quinta-feira, 23 de julho de 2015

Sob os Olhos da Deusa

O vento soprava pela muralha, vindo diretamente da densa mata dezenas de metros adiante. O ar estava carregado de expectativa, trazendo também o cheiro de terra e o barulho contínuo da mata dos sussurros. De pé no alto do muro, ele observava. Berforam Lâmina de Luz fixava olhos sérios e aperolados adiante, avaliando toda a distância entre o posto de vigília recém-construído e a beleza das árvores. Algumas delas se misturavam aos tijolos que formavam a proteção para dar ainda mais firmeza à barreira. Era um muro tão espesso e firme quanto o próprio homem que estava sobre ele.

O líder élfico tinha títulos pomposos e longos como era normal da raça. Ele não era apenas Berforam, era Lord Berforam, era Berforam Dannórien da casa Zafirah, era Berforam da Oitava Geração Dannórienn a pisar em Arton, era Primo do Rei Imortal Khinlanas e líder supremo dos Espadas de Glórienn. Tinha alma de guerreiro, sangue de nobres e do povo comum, olhos de líder e fé de sacerdote. Ele não era menos do que um homem de armas e mais do que um sacerdote, segundo suas próprias palavras. Homem orgulhoso do sangue que corria em suas veias, rezava todos os dias agradecendo pela supremacia élfica e por poder proteger seu povo dos bárbaros globinóides.

Berforam carregava símbolos de status como era o caso da espada Enanquessir, abençoada por Glórienn. Era uma arma que ele retirara do antigo líder dos guerreiros sagrados da deusa, passando a liderança para a casa que carregava a Orquídea do Dragão no escudo. A arma que cortava tão rápido quanto o sol e tinha golpes tão quentes que evaporavam o sangue inimigo não garantiu a proteção do seu ex-dono perante à habilidade do Dannórien. Agora ela estava à esquerda da cintura do elfo de olhos atentos. Não carregava nenhum arranhão e nunca perdera o fio nos trezentos anos desde que fora forjada e abençoada. Tinha um cabo de ouro e prata com a face de Glórienn modelada perfeitamente.

A perfeição era uma das obsessões dos elfos. Berforam era vítima dessa mania que o fazia treinar para defender o povo. Também era abençoado com uma beleza incomum. O corpo bem constituído, de músculos definidos era coberto por uma pele de poucas cicatrizes e cor tão suave quanto o sol de Lamnor permitia. Os olhos eram tão aperolados e brilhantes quanto os fios de cabelos que se quedavam sobre os ombros cobertos pela armadura. Às vezes fazia tranças para não se incomodar com os cabelos longos durante as batalhas. A proteção do corpo era dourada e negra com os símbolos da deusa no peito, arco e flecha prateados estampados para o orgulho daquele guerreiro fiel. A capa que o protegia dos ventos era branca como os espíritos da noite.

A mente do elfo vagava junto com os olhos, alcançando aonde a visão chegasse para avaliar o perigo que estava para chegar. Berforam reconhecia os sinais de um mal iminente. As nuvens negras que começavam a formar não eram apenas de chuva. O sopro do ar trazia mensagens de morte. O vento levantava a poeira na área livre e criava fantasmas que eram os arautos da aproximação inimiga. Ele sentia. O sangue de guerreiro o mostrava. Não eram instintos, porque elfos estavam acima disso. Era a alma evoluída, presente de Glórienn, que o mostrava.

Começou a emitir ordens para uma preparação bélica. Os homens deviam se posicionar e manter atenção contínua. A troca de turnos era importante e deveria ser feita discretamente para evitar que os inimigos se aproveitassem do momento crítico. As palavras do elfo chegavam a outras orelhas pontudas como ordens divinas e ele agradecia pela obediência. Segurou um pingente de prata que sempre carregava onde fosse. Ergueu a cabeça para os céus enquanto colocava uma mão sobre o peito. Foi com humildade que pediu forças a deusa.

“Eu me submeto à Senhora Nossa Mãe e peço a guarda da minha alma para que eu possa continuar a proteger nosso povo. Agradeço à Deusa que está nos Céus e no meu sangue”, orou, parando quando sentiu o perfume da mulher que amava.

A esposa escolhera a época errada para visitá-lo. Seria essa a razão de estar tão preocupado? Celiene era sua fraqueza e sua força, era uma paixão desvairada que o submetia há setenta anos. Era o maior presente que Glórienn já lhe dera. Ela e os três filhos que já haviam saído de seu ventre. Felizmente os dois mais novos não estavam ali. Apenas o mais velho, que seguia os passos do pai.

A elfa o abraçou por trás com aquele toque de quem merece toda a confiança. Berforam se virou devagar para aninhá-la nos braços. Era bom ter certeza de que ela estava viva. Sentia-se mais forte quando a tocava. Aqueles olhos dourados o inspiravam a lutar para a proteção do povo e a nunca duvidar do quão perfeito fora o trabalho de Glórienn ao criar os elfos. Ah, amor assim era raro. Sentimento que queimava a cada segundo para brilhar em seus olhos e aquecer sua pele desde quando pensava nela até nos momentos de amor nos lençóis.

Ele não queria perde-la e sentia que sozinho nunca seria capaz de defendê-la, por mais orgulhoso que fosse de suas capacidades. Morreria por ela, porém não dispensava a habilidade dos outros Espadas de Glórienn. Ficava mais tranqüilo com a elite guerreira por perto. Berforam deixaria mil flechas vararem seu peito para proteger Celine, porém não poderia admitir que enquanto morria alguém pudesse tocá-la.

- Algum problema? - Celiene perguntou, sentindo a preocupação do marido. Ela o conhecia e não precisava nem de sentir seu cheiro para saber que algo afligia a alma do guerreiro.

- A tempestade - o guerreiro respondeu, desviando o olhar e apontando para o horizonte. As nuvens negras se movimentavam no céu tomando formas monstruosas. O forte vento que soprava poderia ser hálito maligno daquela criatura elemental.

- Acho que não escolhi uma boa semana para vê-lo - a elfa disse, sabendo que completava os pensamentos do marido. Berforam se preocupava com a vida de todos os elfos. Mas naquele posto de vigilância moravam apenas guerreiros e eles sabiam se defender. Celiene não.

Recentemente os glóbinóides haviam aparecido com mais intensidade. Justamente por isso, os Espadas de Glórienn estavam ali. Elas deveriam impedir a entrada de seus inimigos no território élfico. Khinlanas achou desnecessário, afirmando que os estúpidos goblinóides nunca passariam da Mata dos Sussurros. Um grupo de guerreiros liderados por um sacerdote de Glórienn seria suficiente. Berforam não concordou e o rei não ousou questioná-lo. O nobre Zarfirah submetia-se à realeza, porém, quando o orgulho e a fé borbulhavam no sangue, nem mesmo a figura de Khinlanas o enfrentava sozinho ou diretamente.

O guerreiro sagrado estava certo. Desde que passaram a controlar o posto, cerca de duzentos hobgoblins foram mortos. Simples guerreiros não resistiriam a esses ataques constantes. Apenas a experiência de seu líder aliada ao poder divino das Espadas de Glórienn permitiu a sobrevivência de todos e a proteção da fronteira.

- Acha que haverá algum ataque hoje? - a elfa perguntou, na esperança de poder passar uma noite em paz com seu marido.

- Tenho quase certeza, meu amor. Quero que parta amanhã de manhã e fique com nossos filhos. Não quero que se arrisque aqui. Mandarei três guerreiros a escoltarem junto com uma mensagem para manter todo elfo longe da região. As patrulhas de rastreadores também devem ser dobradas - Beforam disse, já pensando nos planos. Abraçou a esposa com força, como se seu único medo no mundo fosse perdê-la. Os dois se beijaram longamente e ficaram abraçados por um tempo, observando a tempestade e conversando sobre seu significado. Acabaram concordando que Glórienn os protegeria de qualquer mal.

****

Era uma noite de presságios ruins. Os inimigos estavam ocultos pelos elementos agitados e caóticos que se erguiam e se misturavam no ar. Khessarel, o mago e melhor amigo de Berforam, balançava a cabeça xingando a si próprio pela incapacidade de desfazer aquela barreira elemental que incomodava tanto o trabalho das sentinelas. Coçava o queixo enquanto os olhos perdiam-se em preocupação e procura por uma solução. Entretanto, ainda que os sentimentos oprimissem a alma, nem uma única ruga de preocupação surgia no rosto. Era uma figura controlada e segura de si que não se rendia à observação externa. Tentava imaginar se poderes clericais ajudariam, porém Lissinim, a jovem sacerdotisa local, não fora de muita valia.

