele decidiu brincar um pouco, levantou e mordicou a orelha da mãe para acordá-la. Sonolenta a ursa ergueu a cabeça e rosnou mal humorada. Percebendo a falta de interesse da mãe o ursinho saiu procura de outro parceiro de brincadeiras. Ele reencontrou o seu novo amigo que tinha brincado do ele na noite anterior, para fazê-lo dormir, deitado perto dos restos da fogueira que foi acessa no dia anterior.

Phystislen dormia por pura exaustão, era a primeira vez em dias que conseguia repousar por mais de duas horas. Estava tão cansado que não se importava com a coisa pegajosa que estava sendo esfregada em seu rosto, na verdade nem a sentia direito. O elfo, líder da tropa, só esbanjou alguma reação quando alguma coisa vez cócegas em sua orelha. Tentando afastar o que o estava o incomodando com um tapa, Phystislen topou sua mão com algo maior do que esperava.

Mesmo assim o patrulheiro só despertou quando sentiu sua mão ser
abocanhada. Por reflexo ele retraiu seu braço, não houve resistência, mas ele sentiu sua pele rasgar e um gemido de dor escapou de seus lábios. O susto repentino confundiu a mente exausta do elfo, que por instinto buscou a faca que sempre deixava escondida debaixo do travesseiro. Antes de cometer uma besteira pela qual se arrependeria profundamente, seus outros sentidos começaram a funcionar na semi-escuridão da caverna.

Havia algo pesado em suas pernas, seu rosto estava melado, o cheiro de pelos enchia suas narinas e, como se isso não fosse o suficiente, ele ouviu o ganido de excitação do filhote de urso. Enquanto sua visão clareava e ele tentava se levantar o ursinho jogou-se em cima dele tentando continuar a brincadeira.

"Calma pequeno" murmurou o recém desperto elfo "assim vai acabar acordando a todos e aposto que eles, como eu, gostariam de descansar um pouco mais." Phystislen sabia que não possuía a habilidade de se comunicar livremente com criaturas selvagens, mas o pequeno animal pareceu entender o que lhe foi dito recuando um pouco dando espaço para o elfo.

Sua mão possuía um arranhão profundo, mas não estava mais sagrando, ele sabia que o machucado superficial foi causado mais pela sua reação abrupta do que qualquer intenção do pequeno animal. 
 "Você deve ter acabado de açodar, e deve ter gostado muito de mim para ficar tanto tempo tentando me acordar." Disse o patrulheiro enquanto afagava a cabeça de seu novo amigo que respondia empolgadamente. Resignado com o final de seu descanso e a brincar com o filhote ele passou a procurar pelo responsável pelo turno de vigília que deveria ter ouvido a confusão e estava demorando a investigar o ocorrido. Ele ponderou as possibilidades que poderiam o estar impedindo, preocupado o elfo se levantou e foi averiguar o perímetro silenciosamente. Ele sentia que algo ruim tinha acontecido.

Os sacos de dormir de Elianitalana e Kenlann estavam vazios. Quando o pequeno urso ganiu novamente Phiystislen se virou para ele cruzando seu dedo indicador com seus lábios, indicando silêncio. Do lado de fora da caverna não encontrou sinal dos companheiros sumidos ou de qualquer ameaça. Seguido o tempo todo pelo seu pequeno amigo Phystislen passou a procurar por rastros.

Perto da entrada da caverna ele encontrou um fio de linha grossa amarrado em um sino de prata. Elianitalana havia usado a magia que ele a ensinara, um claro indício que ela tinha saído por vontade própria. Isso diminuiu sua inquietação, mas não a extinguiu. Sua irmã estava em uma fase de rebeldia ela poderia ter desobedecido a sua ordem de não se aproximar dos *Jardins Imperiais*. Mas os rastros tinham algumas horas e se Kenlann foi atrás dela eles já poderiam ter voltado.

"Você vai ficar aqui pequeno amigo. Estou com um mal pressentimento, vou acordar meus companheiros e iremos partir em breve. Você não pode ir conosco, o que a mamãe ursa ia pensar de nós? Ela morreria de preocupação."
O ursinho pareceu ter ficado cabisbaixo com a constatação.

