segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Hayabusa O ronin, Capítulo VII

Desenho da Revista Samurai Heaven
Tamura, 10 anos atrás, no Palácio Imperial.

Os presentes no conselho de guerra estavam espantados. As notícias não eram nada boas e as previsões eram ainda piores. Pelo que pode ser apurado, o reino quase todo estava sob ataque da tempestade rubra. Os magos que restavam tinham se comunicado telepaticamente com informantes de toda a Tamura. Puderam sentir as mortes deles pelos elos. Seja lá o que aquilo fosse, estava destruindo o reino sem dar ao menos tempo de organizar uma defesa.

De todos os milhões de tamuranianos que despertaram pela manhã, apenas alguns poucos milhares ainda viviam. O Palácio era a última barricada. E não duraria muito tempo. Os esforços das pessoas que estavam presentes no Salão de Assembléias eram para que pelo menos os tamuranianos que estavam na Cidadela pudessem se salvar. Um plano audacioso e desesperado estava em andamento. A margem de erro era inexistente.

Tudo dependeria do Imperador de Jade.
-- Alguma dúvida, meus filhos? -- perguntou o Regente aos homens com cabeças baixas. Suas feições eram de seriedade extrema. Arquitetara o plano durante as últimas horas. Ponderara sobre os prós e contras.
Não que tivesse mais opções. A questão para o imperador se resumia a tentar fazer com aqueles refugiados que lotavam a Cidadela o que não conseguira pelo resto do povo.  Sentia a vergonha por ter falhado com os que dependiam dele para obter segurança. Os seus súditos... os seus filhos... todos dependiam do Imperador e, quando mais precisaram...
-- Eu falhei com meus filhos... é meu dever, como Imperador, ficar e dar aos que restaram, uma chance de se salvar. Isso é uma ordem, senhores.
Aquela figura pálida escondia uma das criaturas mais poderosas de Arton. Um dos Dragões-reis elementares. O Dragão-rei do Vácuo, que se mostrava na forma de um mísero e frágil humano... Para ser o exemplo do povo que adotou como súditos. Em seus olhos reptílicos estava a sua herança de poder.
A mesma herança que iria utilizar num último lapso para preservar a sua honra frente aos filhos que sobraram. O plano era simples... e perigoso. O imperador utilizaria seu poder para um teleporte. Um teleporte de parte da Cidadela para alguns milhares de quilômetros de distância até um local próximo á Valkaria, capital de Deheon. Nunca havia visto o local, sabia dele apenas por que um de seus generais o visitara. Não sabia o que havia lá atualmente.. 
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Muitas coisas dificultavam a transmissão. O mais arriscado eram as condições em que deveria ser realizado o transporte. Era preciso muita energia para se transportar tanta massa. A quantidade de massa a ser transportada tem relação direta com a massa do próprio transportador e com a energia que seria utilizada para o feito. Para aumentar a margem de erro do encantamento, o Imperador deveria assumir a sua forma de Dragão. Para isso ocorrer, o escudo de proteção que estava erguido seria desativado... E as hordas de demônios estariam livres para atacar..., Além do ácido e do ar pestilento que avançariam em tudo.

Parte da Guarda Imperial deveria, então, ficar e proteger o Imperador, os magos que ajudariam no encantamento e a fuga de dos refugiados. Para esses não haveria salvação. O Imperador não queria concordar com essa medida. Mas no fim das contas, percebeu o quanto era necessária a proteção. Se As hordas chegassem à população...ou se conseguissem impedir o encantamento... Tudo estaria irremediavelmente perdido .

Petrynia, dias atuais, a dois dias de Malpetryn.

Hayabusa se levantou e andou para longe da fogueira. O que akukama lhe dissera tinha sentido e ele mesmo sabia parte daquelas informações. O envelope amarelo que Toranaga-sam lhe entregara continha um levantamento completo sobre a vida de Taupys, o local onde ele morava, a natureza de seu comércio e uma planta da villa em Petrynia. Com essa planta e um bom trabalho de espionagem, poderia invadir o local.

Essa era a missão que lhe fora confiada. Recuperar a sua irmã e mais três tamuranianas que estavam sob o poder do minotauro. Não que Taupys fosse mal. Isso nem mesmo importava. A escravidão é vital para a existência da raça. Precisam de mulheres para manter a espécie. Para isso, mantêm escravas em haréns particulares. O poder de um Minotauro podia ser medido pela quantidade de mulheres que ele possui no seu harém.