A magia não fora útil até o momento, portanto os Espadas de Glórienn decidiram que a espada e a fé deveriam bastar. Eram o que sempre lhes serviram melhor e nunca lhes faltaram. Rel´Keram, filho mais velho de Berforam e Celiene, estava liderando o posto naquela noite. Ele se aproximou de Khessarel com a mão no punho da espada.

- O que você acha? - o jovem guerreiro perguntou ao velho e experiente mago.

- Seu pai está sempre certo, meu jovem. Aprendi a não duvidar de sua sabedoria durante esses anos - Khessarel respondeu. Ele estava com os braços cruzados e não retirava os olhos da escuridão do horizonte. Naquela noite, a lua não aparecera e o vento gerava ruídos horríveis, parecidos com gritos de almas desesperadas. Geralmente, as noites na Mata dos Sussurros eram calmas e o sopro do vento gerava apenas ruídos fracos como sussurros. O mago estava preocupado com a mudança.

- O antigo líder do posto disse que já aconteceram outras tempestades por aqui e sempre que o vento sopra mais forte aparecem esses gritos - Rel´Keram disse, tentando acalmar a si mesmo e ao mago. Khessarel quase riu, mas não caçoaria do filho de Berforam. Elfos não esqueciam de ninguém que feriam seu orgulho. Além do mais, Rel´Keram ainda teria muito tempo para aprender a avaliar os sinais do mal.
Assim que o guerreiro terminou a frase, Lissinim se aproximou.

A pequena sacerdotisa apareceu nervosa e apreensiva. Fora alistada para acompanhar aquele grupo de Espadas de Glórienn há poucas semanas apenas porque o clérigo habitual que os seguia não pudera comparecer. A pequena e jovem elfa era a única disponível no momento.

Berforam dizia que aquela seria uma boa experiência para a garota, mas ela duvidava disso principalmente porque o que os guerreiros chamavam de boa experiência ela preferia não ver. Além do status por estar ao lado das Espadas de Glórienn, só havia mais uma coisa que a elfa gostava ali. Ela se apaixonara por Rel´Keram e sempre procurava um motivo para estar ao seu lado. E, naquela noite, além da paixão, ela queria sentir segurança.

- Lissinim, tudo bem? - o elfo guerreiro perguntou, após fazer o gesto habitual para cumprimentar um sacerdote. Mostrou a palma da mão e a apontou na direção do coração de Lissinim. Ela respondeu com o cumprimento certo para um guerreiro sagrado, bateu a mão direita aberta na palma esquerda.

Khessarel resmungou e balançou a cabeça. Não entendia o motivo daqueles rituais. Os dois se conheciam e se gostavam, dormiam abraçados durante a noite e, no entanto, sempre se cumprimentavam da mesma maneira. A sacerdotisa entendeu errado o resmungo e começou a tomar posição para se apresentar ao mago. Ele simplesmente abanou a mão a dispensando.

- Os soldados parecem um pouco nervosos, mas eu já conversei com eles. Os Espadas de Glórienn estão preparados. Sua fé é inabalável e sei que chegariam até o fim do mundo por nossa deusa - Lissinim disse. Khessarel achou o discurso desnecessário, porém a formalidade élfica praticamente o exigia. Agora era hora de alguém dar uma resposta pomposa.

- Nossas armas sempre estão prontas para se erguer em nome da deusa - Rel´Keram disse, ignorando mais um resmungo de Khessarel. O mago odiava aquelas conversas melodramáticas. Por que os dois não começavam a se beijar de uma vez e se calavam?

- Essa noite será longa, mas teremos a proteção da... - Lissinim tentou continuar, mas foi interrompida por Khessarel.

- Cuidado! - o mago gritou, já erguendo um escudo mágico. A barreira brilhante citilou quando sete flechas a atingiram. A madeira das setas partiu-se e espalhou-se pelo chão, o barulho acompanhado da espada de Rel´Keram sendo desembainhada. - Hobgoblins. Demorou, mas eu consegui enxergá-los. Agora sim! Estava guardando essa magia para acabar com a escuridão próxima. Ela não durará muito tempo. Lissinim, chame Berforam. Rel´Keram, prepare-se para a primeira das piores batalhas de sua vida.

Uma correria se iniciou nas muradas do posto de vigilância. Enquanto isso, Khessarel procurou pelos componentes materiais de sua magia nos bolsos de seu manto. Retirou uma pétala de uma orquídea negra, uma das plantas mais raras de Arton e esfregou nas mãos. Enquanto começava a recitar as palavras mágicas, a planta começou a pegar fogo. Pequenas faíscas começaram a surgir nos dedos do mago, expandindo-se aos poucos até desaparecerem instantaneamente. O sumiço foi seguido por um clarão súbito que iluminou uma centena de metros á frente.

Para a surpresa de todos, mais de cinqüenta hobglobins estavam escondidos na mata próxima. Começaram a correr na direção do posto de vigilância como criaturas desgraçadas e violentas que eram. Carregavam a sujeira e o fedor da existência de Ragnar naquela marcha furiosa. Flechas, vindas de ambos os lados, tomavam o ar iluminado para aterrissar em armaduras rígidas ou em carne macia. Khessarel começou a preparar bolas de fogo que clareariam ainda mais a noite. Em pouco tempo, o odor de carne queimada já se espalhava enquanto a tropa de goblinóides avançava e deixava corpos de irmãos carbonizados para trás.

*****
No início, Berforam imaginou que as muralhas os protegeriam. Bastaria atirar magias e flechas de lá de cima para acabar com todos os hobgoblins. Ele estava errado. A dor do erro o perseguiria pois os golpes que seguiriam não atingiram sua pele, mas sua alma. O pesadelo começou quando a primeira pedra voou assobiando pelo ar infectado da noite. Os olhos de Berforam mal acreditavam quando a imensa rocha desceu para bater contra as muralhas. Os tijolos e as árvores se partiram como vasos de cerâmica e gravetos jogados no chão.

O elfo não se abalou por muito tempo. As ordens saltaram depressa para que os guerreiros saíssem do posto de vigilância. Era preciso alcançar os inimigos no campo de batalha e impedir o avanço. Os Espadas de Glórienn entrariam diretamente na batalha, enquanto Khessarel lideraria os guerreiros que ficariam na muralha, dando apoio com arcos e na proteção da retaguarda.

Lissinim observava assustada. Uma pedra caíra a metros dela e os estilhaços gerados a derrubaram. Não houve ninguém para ajudar a elfa a levantar-se. Os guerreiros precisavam passar apressados para alcançarem os inimigos. Quase tremendo de medo, só mudou de atitude quando, de pé, viu Berforam avançar para a luta com a aura radiando coragem e orgulho élficos. Lissinim começou a rezar para a vitória dos filhos da Deusa. Fez uma prece especial para Rel´Keram.

O jovem guerreiro lutava ao lado do pai, impressionado com a cena de batalha proporcionada pelos Espadas de Glórienn. Berforam movia-se entre os monstros como um gato, desviando-se de ataques e levantando Enanquessir para derrubar inimigos com um golpe só. Rel´Keram quase duvidava que a espada realmente atingisse os goblinóides. Os golpes eram rápidos demais e o sangue que espirrava das feridas logo desaparecia no ar, evaporando devido ao calor da espada sagrada.

A luta estava equilibrada. Eram três goblinóides para cada elfo. Berforam esperava mais. Aquela batalha mal estava o cansando. Os Espadas de Glórienn avançavam sobre os goblinóides e desfaziam a parca organização dos monstros com entradas rápidas e golpes inclementes. Berforam sentia o cheiro de sangue e agradecia à deusa por não ter aquele mesmo líquido podre e fedorento correndo em suas veias. Era o agradecimento de todo elfo nas orações, ter nascido elfo, ser um Filho da Deusa. A existência daquelas criaturas era a prova do quanto eles eram melhores e do que deviam à Mãe Élfica por ser o que eram.