Enquanto o filhote rolava de um lado para outro tentando voltar a dormir, Phystislen acordou seus companheiros e em poucos minutos estavam todos prontos para partir. Afagando uma vez mais o filhote o patrulheiro lamentou não poder continuar a brincar o esperto animalzinho.

XXXXXX

"Veja o que encontramos Capitão: dois *elfos* religiosos" a entonação da palavra 'elfos', soava como uma ofensa na grutal língua dos hobgoblins. 
"Uma pena que tenham escolhido o local e a hora errados pra rezar..." completou em tom jocoso um dos soldados que formavam o cerco em volta dos elfos.

"Será que são algum tipo de deuses?" Emendou outro. "Estão cercados e parecem estar rindo disso." 
Os comentários ofensivos e descabidos serviam para aliviar a tensão dos soldados a tanto tempo em campanha e, quem sabe, ludibriar seus oponentes para aumentar as chances de vitória. Um oponente cego pela raiva tende a cometer deslizes fatais.

Antes da queda do poderoso reino élfico nenhum guerreiro daquela raça havia se prestado a aprender a língua de seus inimigos hobgoblins, eram orgulhosos demais para aprender a linguagem de seres que consideravam inferiores. Com a queda do império alguns elfos deixaram parte do seu orgulho de lado e aprenderam a língua goblin na esperança de aumentar usas chances em uma resistência inútil contra a dominação da Aliança Negra.

"O macho carrega o símbolo da prostituta de Ragnar. Vamos matá-lo e usar a fêmea como nossa prostituta." Um coro de aprovações ressoou pelo círiculo. Ou os elfos não entendiam o que os soldados diziam ou eles tinham grande domínio sobre suas reações, eles ainda pareciam estar só observando seus captores.

"Sim, depois dela ter servido a todos nós eu irei matá-la também e aí possuí-la novamente." O comentário vindo de Kalman, o batedor do regimento, encheu de asco Arkon Moriken. Kalman era um dos melhores batedores hobgoblins, mas também fazia parte da suposta punição imposta ao capitão do regimento, membro de um clã rival que deveria tentar mata-lo assim que uma boa oportunidade se apresenta-se.

"Isso vai ser divertido..." comentou Durr 'Esmaga Crânios', outra parte da punição de Arkon. Ele deveria ser um espião da igreja de *Ragnar* vigiando as atividades de capitão. O bugbear era bem mais inteligente do que se fazia parecer e seus poderes de clérigo o tornavam um oponente formidável. Ambos foram conquistados pelo carisma de seu comandante e agora eram homens leias como qualquer outro, mas isso não mudava o fato que ambos também possuíam linhas de pensamento e gostos diferentes de seu líder eleito.

Os comentários tinham aliviado tensão por demais, seus homens estavam começando a relaxar sua guarda. Mantendo uma aparência de impassividade aos comentários Arkon ergueu sua mão exigindo silêncio. Ainda com uma mão segurando a espada e observando atentamente os elfos ele esperou que seus subordinados se recompusessem antes de se dirigir aos invasores.

"Quem são vocês, o que fazem aqui, estão sozinhos?" A pergunta foi feita em um élfico impecável, ele havia aprendido ainda na infância antes da queda do império inimigo, já haviam passado tantos anos que ele nem se lembrava como.

Ele já esperava o silêncio truncado dos elfos, ele sabia que dificilmente toda a situação tivesse quebrado a resolução deles. "Eles não vão falar, Capitão." Apontou um de seus homens. Era um comentário obvio, mas não havia o porquê de repreendê-lo em frente ao inimigo.

"Se vocês querem o jeito difícil..." Arkon estampou um sorriso falso de satisfação nos lábios "Rapazes, quero eles vivos e com menos ferimentos possíveis. Não quedo Durr gastando suas magias." Resmungos de protesto se espalharam pelo grupo. 