Apesar da própria religião deles exigir a posição dominadora de escravocrata, a maioria dos Minotauros tratava bem as suas escravas. Querendo ou não, todos eles são filhos de escravas. Os machos nascem minotauros e as fêmeas nascem humanas para perpetuar a espécie e a tradição dos haréns. Taupys era um Tapistanense padrão. Tinha os seus negócios, cuidava bem do que possuía, tinha seus filhos minotauros... Servira a legião anos antes e isso lhe dera uma boa noção de comando. Servia a Tauron fervorosamente... Enfim... Um padrão para a raça. Mas como muitos da espécie, tinha uma atração especial por mulheres exóticas. 

Já possuía quatro tamuranianas e estava interessado em comprar mais uma. Gostava principalmente por que elas lutavam e tentavam impedir o que era natural: que o mais forte proteja e domine o mais fraco, sendo o mais fraco obrigado a obedecer irrestritamente o mais forte. Achava muito mais gostoso quando elas resistiam. E nisso as tamuranianas eram quase insuperáveis. Hayabusa sabia que estaria se metendo com um Minotauro dentro dos padrões, o que não significava, em hipótese alguma, que seria fácil.

Taupys era um comerciante importante para a região e seus produtos abasteciam os outros minotauros no reino. Existiam guardas livres em sua propriedade, além de escravos, que tentariam de tudo para impedir o resgate. Além disso, haveria a questão diplomática. Qualquer passo em falso poderia ter conseqüências trágicas para a paz entre os povos. Se fosse apanhado, o governo de Tapista poderia exigir que Deheon fizesse algo para impedir que novos ataques fossem realizados por aqueles que eram refugiados na Capital (os tamuranianos).

Por outro lado, Toranaga, com sua influência, faria com que determinadas informações caíssem em mãos do Rei Thormmy. Apesar de escravidão ser tolerada no reinado (para se evitar conflitos), o seqüestro não o era.
A margem de erro na qual o samurai operava era muito pequena para permitir qualquer descuido.
Hayabusa deu meia volta e viu que Akukama o observava. Estava segurando o ombro ensangüentado, com a flecha encravada. Aproximou-se e, com um gesto rápido, arrancou a manga do kimono do prisioneiro. Observou por traz e viu que a flecha havia atravessado. Os ossos pareciam estar em boas condições e, apesar de haver sangue, nenhum vaso importante pareceu ter sido acertado.
A pele ao redor estava pálida, o que era normal. Não havia inchaço em demasia, significando falta de edema. Quebrou a flecha e retirou os dois pedaços antes que Akukama pudesse protestar. Iria ficar bom. Com os dois pedaços de sua flecha na mão, o samurai voltou ao seu cavalo que permanecera amarrado a alguns metros. Parece que o plano era roubar o cavalo para parecer assalto. De um pequeno bolso em sua sacola,
presa na sela, retirou um frasco do tamanho de um dedo médio. Era de vidro com tampa feita de rolha. Dentro dele, um líquido azulado sacudia. Retornou ao homem sentado no chão, perto da fogueira, que gemia baixo. A dor naquele momento era maior do que quando a flecha ainda estava encravada. Ele mal conseguia seguram os lamentos de dor.

Ajoelhou-se e, com cuidado, abriu a tampa do frasco. De seu interior, um cheiro forte e azedo foi expelido. Lembrava leite azedo... Depois de três dias guardado! Os olhos de Akukama acompanhavam seus movimentos com temor estampado. Hayabusa molhou um chumaço de tecido no líquido e colocou em cima do ferimento de entrada. Com outro pedaço preparado da mesma forma, tapou o ferimento de saída.
Akukama sentia o ombro arder. Uma chama queimava seus músculos e ossos a partir do ferimento. O que quer que fosse aquele líquido, parecia transformar seu braço em metal derretido. Com a sensação de calor, veio o pulsar de suas veias. Eram elas que estavam empurrando aquilo através se seu sangue, parecendo, no entanto, não suportar o próprio esforço. 

