sexta-feira, 14 de março de 2014

Em busca de lenora: Capitulo III

UMA JORNADA À TERRA DOS PÉS DE URSO

 Incrível o poder da magia. O tempo que a cavalo levariam para chegar a uma cidade pouco distante de Valkaria, foi o que levaram para atravessarem mais de três reinos apenas com teleportes e portais conjurados. O pequeno esqueletinho de Vladislav era sem dúvidas um bom aliado, mesmo que Luigi continuasse a evitar olhá-lo por sua raiva reprimida, e sentiram-se com menos uma segurança quando este após levá-los ao primeiro destino, desapareceu para reencontrar Vlad.

Instantes antes, dentro do laboratório subterrâneo no solar do necromante, reunidos envolta de uma maca onde realizava constantemente experimentos com cadáveres, e cercados por armários e prateleiras abarrotadas de jarros e frascos com as mais diferentes bizarrices, como olhos em substancias coloridas, fetos mumificados e conservados, crânios cheios de inscrições queimadas, assim como ossos e outras coisas, preparavam-se para projetar o plano. Leon estremecia toda vez que entrava ali, então a primeira coisa que fez foi deitar sobre os braços na mesa, sempre preferindo observar os companheiros e evitar os objetos envolta, Luigi apenas sorria com seu eterno sorriso bobo enquanto examinava com interesse um aquário aonde esqueletos de peixes animados com magia nadavam, Katabrok e Tasloi sentaram-se juntos (raramente chegavam perto de qualquer coisa ali desde o dia que acidentalmente foram enganados por um esqueleto removendo as algemas mágicas deles sem saber que era um protótipo de mago morto-vivo que Vlad mantinha em cativeiro, o que ocasionou uma boa matéria na Gazeta do Reinado).

- Hunc! Esse clima azeda a minha guaroba! – disse Tork que só foi convencido a participar da reunião em troca de algumas canecas de cerveja, a qual trazia para a reunião, sentando-se sobre uma almofada, já que desconcertantemente ficou baixinho demais para a maca.

Então finalmente entrou o dono da casa, envolvido em seu manto e de olhar sempre sério, pétreo e calculista. Um esqueleto, que antes parecia apenas de estudo, criou vida na presença dele e caminhou até uma cadeira, puxando-a para que Vlad sentasse. Leon estremeceu com aquela coisa toda sombria.

- Então, caros colegas! Não pretendo entrar em curso de introdução e recorrerei ao termo último de nossa congregação! Como já lhes é sabido, temos uma missão, permitam-me explanar quanto aos procedimentos que haveremos de tomar na finalidade de um desfecho fortunoso…



- PUTAQUEUPARIU! Hunc! – Tork vinha soltando a mesma exclamação grosseira o caminho todo, mal podia acreditar que havia se enfiado num trampo desse que envolvia nada menos que um dos poderosos Reis Dragões. Luigi achava engraçado a reação do trog falante – Saiba, bardo risonho, só to metido nessa merda por que você me disse na casa do mago que aquele puto vai estar lá!

O bardo sequer alterou seu sorriso matreiro enquanto Leon examinava a trilha bifurcada do bosque para encontrar o caminho de maior movimentação para continuarem.

- Elementar, caro companheiro troglodita… Lenora, nossa parceira de expedições é nada mais nada menos que a irmã dele, e fontes confiáveis me informaram sobre ele e seu bando de saqueadores marítimos estarem se encaminhando para esse lado do continente!

- Seguiremos pela esquerda! – disse Leon subitamente – Há mais marcas de carroças e botas indo para lá! Até de pés descalços!

Assim os três continuaram caminhando. Em reunião haviam decidido separar em dois grupos: Vladislav, Taslói e Katabrok iriam para Bielefield, o Reino dos Cavaleiros da Ordem da Luz, seguindo para sua capital estudar sobre a antiga capital local, Lendilkar, que há muito afundara nas águas costeiras durante uma demonstração de ira do Rei Dragão Benthos, a sábia escolha foi realizada por Vladislav ter mais experiência em cuidar para que nenhum desses dois arrumassem muita confusão; Leon, Luigi e Tork iriam atrás de um contato que o bardo afirmava ter e que poderiam se utilizar para conseguir uma nau forte e boa o suficiente para navegar o Mar do Rei Dragão e por entre o arquipélago de Khubar. Assim, os três estavam agora caminhando em uma trilha bem iluminada de um dos incontáveis bosques que compunham as florestas de Kaiamar, em Hongari, o reino dos halflings.