"São ordens do comandante! Ele quer membros das resistências vivos. Se tiverem algum problema com isso ficarei feliz em repassar suas reclamações a ele... junto com o nome do reclamante." O silêncio foi imediato, medo estampou os rostos dos soldados. Como qualquer organização goblinóide o respeito e obediência eram quase sempre conquistados pela intimidação e imposição da autoridade.

Os elfos pareceram perceber a mudança de postura de seus captores e tentaram reagir acreditando que era a oportunidade que esperavam. A elfa avançou contra Arkon procurando abalar a moral do banco matando seu líder.

Empunhando suas duas lâminas em forma de crescente ela desferiu um golpe visando a cabeça desprotegida do capitão. Arkon enxergou a finta pelo que era e apenas se abaixou deixando sua espada em posição de bloquear a segunda lâmina. Usando a vantagem de ser maior e portar uma arma mais pesada ele se impulsionou para frente empurrando a elfa em direção as lanças dos soldados que esperavam do outro lado do círculo.

O sacerdote élfico investiu com sua espada no bugbear portando o
símbolo de *Ragnar*, a ponta da arma atravessou a armadura de escamas de penetrou fundo no músculo do ombro. Com uma careta de dor Durr forçou seu ombro e usou uma de suas mãos para evitar que o elfo retraísse sua arma. Usando sua única mão livre ele brandiu seu martelo em direção a cabeça de seu oponente. O golpe foi desajeitado e sem força, a arma era grande demais para ser usado com uma única mão.

Obrigado a desviar do golpe do mesmo jeito, o elfo tentava livrar sua espada do aperto do bugbear quando ouviu uma exclamação de dor de sua companheira. A distração quase custou sua vida. Kalman havia se aproximado sorrateiramente e começou da desferir golpes com suas adagas. Seu olhar atento e armadura de anéis salvaram a vida do sacerdote, que teve de abandonar sua espada e recuar em direção a parede de escudos formada pelos outros hobgoblins enquanto começava a proferir o encantamento de uma magia.

Arkon observou de canto de olho o ataque de Kalman, ele percebeu que se a luta não acabasse logo seu batedor não conseguiria conter seu ímpeto assassino. Atrás dele Durr olhava o elfo em um olhar de ódio enquanto extraia a espada de seu ombro e começava a trabalhar em uma magia ele mesmo.

Sua oponente continuava com olhar fixo nele, tinha sido ferida por
estocadas de lança e sangrava dos braços, pernas e flancos. Quando ela avançou em sua direção ele dardejou seu corpo pela esquerda, bloqueando um dos ajis com sua espada e se colocando entre Kalman e o elfo. No mesmo movimento ele atingiu o macho com a parte de trás de sua mão, arremessando-o  contra a parede de escudos que após absorver o impacto inicial se transformou em um corredor onde o clérigo foi rapidamente espancado por várias investidas dos escudos.

Os outros hobgoblins observavam a batalha com interesse redobrado, não haviam muitas chances de apreciar a habilidade de um dos maiores espadachins da Aliança Negra. Sozinha e ferida a elfa investiu contra Arkon com golpes bem planejados e sincronizados tentavam criar uma brecha na defesa do capitão, mas ele parecia antever cada movimento da elfa.

Cada vez que ela o atacava ele se colocava em uma posição fora do
alcance de suas lâminas e de seu campo visual, o que resultava em um golpe muito menos eficiente, forçando-a a atacar com mais intensidade e velocidade em uma tentativa de compensação. Os ataques frenéticos criavam pontos cegos na visão da elfa, os mesmos pontos explorado por Arkon para se posicionar para o próximo ataque. A elfa logo compreendeu que ele estava muito acima de suas capacidades e começou a ser tomada pelo desespero.

Usando o peso de sua arma, sua força física superior e muitas vezes a própria vantagem da proteção de sua armadura em meros segundos o líder hobgoblin esgotou as energias da elfa que não havia conseguido fazer muito mais do que alguns cortes na pele desprotegida do capitão. Ele esperou o momento certo, quando o desespero da elfa atingiu seu ápice, e com um soco no queixo o guerreiro a nocauteou. Mata-la teria sido fácil...

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Post 450

Esse é o post numero 450 do blog.