A batalha terminou antes do esperado. Os goblinóides que ainda estavam no meio das matas recuaram, levando os estranhos instrumentos que utilizaram para arremessar suas pedras. Berforam impediu qualquer tentativa de perseguição. Com certeza seriam mortos se entrassem na mata. E havia algo de estranho naquele ataque. Aquilo parecera apenas um teste.

O guerreiro percebeu que fora um teste bem sucedido assim que olhou para trás e viu os muros do posto de vigilância destruídos. Ele interrompeu seu agradecimento a Glórienn assim que se lembrou de Celiene. Berforam começou a correr de volta, dando ordens para que levassem qualquer ferido para os cuidados de Lissinim.

*****
Khessarel balançou a cabeça lamentando a desgraça à frente. Ele bem que preferia estar triste pela destruição dos muros ou pelos novos instrumentos de guerra dos goblinóides, mas não, estava diante de algo pior. Em meio aos tijolos quebrados e escombros do antigo posto estava Celiene. Khessarel se abaixou para verificar o estado da elfa. O sangue escorria pela boca e pelo nariz, um braço estava roxo e torcido enquanto uma das pernas sumia debaixo das pedras. O peito dela se movia com dificuldade. Khessarel deu ordens para chamarem Lissinim e Berforam. Teve medo de tocar a esposa do amigo e causar mais danos.

Foram precisos dois guerreiros para impedir que o líder das Espadas de Glórienn corresse até sua esposa. Todo guerreiro sagrado tem o dom de curar outro elfo com o simples toque de sua mão. No entanto, aquilo não bastaria no momento. Sua esposa precisava de cuidados mais urgentes que apenas  a sacerdotisa poderia providenciar.

Lissinim rezou por bastante tempo e derramou água com pétalas de rosas nos ferimentos de Celiene. Infelizmente, mesmo com toda sua fé, a jovem não conseguiu curar completamente a esposa do general. O que conseguira apenas havia permitido aos elfos carregarem Celiene para um local mais adequado, onde pudesse esperar por sua morte com um pouco de conforto. Ela foi levada para um quarto pequeno, mas aconchegante, cheio de desenhos e decorações belas. A cama era macia e confortável, coberta por lençóis prateados, sempre colocados para os elfos moribundos descansarem.

Berforam sentou-se ao lado da esposa e não saiu dali o dia inteiro. Não derramou uma lágrima, pois acreditava que Glórienn ainda poderia salvá-la. E se fosse vontade da deusa ter sua esposa, assim seria. Ele apenas parou suas preces para encarregar Khessarel e Rel´Keram da liderança do posto. Foi um ato de lamentação, pois ele sabia que não deveria abandonar o comando. Já enterrara tantos amigos e subordinados antes, por que agora se sentia tão fraco e desolado?

- Não se preocupe, meu daelih, meu querido. De um jeito ou de outro, estarei a seu lado. Eu me unirei a Glórienn e sempre que você rezar para nossa deusa, estará conversando comigo - Celiene disse, em um dos seus poucos momentos de consciência.

- Poupe suas forças, meu amor. A deusa não te chama ainda - Berforam disse, mas ele mentia para si mesmo. O elfo via o sangue da esposa escorrendo pelo lençol e sentia seu coração se apertando. Cada gota vermelha era como um pouco de areia caindo na ampulheta da vida.

- Não minta para si mesmo, meu daelih. Eu sinto o chamado dela e não temo. Despeça-se de nossos filhos em meu nome. Não precisa dar nenhum recado além de pedir para rezarem para a Deusa. Aí nós conversaremos - sussurrou e abriu os braços, esperando um abraço. Berforam se aproximou cautelosamente e a envolveu com todo seu amor, mas já cheio de saudades.

Quando os dois se soltaram, o calor do corpo de Celiene já se esvaía. O coração não se movia no peito com o ardor de todas as vezes em que via o marido. O guerreiro ficou parado por alguns instantes apenas a observando. Havia um dragão em seu peito que devorava suas forças e ele ainda pensava em como resistir àquela fera nascida da morte da esposa. Então ele pediu que a Deusa a trouxesse de volta. Rezou durante quase meia hora, com medo de chamar qualquer pessoa que confirmasse a morte da elfa. Quando finalmente aceitou o fato, agradeceu a Glórienn pelo fato de os dois terem conversado antes da partida de Celiene.

Berforam aproximou seu rosto dos lábios da esposa para um último beijo. Para sua surpresa foi correspondido. O guerreiro ergueu-se assustado e olhou para a esposa. Ela o fitava com os olhos tranqüilos. Berforam já ia abraçá-la quando notou que havia algo de errado naquele olhar. Aquela não era Celiene. Ele não sentia mais a compreensão, o amor e a simplicidade. O brilho daqueles olhos tinha amor e compreensão, mas também uma sabedoria quase infinita.

- Você não é Celiene - o elfo disse, já sabendo quem habitava o corpo de sua esposa. E não precisou olhar para saber que os ferimentos haviam desaparecido.

- Trate-me como sua esposa. Transforme sua fé em puro amor, Berforam. É só isso que eu quero - ela disse, com uma voz suave e materna. Percebendo que não deveria falar daquele modo, alterou seu tom, deixando-o sedutor e apaixonado.

Berforam não sabia o que dizer. Ele a olhou e soube que Celiene estava ali, de algum modo. Todos os elfos se unem a Glórienn depois da morte.

*****
Khinlanas ordenou que Berforam voltasse para casa assim que soube do acidente com Celiene. O líder das Espadas de Glórienn reportou pessoalmente ao rei tudo o que acontecera e dera todas as suas opiniões sobre as decisões a serem tomadas.   Ele passou horas conversando com o conselho, tentando convencê-los de que algo estava sendo tramado entre os goblinóides. E também afirmou que aquela tempestade não fora comum. De nada adiantou. Eles apenas responderam que analisariam o relatório e pensariam no assunto.

Berforam saiu contrariado da reunião. O guerreiro queria que Lenórien tomasse alguma atitude e pensou em pressionar o rei, porém os acontecimentos recentes o deixaram abalado e ao mesmo tempo seguro de que uma atitude imediata não seria necessária. Nervoso, pensava que os elfos precisavam eliminar os malditos goblinóides de uma vez só. Resolveu se sentar em um dos jardins do castelo para tentar se acalmar. Não queria encontrar sua esposa e filhos naquele estado. Acomodou-se diante de uma fileira de Orquídeas do Dragão e percebeu que, sem querer, havia chegado ao jardim da Casa Zafirah. Toda casa nobre tinha o direito de cuidar de um dos belos canteiros em volta do castelo real. Era um símbolo de status e uma grande competição para os nobres. De fato, os jardins eram lindos, obras primas criadas por jardineiros, magos e sacerdotes especializados na arte de aproveitar a máxima beleza das plantas.

Observou as grandes torres espalhas pela cidade. Todas eram claras e refletiam a luz solar para as inúmeras árvores que cresciam no meio das construções. Crianças brincavam despreocupadas pertos das fontes naturais e velhos conversavam nos bancos construídos nas gigantescas raízes.

Um elfo de longos cabelos, vestindo um simples manto marrom e portando um cajado de madeira, se sentou a seu lado. A testa estava enrugada e cheia de preocupação. Berforam o conhecia de outras épocas e outras batalhas. Aquele era Razlen, sacerdote de Allihannatantala, a deusa da natureza. Ele ajudara os Espadas de Glórienn em várias missões que envolviam procurar por inimigos nas matas do reino.

- Acredito que tem a mesma preocupação que eu, guerreiro da fé - Razlen disse, com uma voz suave, que lembrava mais o canto de um pássaro.

- Sim. Nossos inimigos estão tramando algo. Devemos marchar logo para destruí-los - Berforam disse, batendo o punho fechado na palma da mão esquerda.

- Não resolveremos essa situação assim - Razlen respondeu, como se estivesse cansado de ouvir aquela frase.

- Como não? Temos Glórienn do nosso lado - o guerreiro disse, segurando o símbolo da deusa.

Eles também têm seus deuses, Razlen pensou. Só que achou melhor não falar nada. Não adiantaria. A fé de Berforam estava mesclada com a arrogância natural da raça élfica. O druida apenas ficou calado e olhou para as árvores, como que pedindo ajuda a sua deusa. Porém, o próprio Razlen desconhecia o motivo do abalamento psicológico de Berforam. Não sabia o tumulto que devorava o coração do elfo, com aquela mistura de fé, amor, orgulho, desejo e devoção. Era preciso ser mais do que um guerreiro, mais do que mortal para lidar com tantos sentimentos de uma vez só.