A onda se expandiu além do braço e foi tomando o corpo do homem. Veia a veia, artéria a artéria, membro por membro, órgão por órgão... Tudo foi tomado pelo calor... Era deliciosamente insuportável... E, tão devagar quanto a chegada, a onda se foi... Saiu de todo o ser de Akukama na mesma velocidade com que o tomou. Até que se concentrou apenas no ombro. 
-- Não se preocupe, Akukama-sam -- o rosto de Hayabusa traía um sorriso -- a dor do ombro passará por completo pela manhã. A poção não o fará nenhum tipo de mal. Apenas serviu de antídoto e curativo para o seu ombro ferido. A sensação que você sentiu é do remédio funcionando. O que achou?
-- Eu... O que... Líquido... Parecia...-- as palavras saiam como pequenos suspiros, sem sentido -- o que era aquilo?
-- Apenas algo com que me acostumei demais -- o samurai passou a mão sobre a cicatriz na face... -- mas, enfim, o remédio vai curá-lo, mas cobrará seu preço. O sono que está sentindo agora é fruto da sua ação. Dormirá algumas horas e quando acordar, não sentirá mais nada. Não se preocupe, não lhe farei mal. Darei um jeito nos corpos de seus antigos companheiros.

Mas Akukama já desabara. Por experiência própria, Hayabusa sabia do poder daquela poção. O corpo precisava do sono para se recobrar do esforço que fizera para eliminar o veneno e curar o ferimento no ombro. Seriam, pelo menos, 12 horas de initerrupto, a julgar pelo tamanho do ferimento. O Ronin se levantou e com um último olhar para a fogueira, avançou para os três corpos que estavam próximos. Teria que se livrar deles. Os arrastou para um pequeno barranco, a uns cinqüenta metros da posição em que estava o acampamento. Tirou as suas roupas na esperança de alguma pista. Sabia quem os tinha mandado lá... Akukama-sam tinha sido obrigado a participar, segundo ele, mas os mortos pareciam apenas bandidos pequenos que pensaram em dar o grande golpe. As suas armas não combinavam com suas roupas. Eram armas bem trabalhadas. Imitações quase perfeitas de ninja-to, e, como a maior parte das cópias, caras demais para o que realmente são capazes de fazer. 

O patrocinador, que tudo indicava ser Hector e a Guilda dos Prazeres, gastara um bom dinheiro em armas para fazer parecer que eram ninjas mesmo. Mas se esquecera de gastar dinheiros com verdadeiros ninjas. Erraram quando supuseram que aqueles homens seriam páreo para o Ronin. Não contavam também com a não concordância de Akukama-sam. A principal dúvida era o porque dos atacantes terem que ser, obrigatoriamente "ninjas"? E o por que da escolha de Akukama? Existiam mais fatos a serem apurados...

Com um abanar de cabeça, o samurai colocou os seus pensamentos nas gavetas apropriadas de sua mente. Não era hora de pensar naquilo. Guardou as armas para o caso de necessidade financeira. Sempre poderiam correr percalços que necessitassem de um socorro de capital e belas cópias como aquelas poderiam ser vendidas facilmente em Malpetryn.
Ainda mais que Akukama precisaria de alguma proteção. Por mais que a história dele fosse convincente, havia coisas que não foram contados, propositadamente. Apuraria isso quando desse, mas já decidira não tirar os olhos dele tão cedo. Achou os cavalos deles a 300 metros de onde estava acampado. Os bandidos o seguiram durante algum tempo e esperaram o momento de agir. O ronin trouxe os quatro cavalos consigo e os amarrou junto com a sua própria montaria. Os venderia na estalagem, pela manhã ou mesmo em Malpetryn. De qualquer forma, Akukama precisaria de um cavalo.

Examinou as selas e também não viu nada demais até que numa delas percebeu uma pequena mochila. Era o mesmo modelo que a Guarda Imperial utilizava. Dentro dela achou objetos comuns, como talheres, uma muda de roupas de baixo, um par de tabis... Seus olhos pousaram sobre uma mecha de cabelos pretos, amarrados com uma fita dourada. 

Tinha a suspeita de que aquela era a mochila de Akukama. Os pertences eram pobres e confirmavam a história que ele tinha contado. A mecha de cabelo preto devia ser da filha que seria resgatada. A saudade deveria ser muita para que andasse com tal souvenir.
Separou a sela de Akukama e a colocou próxima às suas próprias coisas. Até ter certeza de que a história era verdadeira, não pretendia se livrar de Akukama. Dera a sua palavra que salvaria a filha dele... Disse mesmo que lhe daria o antídoto... Prometeu que o libertaria...
Só não disse quando...

3 comentários:

  1. Muito bom ^^ E fica cada vez melhor *--* Esperando por mais *.*

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  2. Você não teria vontade de dramatizar esse conto
    estou a procura de uma equipe se quiser entre em contato pelo meu email:
    anjosolliveira@hotmail.com

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