Surgido em 2009 o Cavaleiro do martelo, é um blog de RPG apoiado na licença aberta de d20. Apoiamos e seguimos os cenários de Forgotten Realms (Reinos esquecidos) e Tormenta RPG (do qual somos um blog Parceiro no ano de 2019 e esperamos continuar assim por muitos anos). O Knight of Hammer surgiu como lugar de divulgação de idéias de um antigo membro da lista Tormenta, eu, Fernando Brauner. 

Nesses 10 anos, uma década, o blog  tem se mantido, as vezes com mais outras vezes com menos publicações. Apresentamos aqui novos lugares, traduções de material da  extinta Revista Dragon Magazine, e adaptações de material criado por outros membros da lista tormenta. 

Tivemos alguns colaboradores como Tenebra, Raul holz, George Brandeburger,  entre outros  alguns que permaneceram  e outros que   estiveram apenas por um tempo e depois partiram. Em busca de novos sistemas e horizontes. Resgatamos material de blogs que surgiram e nos acompanharam e que depois  foram extintos por uma razão ou outra. Blogs como Caveira Cinza, Área de tormenta entre outros sempre dando os créditos a seus respectivos criadores.

Nestes 10 anos, publicamos contos e materiais de membros da lista tormenta que hoje são funcionários da  jambo, ou que criaram seus próprios livros  como o Bernardo Stamato.
Foram 10 anos de  muita criação, dos 27 anos em que jogo RPG (comecei em 1992, saiba mais sobre eu no RPG clicando aqui) e espero que eu crie uma nova publicação dessa  no numero 900. Também quero adiantar que isso não é uma despedida, é apenas uma comemoração de uma jornada incrível (eu nunca pensei que teria tantas pessoas seguindo lendo e curtindo e nunca pensei que chegaria ao post numero 450) e quero adiantar que no dia 29/10/2019 teremos uma grande surpresa pra quem é fã. 

Eu sei que vocês esperavam algo maior, um monstro, um vilão uma ruína ou um local. Mas estou dando pra vocês um pouco da minha alma. 
Espero que sigam comigo nessa jornada. 


Jayme Fernando Araújo Moreira  Júnior - Vulgo Fernando Brauner
Professor de arte  da prefeitura municipal de São Lourenço do Sul
Jogador de RPG, Gamer, Especialista em Mídias na Educação,  cinéfilo, dono de cães,  fã de rock e  fã do material  de rpg publicado 
pela editora jambô.

Para visitar o site da jambô, Clique aqui 

Abril

Jambô Editora

Abril na Jambô Editora:
20 anos de Tormenta!

Tormenta completa 20 anos!

Neste ano, Tormenta, o maior e mais jogado cenário de RPG nacional, completa 20 anos de publicação. E as comemorações começam agora, no mês de abril, quando a Jambô Editora e os autores de Tormenta lançam a campanha Tormenta 20.
Tormenta 20 é a nova edição do RPG mais amado do Brasil, com regras modernizadas e mais dinâmicas, descrição atualizada do cenário e uma nova abordagem para criação de personagens, aventuras e campanhas. Um livro básico ideal para jogadores iniciantes e ao mesmo tempo uma grande celebração para os fãs de Tormenta! Tormenta 20 renova o jogo e se mantém compatível com todo o material lançado anteriormente sob o selo Tormenta RPG.
A campanha será lançada na plataforma de financiamento coletivo Catarse no dia 10 de maio e vai oferecer ao leitor e fã a oportunidade de participar desta edição estrondosa na história do RPG. Os colaboradores poderão dar suas opiniões sobre o novo sistema, terão seu nome para sempre no livro Tormenta 20 e receberão recompensas e promoções exclusivas durante a campanha.
A Jambô Editora não vai apenas fazer um livro comemorativo. Com a ajuda dos leitores e fãs que tornaram Tormenta o cenário nacional mais jogado da história do RPG no Brasil, vai lançar o mais impressionante livro básico do RPG nacional. Tudo com os fãs, pelos fãs, para os fãs.
Mais detalhes da nova edição, mudanças no cenário, opções de jogo e novidades em geral da campanha poderão ser encontrados futuramente na página www.tormenta20.com.br (que por enquanto permite o cadastro para receber as novidades do lançamento),  além do site da Jambô Editora. A revista Dragão Brasil trará prévias exclusivas das novas mecânicas de regras, classes, raças e muito mais.
Com Tormenta 20, o ano de 2019 ficará na história do RPG nacional como “O Ano de Tormenta”!