- Pelo menos você sabe que Lenórien deve agir rapidamente para evitar um desastre - Razlen disse. Então o druida se levantou tentando controlar sua própria impaciência. 

Berforam não o impediu de ir embora. Os dois nem se despediram. O guerreiro ainda ficou um tempo parado, pensando na própria vida, tentando esquecer os problemas. Então se levantou e tomou o rumo de casa.

*****
Berforam ficou em Remnora durante um mês juntamente com sua família. Apenas Rel´Keram não estava lá. Ele e Khessarel ficaram encarregados de comandar o posto de vigilância que fora reconstruído. Antes era a primeira defesa da cidade de Lizessir, agora defenderia toda a nação, sendo uma das principais bases do exército.

Aquele só não foi o mês mais feliz da vida de Berforam porque às vezes ele não conseguia enxergar Celiene apenas como sua esposa. Ela era mais do que elfa, era a essência élfica encarnada diante dos olhos do guerreiro. Os momentos na cama eram uma mistura de orgulho e sacrilégio para o guerreiro, sentimentos que desapareciam durante o prazer e voltavam quando sentia o calor dela em seus braços e nada tinha além do silêncio e as luzes apagadas como companhia. Não havia mais aquela mulher que era igual a ele para sentir seu desabafo e compartilhar fraquezas. Agora era outra... uma estranha que, ao mesmo tempo, era mais do que familiar. Era seu sangue e sua companhia na vida e na morte.

Às vezes agia como uma deusa, exigindo atenção constante e tratava os filhos da mesma maneira. Para a antiga Celiene, cada um deles era único e merecia um tratamento diferente. O tom de voz da mãe mudava de acordo com o filho com quem falava. Aquela elfa que agora segurava Talim, de apenas três anos de idade, via as crianças apenas como uma professora que cuida de seus alunos no jardim de infância. Estava sempre preocupada e queria agradar, tratando todos muito bem. Mas faltava algo, talvez a mortalidade ou o fato de ter concebido.

Talvez o segundo problema pudesse ser resolvido já que Celiene estava grávida. E seu sorriso mudara desde então. Estava sempre mais feliz e ansiosa, como se fosse seu maior desejo. Berforam estava orgulhoso por ser pai mais uma vez. Ainda sim, sua mente às vezes se confundia. Quando se deitava com aquela elfa, não sabia se realmente podia a tratar como sua esposa ou se devia reverenciá-la.

Algumas vezes, Celiene ficava irritada ao ser tratada como uma simples pessoa. Então mudava de idéia de repente, pedindo para que Berforam voltasse a ser simplesmente seu marido. E ninguém entedia aquilo, pois Berforam nunca dissera a verdade sobre o que acontecera naquela dia.

A família passava a maior parte do tempo unida. Berforam treinava sua filha do meio, Nenianna, sendo observada atentamente por Tali e Celiene. De vez em quando a mãe aparecia para corrigir a postura da filha ou algum erro na defesa. Nenianna estranhava, pois nunca vira Celiene lutando. Ela preferia apenas cuidar de seu jardim e ensinar os outros a escrever. Tinha modos diferentes da jovem elfa que sonhava em ser uma arqueira dos Espada de Glórienn.

Berforam se sentia aliviado por nunca ter sido corrigido pela esposa. Mas isso não era preciso. O estilo de luta do guerreiro era quase perfeito. Só melhoraria se ele fosse imortal. O que enchia o coração do guerreiro de saudades era o cuidado que sua esposa tinha com sua aparência, sempre tentando mantê-lo arrumado para as reuniões e corrigindo qualquer erro no comportamento. Os dois se divertiam muito quando conversavam sobre isso.
*****
A paz de Berforam terminou assim que Khessarel avistou um exército de goblinóides se aproximando do posto de vigilância, agora chamado de Primeira Barreira da Eternidade. O guerreiro montou em seu cavalo e correu para tomar sua posição, deixando a família em Lizessir. Ao mesmo tempo, ele mandou as Espadas de Glórienn se espalharem por todas as cidades do reino e montou um posto especial de proteção em Remnora. O guerreiro sabia que aquele não era o exército completo dos goblinóides. Havia mais daqueles seres vis vindo de todas as direções.

A Primeira Barreira da Eternidade deveria atrasar aquele exército para que Lizessir pudesse se proteger. A batalha seria difícil, mas os guerreiros estavam preparados.

Lissinim estava mais agitada do que nunca. Ela correu até Rel´Keram com o coração batendo forte no peito. Seu amado estava conversando com Khessarel, o que a fez hesitar antes de se aproximar. A jovem elfa não gostava muito do mago, principalmente porque ele não era um homem de fé. Tinha mais crença em sua magia do que na Deusa. E sempre havia aqueles resmungos malditos que ela nunca entendia. 

- Rel´Keram, prepare-se para a primeira das piores batalhas de sua vida - o mago disse. Esse era outro costume que irritava a sacerdotisa. Antes que de qualquer luta, Khessarel insistia em dizer essa frase.

- Nós venceremos com a ajuda de Glórienn - Lissinim comentou, tentando provocar.

- Lissinim, prepare-se para a primeira das piores batalhas de sua vida – Khessarel resmungou. O sorriso de vitória no rosto de Lissinim desapareceu imediatamente. Ela nunca conseguia irritar o mago. E seus resmungos nem sempre significavam irritação.

Uma discussão estava para se iniciar quando se deu o sinal para todos tomarem seus postos. A batalha estava para se iniciar. Arcos e flechas foram preparados. Espadas foram sacadas. Armaduras foram ajeitadas no corpo. As últimas preces foram feitas.

Lissinim acabara de abençoar os guerreiros quando ouviu os barulhos dos tambores do exército goblinóide. Eram assustadores. Seu coração parou por um momento quando olhou para o horizonte. Ela nunca vira tantos hobgoblins e bugbears juntos. Sua marcha levantava uma enorme nuvem de poeira que quase tomava a forma da alma de Ragnar. Por pouco a jovem não duvidou de sua fé e da vitória. Ela correu para Rel´Keram e o abraçou pela última vez. Os dois se beijaram sem dar atenção para o resmungo de Khessarel.

Berforam esperou o beijo acabar para chamar o filho. Os dois desceram imediatamente e ficaram esperando pelo momento certo para os portões serem abertos e a batalha começar. Dessa vez, eles não esperariam as gigantescas pedras quebrarem os muros. Enquanto as flechas matavam os inimigos da tropa de frente, os elfos sairiam de sua base para enfrentar os inimigos cara a cara.

Nenhum dos guerreiros da Espada de Glórienn duvidou da vitória naquele dia. Eles só não sabiam qual seria o preço dessa vitória. Enquanto rezavam para a Deusa, pediam proteção para suas famílias e longa vida para o reino.

Khessarel se aproximou de Berforam pouco antes da luta começar.

- Desculpe-me questioná-lo, mas somos amigos há muito tempo. Você não acha que deveríamos recuar e enfrentar esse exército juntamente com os soldados que estão em Lizessir? - o mago perguntou.

- Não, precisamos atrasá-los. Essa foi a ordem de Khinlanas. E você não precisa se preocupar. Glórienn está protegendo nossas famílias. Não vamos falhar aqui. E se perdermos, a Deusa ainda estará lá. Ela não deixará ninguém chegar a Remnora - Berforam falou, com os olhos cheios de fé e orgulho.

Khessarel não disse mais nada. O mago julgou que o guerreiro soubesse de algo a mais. Talvez tivesse recebido um aviso da deusa ou um grande grupo de sacerdotes e Espadas de Glórienn estivesse se movendo para proteger Lizessir. A cidade seria a última barreira antes da capital do reino élfico.

*****
A luta estava desequilibrada. Quase oito goblinóides para cada elfo. Não fosse pelas estratégias de luta de Berforam e pelo poder das Espadas de Glórienn a derrota ocorreria em pouco tempo. Mas eles resistiram com todas as suas forças. Sua fé era inabalável.