Tudo era bem verde, pacífico e passivamente alegre ali. Os pássaros piavam, os besouros zuniam com as abelhas como se dançando atrás de pólen, vez ou outra encontravam uma luz de fada oculta nos arbustos, animais assustadiços passavam próximos e mesmo as folhagens faziam um coral saudando os forasteiros de maneira que aquilo tudo contrastava totalmente com a alma daqueles três, marcada pela vida de aventuras, cheios de cicatrizes abertas que o destino lhes infligira, aos poucos lhes espantava a dureza do passado, e sentiam-se mais relaxados, era sem dúvida um reino para os pacíficos, quando não preguiçosos, halflings.

Não demorou muito e viram sinal de fumaça surgindo para além das copas, e assim puderam ver um aglomerado de colinas, o que era bastante comum naquele reino. Andando nas ruas de terra batida, viam-se entre vários pórticos pequenos (aonde só entrariam agachados), cercados por postes exóticos, com frutas cobertas do que parecia mel, atraindo fadas que ali paravam para comer e dormir, e seu brilho dentro dos vidros das lamparinas é que iluminava os caminhos de manha e de noite. Ao longe se erguia uma colina acima de todas, com uma vasta plantação, para cultivo do tabaco, como Luigi informou. Caminhando pelas ruas havia os pequenos, barrigudos e pacatos halflings que observavam os visitantes e lhes fazendo uma mesura, só ocultando-se ou apressando-se sem sorriso quando viam o troglodita armado logo atrás.

- Heh! Parece que sua beleza não cabe na estética deles!

- Hunc! É meu eterno fardo, bardo! Monstros foram feitos para morar com monstros! A cada dia creio mais nessa porra!

Logo começavam a ver esses pórticos um pouco maiores, aonde já poderiam entrar de cabeça erguida, sem dúvidas eram moradas de raças de tamanho humano que viviam entre os pequenos. Não demorou muito para se confirmar, e verem um casal idoso de elfos, belos mesmo com as rugas, e muitos humanos de várias idades que observavam com hesitação o troglodita. Logo humanos e elfos começaram a abrir passagem para um halfling bonachão, de cabelos castanhos encaracolados, roupas simples de camponês, fumando um cachimbo, e deitado sobre o casco de um cágado do tamanho de um cão, que vinha na direção do distinto grupo. Ele sugou o ar do tabaco com cheiro de menta e soltou pelas narinas, sorrindo aos três.

- A chegada dos senhores já nos fora informada desde que estavam nas proximidades! Vejo que trazem um monstro para nossa aldeia… - suga o cachimbo e solta o ar serenamente, sem pressa nem pra completar sua frase -…O que desejam em minhas terras abençoadas por Marah e Allihanna, meus caros hóspedes?

- Hunc! Fudeu! Da próxima vez me lembrem de passar maquiagem! – Tork sussurrou tentando sem sucesso esconder seu imenso “machado”.

- Deixem comigo, ninguém aqui tem mais carisma que um bardo! – Disse Luigi Sortudo dando um passo a frente, fazendo uma mesura comedida com o dorso e então voltando a sorrir matreiro enquanto pega seu bandolim e toca a primeira nota. Tal gesto fez os humanos envolta e o próprio prefeito ficarem mais interessados do que amedrontados.

Viemos das longínquas muralhas
Que cercam a bela deusa de pedra
Atravessamos os pântanos e charcos
Com um desconhecido destino em nossa meta.

Desembainho o bandolim,
Vibro a voz
Sorrio às musas
E espero ser atendido assim.

Louvamos vossa terra,
Em que Marah abençoou.
Para nosso companheiro agora troglodita
A cura de sua maldição é nossa meta.

Desejo ver uma pequena dama,
Trajada como os homens do mar e de olhar selvagem
Ela é nosso pátio da consagração
Com ela em nossos braços,
Os deuses nos darão atenção.

Portanto peço desculpas pela cara feia de meu amigo
Que de nenhum deus monstro é um assecla
Dou-lhe minha musica, sorriso, e qualquer história
Em troca de teto, comida e bebida, meu mais novo colega…


E assim encerrou a canção com uma nota longa e vibrante. Então vieram os aplausos, que o grupo percebeu vir de inúmeros aldeões que se reuniram curiosos as voltas do grupo. Luigi realizava mesuras de agradecimento, e Leon riu da situação já que o bardo sempre conseguia libertá-los das mais desagradáveis impressões. Realmente, sempre era bom ter um especialista em carisma em um grupo.