Rat Queens vol. 3 está chegando!

O terceiro encadernado de Rat Queens, que contém as edições 11 a 15 do título, além da edição especial dedicada a Braga (a orc guerreira que é quase uma Rata Rainha honorária), está prestes a chegar nas mãos do público brasileiro, fechando o primeiro grande arco de histórias das personagens mais marrentas dos quadrinhos de fantasia.
Rat Queens volume 3 chegará em abril, quando começará a ser enviado primeiro para os compradores que adquiriram a edição na pré-venda, antes mesmo de ser enviada para as lojas e livrarias.
Com este volume, a Jambô Editora completa a “version 1” (versão 1) da série, com revelações do passado que vão alterar para sempre o relacionamento das Ratas Rainhas e talvez até mesmo se o grupo vai ou não continuar existindo (sim, é claro que é culpa da Hannah).
Rat Queens volume 3 tem 160 páginas coloridas e capa dura, com roteiro de Kurtis J. Wiebe, criador da série, e arte de Tess Fowler Gutierrez e extras exclusivos.
Pré-venda de Sem Trégua 4
Também chega da gráfica em abril Sem Trégua 4, suplemento para Reinos de Ferro RPG que contém vários artigos para o cenário e o sistema de Reinos de Ferro, com novas carreiras, armas, itens comuns e mágicos, além de regras para compra e manutenção de gigantes-a-vapor. Além disso, o suplemento traz mais informações sobre a cidade de Wexmere, a Convergência Cyriss e a Ocupação Orgoth e uma aventura pronta.
O suplemento tem 80 páginas coloridas ricamente ilustradas e é imperdível para qualquer fã de Reinos de Ferro.
Mais informações sobre a pré-venda: https://jamboeditora.com.br/produto/sem-tregua-vol-4/
 
A Lenda de Drizzt - O Legado
O próximo lançamento da linha de romances oficiais de D&D é mais um volume de A Lenda de Drizzt. Agora é a vez do volume 7, O Legado, inédito do Brasil e que se passa depois da Trilogia do Vento Gélido.
Os tempos estão mais tranquilos para Drizzt e seus companheiros, depois de suas aventuras na terra a Sul, onde salvaram o amigo Regis do terrível assassino Artemis Entreri e terminaram com Regis assumindo o comando da guilda de ladrões de Porto Calim. Com as intrigas deixadas para trás, os heróis do Salão de Mitral estão de volta ao lar ancestral de Bruenor e se preparando para o casamento de Wulfgar e Cattibrie quando o passado de Drizzt volta para assombrar o ranger drow e seus amigos.
Uma aventura fantástica que abre as portas para uma nova série com o elfo negro mais amado de Dungeons & Dragons e que vai mudar para sempre a vida dos companheiros do Salão de Mitral.
A Lenda de Drizzt vol. 7 – O Legado será lançado ainda em abril e está nas fases finais de produção.
O Porto do Perigo
Para a linha de livros-jogos Fighting Fantasy, programamos um lançamento inédito, um título que Ian Livingstone estava escrevendo quando visitou o Brasil em 2016! Estamos falando de O Porto do Perigo, livro-jogo que revisita alguns dos elementos (e personagens) favoritos dos fãs, e que também é uma nova aventura cheia da ação... E perigos!
Você, o herói, tem uma missão que o levará até o temível Porto Areia Negra e o que começou como uma simples caçada ao tesouro acabou se tornando uma aventura muito mais sombria, com a ameaça da retorno de um dos vilões mais perigosos de toda Allansia e de toda linha de livros-jogos Fighting Fantasy: ninguém menos que Zanbar Bone!
O Porto do Perigo tem como previsão de lançamento o mês de abril e está em fase adiantada de produção.