Berforam ergueu Enanquessir para matar mais um hobgoblin e voltou-se para os elfos que o acompanhavam para gritar mais uma ordem. Quando foram cercados no meio do campo de batalha, eram um grupo de oito, agora só restavam Rel´Keram e mais dois Espadas de Glórienn. O guerreiro olhou para todos os lados e viu que o mesmo estava acontecendo com outros grupos.

- Precisamos nos reunir novamente - ele gritou e mandou uma mensagem mágica para todos os Espadas de Glórienn. Sempre havia pelo menos um desses guerreiros sagrados liderando um destacamento. - Eles conseguiram nos separar. Perderam muitos soldados para isso, mas ainda há mais deles. Não recuem. Glórienn está conosco! Lutem com fé!

A luz de sua espada brilhava cada vez mais forte, cegando os hobgoblins que se aproximavam e criando um escudo contra qualquer flecha ou pedra que fosse arremessada. Mais uma vez a lâmina cortou o pescoço de um oponente. Berforam a recuou depressa para aparar o golpe de outro inimigo.

Rel´Keram estava orgulhoso do pai. Ele nunca deixava de se impressionar ao vê-lo lutar. Seu estilo de luta era impressionante. Praticamente perfeito. Pena que o seu não era. O jovem guerreiro esforçou o máximo que pôde, mas Glórienn não estava disposta a ajudá-lo naquele dia. Pelo menos foi o que pensou quando sentiu a lâmina enferrujada de um bugbear penetrar em seu peito. Não teve tempo de se despedir de seu pai.

Berforam mal pôde se conter quando viu o filho cair. Ele entrou em um estado de fúria incontrolável. Enanquessir aparou a espada do bugbear e a partiu ao meio. O monstro nem teve tempo de se surpreender. Os ataques que o mataram em seguida foram tão rápidos que ele nem teve tempo de um grito de dor. Enanquessir cortou o peito duas vezes e depois decepou a cabeça do adversário. Foi um momento raro, pois o general élfico raramente desperdiçava golpes. Não precisava de mais do que um para acabar com um goblinóide.

A batalha terminou no fim do dia. Berforam não se lembrava direito do que acontecera. Sabia que lutara muito e com todas as suas forças. Seus membros ainda doíam devido ao esforço. Ele acordou coberto de sangue com Enanquessir caída a seu lado. Corpos de elfos e goblinóides se espalhavam por toda parte.

Demorou um pouco para o guerreiro recuperar completamente a consciência. E ele só voltou à realidade quando sentiu alguém o levantando. Berforam levou a mão à cintura para retirar sua adaga e atacar, ainda que o braço doesse, cobrando o preço do esforço da batalha.

- Sou eu Khessarel - o mago gritou. Por pouco não foi morto pelo amigo.

- O que aconteceu? - Berforam perguntou, balançando a cabeça e começando uma prece.

- Perdemos. Fomos forçados a recuar. Eu o julguei morto, meu amigo - Khessarel disse. O mago vira Berforam enquanto usava suas magias do alto da murada. Nunca vira o guerreiro lutando tanto. Não duvidaria se dissessem que cem hobgoblins morreram por sua espada naquele dia.

- Sobreviventes? - o guerreiro perguntou, interrompendo momentaneamente sua prece.

- Poucos. Estamos nos preparando para rumar para Remnora ou para fugir. Soubemos que algumas caravanas estão partindo de Lenórien. Elas podem precisar de ajuda - Khessarel contou. Ele já julgara a guerra perdida. Se as Espadas de Glórienn, lutando ao lado de Berforam com o máximo de seu poder, não conseguiram parar os goblinóides, então nada mais deteria aquele exército.

- Ainda não perdemos, meu amigo. Glórienn está do nosso lado. Vamos para Lizessir. Ela estará nos esperando lá para nos abençoar em mais uma batalha - Berforam disse, tentando se manter de pé por conta própria.

A maioria dos sobreviventes da Primeira Barreira da Eternidade pensava do mesmo modo que Khessarel, mas eles decidiram seguir Berforam pelo respeito que tinham por seu líder. O mago também foi. Durante o caminho, não havia nenhum sacerdote para ajudá-los. Todos haviam morrido, inclusive Lissinim.

*****
A cidade estava queimada e completamente destruída. Os goblinóides não pararam ali nem para saquear. Fariam isso depois, assim que acabassem com Remnora. Era na capital que estavam escondidos os verdadeiros tesouros.

Em Lizessir só restavam alguns goblins e hobgoblins que queriam atormentar os sobreviventes. Berforam acabou com todos esses monstros com a ajuda do que restara de sua companhia. O elfo lutou quase sem ânimo. Apenas uma leve esperança de encontrar sua família movia sua espada. Quem estava ao seu lado nem imaginava que aquele fosse Berforam Lâmina de Luz. Os olhos aperolados quase não tinham brilho no meio daquele rosto sujo de sangue.

Quando todos os monstros foram mortos, os elfos reuniram os sobreviventes e começaram a cremar os mortos, buscando identificá-los. Berforam achou os corpos de seus dois filhos. Perdera toda sua família durante a batalha. No entanto, Celiene não estava ali. Ninguém soube explicar o que acontecera com a esposa do guerreiro.

Pela primeira vez em muitos anos, Berforam chorou. Ele simplesmente se ajoelhou segurando os corpos frios de seus filhos e deixou as lágrimas escorrerem pelo rosto. No início ele se culpou por não ter recuado. Deveria ter ouvido Khessarel. Poderia ter salvado muitas vidas.

Quando se lembrou que faltava um corpo em seus braços, o elfo se revoltou. Onde estaria Celiene? Ela deveria ter protegido sua família. Não! Ela não deveria ter protegido apenas Talim e Nenniane? Toda Lizessir deveria estar viva e festejando em homenagem à Deusa. No entanto, Celiene desaparecera. Teria fugido? Estaria preparando um novo plano?

- Não se preocupe. Glórienn é sábia e acolhedora. Ela receberá as almas de seus filhos e eles a ajudaram a defender Remnora - um velho sacerdote disse, tocando no ombro do guerreiro.

Berforam fitou-o com os olhos cheios de raiva e fúria, sem nem um pouco da beleza de antes. O sacerdote recuou com medo de ser atacado. Percebendo a hesitação do elfo, o guerreiro levantou-se e levou os corpos dos filhos para serem queimados. Pediu que alguém fizesse as preces, pois ele não conseguia. E não foi o único a recusar-se a fazê-lo. Naquele dia, vários elfos morreram sem terem uma prece feita por seus parentes. Cada cadáver era uma lança de humilhação atravessando o coração orgulhoso de um filho de Glórienn.

Todos os sobreviventes de Lizessir fugiram de Lenórien escoltados por Berforam. Durante o caminho, eles se encontraram com várias caravanas e o guerreiro não se cansava de perguntar se haviam visto alguém com a descrição de sua esposa. Cada vez que uma cabeça balançava ou ouvia um não, um pouco de sua fé se esvaía.

O que restava da fé de Berforam se foi quando ele viu o sofrimento nos olhos de seu povo. Ele vivera para amar, para ter fé e para proteger os elfos. Perdera o amor, começava a perder a fé e não podia admitir que ainda perderia seu povo. Olhando para as próprias mãos, viu que nelas estava a resposta para a sobrevivência de seus pares. Os elfos precisavam de proteção e não podiam contar com ninguém. Apenas suas espadas poderiam defendê-los, nada mais. E aí começou a queda do mais poderoso dos guerreiros elfos. Foi quando surgiu o primeiro elfo negro.



Autor:Antônio Augusto Fonseca Júnior “Shaftiel”


A Fé Trespassada


A pedra era do tamanho de uma carroça e voou pelos ares com a facilidade de um pássaro. Sua sombra passou pelas cabeças dos elfos e os fez olhar estupefatos ou agacharem-se amedrontados como se um dragão sobrevoasse o pequeno forte. Quando parou de subir e iniciou a descida, completou o arco sobre um dos celeiros. A construção explodiu, lançando pedaços de pedra, madeira e palha por toda parte. A poeira subiu sufocando os elfos que gritavam desesperados e encolhiam-se de medo. Quando o ar clareou novamente, os corpos espalhados no chão fizeram o choro superar até mesmo o sufocamento.

                Elfos ajoelhavam-se diante de seus parentes mortos. Soldados corriam para ajudar os civis. Eram liderados pelos magníficos Espadas de Glórienn, os únicos filhos da Deusa Mãe que ainda não demonstravam o temor de sucumbir à barbárie dos goblinóides.