- Muito, muito bom forasteiro! – disse o prefeito por entre os dentes que seguravam o cachimbo enquanto usava as mãos para aplaudir – Sejam bem vindos à Comunidade de Lappuh! Não temos estalagens, nem tavernas, mas pode ficar em uma das casas para hóspedes que temos! Sou o prefeito Tottou Buffin, quero que se sintam a vontade enquanto procuram a cura para a maldição de seu colega troglodita! Mas tomem cuidado, algumas crianças daqui podem ser mais perigosas que um Tói-Tódi acuado!

Tói-Tódi era um mito real de Hongari. Lobos assistentes de Allihanna que mantinham os herbívoros sob controle, reinam sobre os carnívoros e só atacam aqueles que ameaçam suas florestas faunas e flora, como Luigi veio a explicar mais tarde aos outros dois. O hafling ofereceu seu cachimbo a cada um, Leon engasgou um pouco e Tork até que gostou, apesar de achar que fumar era bem estranho quando se tinha escamas no lugar de lábios. Tal ato representava a hospitalidade do senhor das terras com seus visitantes. Ao pegar de volta o cachimbo, bateu duas vezes no casco do cágado, e apontou para o norte, para onde o animal começou a seguir lerdamente, mas não tanto quanto um cágado normal levaria, seguido pelo trio até a casa para hóspedes. Luigi caminhou entoando algumas notas enquanto o prefeito narrava sobre a história da comunidade e a de muitos moradores, assim algumas crianças, humanos e halflings acompanharam o grupo para ouvir a canção.

...

Pequena, cheirosa e reconfortante, sem dúvidas o melhor que um lar halfling pode oferecer. Leon estava maravilhado, sentado na varanda, em um banco observando as redondezas e por um tempo esquecendo os objetivos e missões, como se pudesse ficar ali pacificamente até o resto de seus dias com felicidade, comendo o bolo de fubá que o prefeito lhes presenteara; Tork examinava tudo na morada, até a ele era um bom lugar. A casa era escavada em câmaras dentro de uma pequena colina, como uma caverna confortável, com pequenos cômodos, mesmo para humanos morarem, contendo uma cozinha, uma sala, um quarto e uma jardineira nos fundos, só uma coisa incomodava o troglodita… não havia nem cheiro de cerveja nas redondezas. Luigi tomava uma batida de uva com álcool, especialidade na comunidade. Sentado na janela observava o pôr do sol naquelas terras dos Pés de Urso, como alguns chamavam a pequenina raça por seus pés enormes e descomunalmente peludos, os aldeões camponeses lavravam e cultivavam a terra sobre suas próprias casas-colinas, na frente de algumas moradas, produtores de vinho e da batida reuniam-se dentro de barris aonde pisoteavam a fruta, mas só avistara halflings o fazendo. Era reconfortante e sereno realmente, mas Luigi nunca resistiria viver ali, seu coração aventureiro pedia por ações, novas descobertas e mais inspiração à suas canções, talvez lhe bastasse a passagem por lugares assim para acalmar os enfermos da vida que lhe massageava a essência tão perturbada por maldições, intrigas e malignidades do cotidiano no Reinado. O fedor do troglodita aguçou o nariz do bardo, fazendo-lhe perceber sua proximidade.

- Bardo, muito legal isso aqui! Acho até que já sei aonde vou descansar meu rabo quando minhas escamas começarem a amolecer, mas… Hunc! Que porra estamos esperando? Vocês não têm pressa de reencontrar a tal guria do mar? E eu preciso pegar aquele puto-sem-braço antes que escape novamente!

Luigi observou uma carroça que vinha ao longe parar diante de uma casa próxima. Um homem do tamanho dos demais moradores desceu dela trazendo feno, mas era diferente… Magro, de trajes mais colados ao corpo, cabelos negros em rabo de cavalo e com pés normais, até usando botas. Eram chamados de Filhos de Hyninn, uma variação dos halflings, ainda sabia pouco deles, mas eram como que primos dos “pés de ursos” conhecidos como espécie também classificada como raça Hobbit. A caçamba era puxada por dois trobos de penugem roxeada, bem cuidados por sinal que bicavam o chão atrás de pequenas pedras que era de costume da especie comer.

- Relaxe meu caro, vamos encontrar logo quem procuramos! É só ter paciência! Aposto que gostará de revê-la! – Luigi sorriu amedrontadoramente matreiro. Tork ficou intricado.

...