Eleandil observava os sobreviventes rezarem. Passou a mão no rosto sujo de fuligem e machucou-se ainda mais, prendendo a manopla em um corte. Praguejou e olhou para o lado para dar uma ordem a um dos soldados. Encontrou-o caído com um estilhaço de pedra enfiado na cabeça. O elmo estava destruído e o sangue se espalhara pela terra juntamente com alguns pedaços de ossos e um dos olhos.
Um Espada de Glórienn se aproximou de Eleandil ofegante. Limpou o rosto com a mão e olhou para a devastação entre os muros da pequena fortaleza.

- Eles estão preparando mais um tiro senhor. Não resistiremos por muito tempo, erfel – disse.

O título de erfel ressoou pela mente do elfo por alguns segundos. Não se acostumara ainda, mas desde que o líder do pequeno destacamento fora morto, não restara ninguém com graduação maior do que Eleandil.

- Precisamos sair daqui. Já contaram os mortos desse ataque? – perguntou.

- Quatro, erfel.

Eleandil começou a caminhar. Amaldiçoava a teimosia de sua raça. A capital imperial caíra há pouco mais de um mês e a maioria dos elfos recusava-se a acreditar. Aqueles que aceitavam a notícia, ainda preferiam morrer em suas terras a entregá-las à barbárie. Desde a queda, os goblinóides marchavam pelo reino batendo em tambores novos feitos com pele de elfos. Apenas os territórios ao norte ainda tinha sobreviventes que resistiam, mas Eleandil sabia que não durariam muito.

Passou por uma criança caída. Chorava sobre o corpo da mãe sem se importar com o sangue que escorria da própria cabeça. O guerreiro a seu lado abaixou-se e tocou a cabeça do menino. Rezou para a deusa pedindo a cura. Eleandil continuou caminhando.

- Reúna os Espadas de Glórienn. Quero todos aqui.

Olhou de volta quando não recebeu resposta. Havia um clérigo ao lado do Espada de Glórienn, ajudando a curar a criança. O soldado levantou-se e alcançou o erfel.

- O que aconteceu?- perguntou Eleandil quando o subordinado parou diante dele calado, apenas esperando ordens.

- Esqueci-me que havia esgotado minhas magias de cura hoje – disse o elfo.

O antigo erfel não precisava pedir respostas. Elas surgiam sem ordens ou perguntas. Olhou para o Espada de Glórienn e torceu para que ele não estivesse mentindo.

- Cite o terceiro lema – ordenou.

- A verdade está nas palavras desse servo da Deusa Mãe assim como graça divina abençoa meu sangue através da minha fé.

- Acredite nele. Não posso perder nenhum guerreiro.

O elfo baixou a cabeça, com certeza lembrando-se da caminhada até ali. Dois dos Espadas de Glórienn haviam cometido o crime maior da elite guerreira dos elfos. Um deles ajoelhou-se na terra e pediu para morrer, pois não tinha mais esperança na guerra. O comandante lhe cortou a cabeça ali mesmo. O segundo chorou diante dos corpos daqueles que haviam falecido durante a caminhada e gritou que Ragnar cegara Glórienn para as atrocidades cometidas contra seus filhos. O comandante lhe entregou a adaga da purificação ali mesmo e ele a enfiou no coração para retirar a blasfêmia do seu sangue e a vergonha perante sua família.

Esse último fora irmão de Eleandil, o único que restara para se envergonhar pelo pecado do Espada de Glórienn caído. Naquela mesma noite, o guerreiro foi até seu comandante e o viu morrer quando uma pedra atravessou a janela e destruiu uma das torres. O novo erfel só sobreviveu por causa dos milagres de cura dos Espadas de Glórienn e dos clérigos.

- Aproveite para dizer que nenhum Espada deve usar suas curas nos civis. Guarde-as para os guerreiros. Passe a ordem para que os clérigos sempre reservem uma cura para os soldados. Os civis devem receber apenas os cuidados mundanos. Vamos reservar a benção da deusa para aqueles que podem salvar as vidas do nosso povo.

O soldado concordou e foi dar as ordens, enquanto Eleandil subia as escadas do muro. Parou ao lado de dois arqueiros e olhou para o acampamento globinóide. Estavam preparando mais uma pedra naquelas gigantescas catapultas. O elfo não podia acreditar naquelas duas máquinas. Antes se espantava com a sujeira e a barbárie das raças inferiores. Agora mais de cem inimigos acampados não eram nada diante das máquinas de guerra que traziam. Via corpos espalhados, sinais obscenos e ouvia gritos de vitória e as festas das criaturas, porém nada disso o afetava. Somente o ranger das cordas das máquinas alcançava seu coração.

- Tragam o corpo do meu irmão. Certifique-se que ainda está vestido com a armadura dos Espadas de Glórienn.

Um dos arqueiros desceu a murada. Eleandil olhou para a pequena fortaleza. Estava quase nas fronteiras do reino e ela deveria servir apenas como ponto de apoio para os fazendeiros. Agora era o último refúgio naquela região. Olhava para as montanhas adiante e tinha certeza de que já havia refugiados passando por elas. Que os humanos agora colaborassem com os filhos da Senhora da Graça Real. E que ele conseguisse retirar aqueles oitenta civis e quarenta guerreiros dali.

- Filhos de Ragnar! – gritou Eleandil. Seus cabelos dourados esvoaçaram quando o vento fedorento soprou pelo acampamento inimigo e tocou seu rosto. Manteve os olhos cinzentos sobre as criaturas que pararam para ouvi-lo. – Vocês querem nosso sangue? Terão o nosso sangue. Deixem-nos nos preparar para nos entregarmos a vocês. Seremos seus escravos. Como prova disso, daremos o corpo de um dos nossos comandantes a vocês.

O cadáver do  irmão chegou. Foi sem pedir desculpas ou dar atenção aos olhares impressionados dos elfos a seu redor que ele ordenou que o corpo fosse jogado para os bárbaros. As criaturas esperaram, temendo uma armadilha, mas todos os arcos foram baixados quando Eleandil estendeu o braço e fez o sinal.

- Festejem perante esse corpo enquanto fazemos nossas orações – disse o erfel.
*****
- O erfel perdeu a fé? – perguntou um arqueiro, assustado. Tinha um olhar suplicante de quem se entregaria se recebesse uma resposta afirmativa.

- Não.

- O senhor mentiu?

- Não existe mentira à sombra da barbárie.

Desceu as escadas e parou diante dos Espadas de Glórienn. Havia dezesseis deles, todos com arcos, lanças e espadas limpos e abençoados. Seus cavalos foram trazidos. Eleandil montou e olhou para seus guerreiros.

- Qual o segundo lema?

- Minha morte é doce perante a eterna vida dos meus irmãos. Que eles vivam para perpetuarem a fé por quem amo e prezo acima de tudo. Que eles vivam para que eu seja lembrado como filho da maior das graças entre tudo o que é considerado divino.
Eleandil colocou o elmo.

- Preparem-se! Eles estão festejando e bebendo agora. Os portões serão abertos e eu quero uma carga cerrada rumo às catapultas. Dois grupos se separaram para dar a volta e causar distração. Os arqueiros começarão os tiros pouco depois.

As ordens eram simples. Assim os clérigos apareceram e os abençoaram, pedindo ótimos golpes, boa proteção e uma boa morte para quem não sobrevivesse. Esperaram até a costumeira baderna dos globinóides começar. Quando os portões se abriram, os cascos dos cavalos bateram na terra, levantaram poeira e os elfos dispararam na direção dos inimigos.

A guarda da frente portava lanças naquele momento. Foi como um triângulo que eles passaram enfiando as armas dos corações dos inimigos. Aqueles que sobreviviam aos primeiros caíam com as gargantas cortadas pelos outros. Logo atrás, as flechas eliminavam os inimigos na lateral, voando como anjos da morte e reduzindo os goblinóides a cadáveres afogando-se em poças de sangue.

O primeiro Espada de Glórienn caiu ao lado de Eleandil. Um hobgoblin gigantesco acertou-o com um martelo de guerra, arrebentando o peito do elfo e jogando-o contra o cavalo de trás. O estalo da caixa torácica se quebrando foi ouvido acima dos bater dos cascos dos cavalos. O sangue que encheu a boca do elfo sufocou o grito de dor.

O corpo se embaralhou nas pernas do animal do companheiro de trás. A criatura relinchou assustada enquanto seus ossos se quebravam e a cabeça do Espada de Glórienn era esmagada por um de seus cascos. Foi um com salto espetacular que o cavaleiro se livrou da queda e caiu com a lâmina elfa enfiada no peito do hobgoblin. Os milagres de guerra da Deusa permitiram que ele matasse três inimigos antes de chamar pelo cavalo do companheiro e montar de novo.

Os elfos das laterais abriam caminho e atiçavam a fúria dos bárbaros, atraindo sua atenção. Matavam a esmo, procurando apenas aumentar o sangue que manchava a terra. Eram quatro de cada lado e três desses elfos tombaram após quatorze mortes quando seus milagres de guerra finalmente se esgotaram.

Eleandil sentia as baixas no coração, podendo contar cada morte através da magia que o ligava aos subordinados.

- Por Glórienn – gritou o elfo a seu lado.

- Pela vida eterna dos Filhos da Graça! – gritou Eleandil.

O elfo que perdera o cavalo e montara há pouco os alcançou. Eles já estavam diante das catapultas. Eleandil arremessou a lança, atravessando a cabeça de um oponente. Sacou a espada rapidamente, enquanto dava a volta com três outros cavaleiros, cortando e gritando.
 Outros quatro circularam pelo outro lado. Os três restantes continuaram rumo à catapulta. Guardaram os arcos, desprenderam as lanças dos cavalos e atravessaram a multidão de goblinóides com toda a carga.  Caíram um a um na balbúrdia da batalha, chamando em vão por Glórienn. Quebrados por martelos, perfurados por flechas negras ou lanças toscas, tornaram-se corpos profanados por dúvidas e anseios.

O último desses elfos morria quando os grupos circulantes se juntaram no lado oposto e penetraram na defesa da catapulta. Destruíram os inimigos silenciosamente. Eleandial girou o cavalo, afastando os globinóides enquanto chamava pela espada da deusa. A lâmina do elfo brilhava arrancando sangue inimigo sem se manchar. Estava limpa quando parou de matar; tão limpa que poderia ser usada como um espelho. O erfel pressionou o caminho. Viu um dos companheiros tombar com o rosto assustado.

- Depressa! – gritou, assistindo a aproximação do último elfo sobrevivente que participara da distração.

O cavalo de Eleandil foi atingido, empinando para cair sobre um goblin. Eleandil se desvencilhou do animal e levantou-se cortando qualquer inimigo que encontrasse. Quando deu por si, estava ao lado da catapulta já destruída e com a lâmina coberta por sangue.

- Falta uma! – gritou desesperado, vendo quantos de seus homens já estavam mortos. Seis deles ainda estavam montados, todos com as lâminas avermelhadas.

- Abra espaço! – ordenou para um dos guerreiros mais graduados.

O elfo levantou a espada e girou o corpo, chamando por Glórienn. Penetrou na massa de globinóides como um furacão, com a lâmina circulando e matando. O sangue voava enquanto os outros elfos o acompanhavam, eliminando os inimigos agonizantes. Pararam de andar de repente, quando o guerreiro da vanguarda foi engolfado pela maré inimiga. Pedaços do elfo voaram sobre os companheiros que precisaram recuar de volta para a catapulta.

Eleandil olhou surpreso para os amigos ao redor, depois para a espada.

- Ela está suja – disse para si mesmo.

- O que faremos, erfel? – perguntou um guerreiro.

Eleandil não sabia. Sua única resposta seria morrer por Glórienn, mas quando tentava completar em sua mente as palavras do primeiro lema, a gritaria dos inimigos o impedia de raciocinar. Precisava apenas matar e sobreviver.
*****
Os braços dos elfos começavam a se cansar. As armaduras haviam duplicado de peso e o calor da batalha eliminava o que restava de suas forças. Eleandil enfiou a espada em um bugbear, jogando-o para cima dos inimigos que o cercavam e aumentando a área do círculo de proteção dos elfos.

- Não tenho mais flechas, erfel! – gritou um dos homens montados no meio do círculo.

- Chame por elas!

Ele chamou. Clamou pelas setas sagradas da deusa e levou a mão à aljava vazia. Flechas prateadas deveria aparecer em sua mão, mas seus dedos voltaram tão vazios quanto seu coração assustado. O medo nos olhos do arqueiro sagrado se espalhou pelos guerreiros como doença da alma que corrompia sua fé.

Eleandil procurou por luz em seu coração, mas a que o encontrou veio de fora, quando um relâmpago atravessou os globinóides deixando corpos queimados ou em convulsão enquanto o caminho dos elfos era aberto. Três guerreiros vestindo capas negras surgiram montados, matando com a mesma graça dos Espadas de Glórienn. Deram montaria a quem estava a pé e rumaram para os portões. Um quarto cavaleiro se juntou a eles e foi só quanto estavam dentro da fortaleza que o erfel notou os elfos que haviam o salvado. Eram guerreiros sisudos de cabelos e olhos negros, vestidos com armaduras cobertas por sangue. Algumas pareciam modificações dos armamentos dos Espadas de Glórienn.

- Que a deusa os abençoe por terem salvo servos fiéis dela – disse Eleandil.

Nenhum deles respondeu. Pareceram incomodados pelas palavras de agradecimentos. Um deles, um elfo mais velho cujos olhos negros tinham a sombra de pesadas decisões, deu um passo a frente. Era o único que não se vestia com roupas de guerreiro. O manto escuro e o bastão tornavam óbvia sua posição como mago.

- Vi sua atitude e considerei louvá-lo, erfel Eleandil – disse o arcano.

- Qual seu nome? – perguntou o elfo.

- Kessarel.

- Como sabe meu nome?

- Berforam disse-me que estaria aqui juntamente com o erfel Serran. Pude constatar pela sua posição que ele já está morto. Pode me confirmar a notícia?

- Sim.

- Nossa missão aqui acabou então.

Eleandil olhou estupefato para Kessarel. Atrás dele, os elfos cochicharam e alguns xingaram. Os Espadas de Glórienn exigiram silêncio.

- Não nos ajudarão a escapar?

Kessarel olhou para os elfos à frente.

- Vocês não querem escapar. Vocês querem ficar. Não posso ajudá-los a ficar, a não ser que peçam que eu passe uma adaga em suas gargantas e os enterre aqui.

Eleandil deu um passo a frente, cerrando o punho e levando-o ao rosto. Encostou a mão na boca para conter as palavras iradas.

- Kessarel, resistir aqui é provar que nosso povo ainda tem esperança.

- Não se vive por esperança.

- Mas não podemos roubar os sobreviventes dessa esperança.

- Não estou roubando nada de ninguém, mas quem me acompanha vive por fatos, seja pela aceitação dos passados e presentes ou pela construção dos novos.

- E você manda em alguma coisa? – perguntou um clérigo atrás de Eleandil.

- Não. Nosso líder é Berforam aqueles que vocês conhecem como o eriand dos Nitfahglorienn, comandante supremo dos Espadas de Glórienn. Ou melhor, era. Estava aqui para passar o posto para Serran. Era o comandante mais próximo que eu pretendia encontrar.

Os pensamentos de Eleandil pararam por um momento. Berforam fora de seu posto? Aquela notícia caiu sobre ele como uma avalanche, cada pedra atingindo sua alma de uma vez. A primeira foi um aviso de algo terrível. Se Serran estava morto, então ele receberia o cargo. Só na segunda o elfo entendeu que para receber um cargo desses Berforam deveria estar morto. Só se deixa de ser um Nitfahglorienn morrendo, seja pela própria espada ou pela dos inimigos.

- Berforam deixou a posição abençoada de Nitfahglorienn?

- Sim.

As mãos de todos os Espadas de Glórienn foram imediatamente às lâminas. Olharam para os elfos atrás de Kessariel.

- Vocês também são guerreiros sagrados?

Um deles, uma elfa com uma cicatriz no rosto, respondeu.

- Éramos.

- Não se diz “fui” na mesma frase em que se pronuncia “eu” e “Espada de Glórienn”.

- Agora se diz – disse a elfa.

- As coisas mudam, Eleandil.

As armas saíram das bainhas. Os clérigos prepararam os milagres de guerra que ainda tinham.