A noite finalmente descera sobre aquelas terras. A lua estava cheia, conhecida pelos artonianos como em Escudo Pleno quando totalmente prateada, iluminando a copa das árvores em harmonia com os postes de fada da comunidade. Tork aprendia a jogar cartas com Luigi enquanto o ronco de Leon Galtran era escutado do banco fora da casa. Nunca na vida dormira tão bem, sem preocupação de ter alguém perseguindo o prêmio por sua cabeça. Foi então que um som sutil de balde despertou-o. Com a vista embaçada não pôde identificar direito. Correu os olhos pelo terreno enquanto se adaptava à relativa escuridão. Até que se deparou com os vultos que pisavam no curto jardim de orquídeas da casa. Eram pequenos, menores que os próprios Hobbits.

- Ih! Ele nos viu! – disse uma voz infantil.

- Movimento A! – uma voz feminina e imperiosa veio de algum canto.

Os vultos então apontaram bestas para Leon que começou a identificar a forma deles, eram como halflings mesmo, só que menores, mais frágeis, trajando ainda roupa de aldeão e com máscaras de madeira distintas apenas pelos buracos para os olhos. As pequenas bestas dispararam, alguns foram arremessados para trás pelo impulso da arma. Pedras voaram na direção do ladino que com a força dos pés e acrobacia jogou-se para trás do banco em que dormira até a pouco, mas não sem ser acertado por algumas das pequenas pedras no seu flanco, fazendo o ladino sentir uma dor horrenda, e deixando-lhe marcas que durariam dias.

Um vulto maior surgiu. Era o da voz feminina, que ainda assim trajava-se totalmente com uma roupa de garoto.

- Ora ora, que hábil tiozão! Mas não será tão fácil comigo, a Grande Criança!

A besta que ela usava disparou um virote que atravessou o banco e prendeu na parede. Galtran sem encontrar outra saída se não revidar antes que os outros sete que vinham por todos os lados se unissem, pegou a kailash e girou.

- Não sei o que são, suas pestinhas! Mas tio Leon vai lhes ensinar uma lição!

Soltou a arma que ao passar sobre algumas crianças abriu a rede capturando boa parte, dando um susto na tal Grande Criança. Que escapou saltando para trás de um arbusto. Novas pedras vieram na direção de Leon, só que dessa vez esquivou com sucesso enquanto pegou a kailash que retornou.

- Yikes! – Exclamou enquanto desviava das pedras.

- Kailash!? Yikes!? Pera pera, é você, Sandro? – disse a Grande Criança quando a porta da casa repentinamente se abriu e Luigi saiu lá de dentro com um florete em punho.

- Heh! Peleja!

- S-Sandro, você disse!? – Leon indagou enquanto o bardo avançava sobre algumas das crianças com seu florete – Espera Luigi, ela conhece meu filho!!! E são só crianças!

O florete dançava em direção aos salteadores que deixavam suas armas para correr chorando.

- Não se preocupem, só o demonstrar das armas já assusta esses pequenos!

- Filho!? Sandro é teu filho!? – a que parecia a líder indagou mais a vista – Pensei que fossem só estrangeiros com ouro, mas agora as coisas mudaram muito!

A menina então se virou e começou a correr atrás do próprio bando que já se dispersava por entre as árvores, entretanto, facilmente perseguíveis já que ainda choravam bem alto. Algumas casas abriam as portas para ver o que acontecia. Luigi tocou duas notas de seu bandolim e a vibração fez a terra estremecer sob os pés da pequena líder, derrubando-a enquanto as raízes saltavam e cresciam pelo corpo dela, prendendo-a. Continuou a tocar as notas até que ela estivesse presa por fortes vinhas. O bardo removeu a máscara da menina humana.

- Mas que porra é ess… - Tork resmungou saindo pela porta da colina, incomodado por aquela choradeira toda – PUTAQUEUPARIU! QUE TU TÁ FAZENDO AQUI, GURIA???

- Tork, será que dá para evitar palavrão na frente de crianç… YIKES! Mas hein? Vocês se conhecem?

- Tork? Oras, mas o que está ocorrendo aqui afinal? – disse a menina loira com uma mecha frontal vermelha – E tem como me tirar disso?

- Pode deixar ela em paz bardo, conheço essa minazinha! Hunc!
Luigi negou com a cabeça, ficou de cócoras e acariciou as mechas da menina, com seu eterno sorriso bobo.

- Na verdade, meus planos pedem para que ela permaneça presa! Bom, pequena senhori… - ela cuspiu na cara de Luigi que limpou com a própria capa e voltou a ela sorrindo - …senhorita, vou libertá-la em troca de um favor!

- NÃO FAREI NADA PARA TÚ, SEU FILHO DE KOBOLD DUMA FIGA!