- Vocês ainda podem ter a honra de usarem suas adagas contra seus peitos.

Kessarel continuou falando como se as armas ensangüentadas não lhe dissessem respeito.

- Agora a elite que caçava desertores foi destruída. Um dos poucos que restava era Serran, um dos guardiões da fé.

- Você os matou e veio para passar o cargo a Serran?

- Só vim com a segunda intenção. Matei poucos deles. Foi Berforam quem assassinou a maioria dos caçadores da fé.

                Eleandil parou para pensar. Era óbvio. Se Berforam deixou a fé, uma mensagem fora passada para a alma de todos os caçadores. Eles deveriam eleger um novo líder ou matar aquele que abandonou a benção. Mas quem entre os elfos conseguira vencer Berforam em combate direto?

                - Sinto, mas vocês quatro morrerão hoje.

                - Não morreremos. Já disse que passaria a adaga nas gargantas de todos vocês e ainda o faria, começando pelos clérigos. O que não farei será enterrar seus corpos. Todos os seguidores de Glórienn apodrecerão.

                O susto nos rostos dos elfos foi maior do que o que viram em todos aqueles dias de guerra, quando os grupos de resistência eram eliminados continuamente e a vida no império se tornara puro terror. Flechas e espadas apontaram para as figuras de negro. Quando a primeira foi disparada, desviou-se por um círculo de vento que a fez voar por cima do muro. As outras encontraram o mesmo resultado.

                Os soldados com espadas pararam o ataque quando Eleandil ergueu a mão e depois apontou a fina linha de fogo que circulava o quarteto.

                - Vocês não escaparão daqui – disse o erfel.

                - Eu usaria essa frase para vocês, mas odeio essas frases de efeito. Dizer o óbvio me cansa. Eleandil, você é o novo eriand. Cuide bem de sua posição.

                - Diga a Berforam que eu sobreviverei e o caçarei!

                - Ele não esperaria menos de você. Não espera menos de ninguém que tenha treinado. Só que também pede para que nenhum de vocês espere clemência por parte dele.

                - Como ele pode ter abandonado a deusa que lhe deu filhos e o protegeu por tantas batalhas? Ele negará isso ago....

                Kessarel balançou a cabeça e levantou a mão para interromper o novo eriand.

                - Ele também pede para poupá-lo dessa pieguice toda de falar sobre as glórias e bênçãos do passado. Quero dizer... Ele não pede isso, mas eu ouvi tanto disso nos últimos dias que estou incluindo esse pedido. Melhor vocês saberem que as coisas mudam e pessoas inteligentes sabem quando precisam se contradizer.

                Os Espadas de Glórienn ergueram seus arcos. Apontaram flechas de ponta prateada para Kessarel e seus guerreiros. Bastava a ordem de Eleandil para que disparassem. Kessarel sorriu e depois quase gargalhou.

                - Desculpe o sorriso de vilão poderoso cheio de segredos. É um dos meus prediletos. Pretende realmente deixar que seus companheiros atirem, eriand?

                - Sua magia não é capaz de deter nossos milagres de guerra. Você sabe do que a flecha de um Espada de Glórienn é capaz – disse Eleandil.

                Kessarel fitou-o diretamente nos olhos.

                - Eu posso lhe garantir que essas flechas não me atingiriam. E também lhe garanto que o dano delas será maior em suas almas do que em seus corpos se elas se voltarem contra vocês.

                Os guerreiros sagrados olharam para Eleandil procurando resposta. O elfo, o único sem arco, pensou naquelas palavras. Olhou para a espada ensangüentada e lembrou-se das mortes dos companheiros de guerra. Nenhuma delas deveria ter ocorrido. Os milagres deveriam salvá-los. As dúvidas que lavaram a força de sua alma durante a batalha logo voltaram.

                - Não atirem – ordenou.

                Esperava que Kessarel sorrisse, mas ele olhou seriamente para Eleandil. O novo eriand então compreendeu a profundidade daquele teste.

                - Os elfos se ajudarão e apoiarão nossa mãe, não importa o que aconteça – disse.

                A verdade era que ele não sabia ao certo o que estava acontecendo, mas as mortes dos colegas, tombando quando os milagres deveriam mantê-los vivos lhe diziam que a Deusa Mãe não estava os alcançando como antes. Falha de fé ou falha divina? Deuses falham?

                - Estamos do lado da nossa Mãe.

                - Mãe... De fato... – disse Kessarel.

                - Nós a ajudaremos a reerguer o império.

                Agora o elfo de cabelos negros sorriu.

                - Vou embora, Eleandil, mas deixe-me dizer-lhe uma coisa. Não se ajuda um deus, mesmo que você chame essa divindade de mãe ou de pai. Só existem três coisas que você pode fazer por um ser divino – disse, levantando a mão e começando a mostrar os dedos um a um. - Você morre por um deus. Você mata por um deus. Você ora por um deus. – Cerrou o punho. – Você não ajuda um deus. Olhe para esse muro. Pense no que você faz por ele? Conserta, dá vida ao interior, enfeita, mas não fica diante dele quando as pedras dos goblinóides são arremessadas.

                Kessarel andou até perto dos outros três elfos de negro, enquanto tantos indivíduos atrás de Eleandil tentavam entender. Um clérigo mais próximo chorou. Outro se ajoelhou e misturou suas lágrimas à terra.

                - Quando a noite chegar, os portões se abrirão. Escolham o que pretendem e lembrem-se que não haverá volta nessa escolha.

                O quarteto desapareceu, transformando-se em sombras e desvanecendo sob a luz do sol.

                Eleandil ajudou um dos clérigos a se levantar. O outro ainda molhava a terra com as lágrimas. Sujava o rosto com barro e perguntava ao solo e ao sangue derramado nele onde estava a verdade sobre tudo o que acreditara.
*****
Os soldados estavam todos preparados diante dos portões. Os escudos foram levantados e as lanças afiadas. Eleandil mediu o peso da arma e olhou para os homens. Chamou os Espadas de Glórienn restantes para permanecerem na vanguarda. Naquele dia, o estilo de guerra élfico seria abolido. Seriam uma parede de escudos e não a graça pura das espadas fatiando os bárbaros na dança conjunta dos filhos eternos.

                Ouviram os tambores dos inimigos batendo forte. O barulho atormentava as almas mais fracas, mas enchia Eleandil de resolução. Quando os portões se abriram, não por magia ou por força, mas sim porque os elfos queriam escapar, a escuridão da noite entrou com o fedor do acampamento bárbaro. Eleandil viu as estrelas do norte e soube que era o tempo de rumar para lá onde a podridão humana reinava.

                Um grupo de elfos tentou fugir à frente. Eles correram na direção dos goblinóides. Eram vinte. Nove deles hesitaram e naquela mera parada, flechas e lanças os perfuraram. Os outros passaram livres pelos portões, sumindo na escuridão. Eleandil suspirou e gritou.

                - Qual o primeiro lema?

                - Minha eternidade se resume a amar aquela que me agraciou com um único motivo nobre para morrer! Que um suspiro de amor seja minha última prece à Única Senhora dos Elfos!

                Então eles rumaram na direção dos portões e ali se mantiveram. Os inimigos investiram velozmente, berrando como animais desesperados. Seus olhos vermelhos brilhavam na noite como estrelas que prenunciavam a morte.

                Os elfos cerraram as fileiras e os escudos bateram uns nos outros. Sentiram a presença do amigo ao lado e confiaram no sangue e na fé que os unia. Foram as lanças que seus irmãos forjaram que se enfiaram nas entranhas podres dos primeiros goblinóides a se aproximarem. E foi o brado de guerra de irmãos de fé e sangue que saltou na noite acima dos gritos desgraçados dos oponentes.

                Juntos aos portões, eles resistiram. Ali eles mataram mais de cem filhos de Ragnar. Quando a manhã chegou, havia doze corpos de elfos caídos no meio dos cadáveres. Eleandil ajudou a carregá-los e cremá-los, pois não os deixaria junto ao lixo.

                Os sobreviventes seguiram em procissão para o norte. Eleandil se recusou a chamá-los de refugiados. Eram romeiros rumando para novas terras onde reformariam a fé da Única Senhora dos Elfos. Que todos os Lemas da Senhora Eterna estivessem em seus corações.

Author: Antonio Augusto Shafthiel