- Malcriada essa menina, e bem nervosinha! – Leon comentou com Tork.

- Hunc! Sério? Nunca deve ter conhecido o irmão pulha dela, então!

Luigi continuou sem se alterar.

- Desejamos encontrar seu irmão, e provavelmente você deve saber aonde encontrá-lo! Quero pedir-lhe um favor! Então, o que acha, milady Anne K.?

Ela ficou emburrada algum tempo e então falou.

- Tudo bem, mas quero que tudo que ganharem ou encontrarem com algum interesse para mim, durante a viagem até meu irmãozinho, deva me pertencer!

- De acordo! – disse Luigi pronto para tocar uma nova nota do bandolim.

- Espere, antes de me libertar, chame o prefeito para me ver! Quero que ele me veja assim! – ela sorriu tão matreira quanto Luigi, que entendera o plano.

- Basta, basta! M-mas pera aí vocês! – disse Leon completamente confuso – De quem estamos falando? Quem é esse tal irmão dela? E como essa criança conhece meu filho e o Tork?

- Aff! Burro como o filho! – disse Anne balançando negativamente a cabeça – O meu irmãozinho é…

Tork irritado, Luigi matreiro e Anne em coral disseram em uníssono.

- James K!

- YIKES? QUER DIZER QUE VAMOS PEGAR CARONA NO NAVIO DO MAIOR E MAIS CRUEL PIRATA EXISTENTE DO MAR OESTE???? YIIIIKES!!!!!!!!


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Nota do Autor: Na veracidade de uma realidade da vida, zodiac, não é uma arma mágica... Apenas uma aprimoração das armas de fogo. São balas com veneno injetado ou cobertas de camada de veneno... e bala injetada com condensação de gás venenoso, que ativa quando disparada. Não há magia. 
O Snizzel é sim um homem-serpente, mas nem todos desta raça têm de ser sszzaazita ou amar Sszzaas. Ele por exemplo é independente de deuses, fiz uma ficha Pistoleiro/ Chapéu Preto, e vindo de Sallistick.


ASS: ANTONYWILLIANS, O MAIOR ESPADACHIM DE ARTON

quinta-feira, 13 de março de 2014

Elfos Negros - Encontro Amargo

Um conto sobre os elfos negros do mundo de Tormenta. Mais sobre esse mundo em www.jamborpg.com.br/tormenta

Encontro Amargo

A floresta escura estava silenciosa. Os animais haviam a abandonado, assustados com o grito de ódio. Os pássaros voaram de seus ninhos deixando ovos e filhotes, temendo tanto por suas vidas que não se preocuparam com as crias. Coelhos e raposas correram juntos para se salvarem daquele grito terrível que não conseguiam reconhecer, que era tão afastado de sua natureza. Traçando um círculo a partir de onde os animais começaram a parar sua fuga, sabia-se que o centro seria o lugar onde um elfo, de espada na mão coberta de sangue e cabelos esverdeados tapando o rosto, estava ajoelhado.

Enfiava uma adaga na terra e gritava vários nomes de heróis e deuses antigos de seu povo. Passou por vários, entidades esquecidas ou divindades menores que já haviam caído perante outros poderes. Só por um deles ele não clamava, sua Mãe e Senhora, a Dama que criara sua raça.

Ao lado dele, quatro corpos estavam caídos. Eram todos seus amigos que haviam se juntado a ele nessa empreitada. Todos o seguiram tentando convencê-lo a parar com aquela idéia. Aqueles a quem procurava não eram nada mais do que uma lenda. Outros diziam que era a escória de uma raça amargurada. Esses faleceram um a um sob sua espada por desafiarem sua obsessão.

Ainion das Antigas Noites de Bruma, elfo guerreiro, capitão de infantaria, passara os últimos anos lutando para que sua alma não morresse. Ele a sentiu definhando pouco a pouco, falecendo ainda que seu corpo longevo se mantivesse firme, levantando espada para arrancar sangue de monstros em toda espécie de aventuras.

Enchera-se de tesouros. Tinha anéis mágicos nos dedos, uma armadura que impedia que qualquer flecha o acertasse, um colar que o protegia contra o fogo, uma espada que cortava o aço, tanto dinheiro que comprara seu próprio grupo de mercenários, com o qual adquirira ainda mais riquezas. Nada disso servira para preencher sua alma.

Foi com admiração que percebeu o prazer ao cortar a carne daqueles humanos caídos a seu lado, seus antigos amigos de aventura que resolveram acompanhá-lo naquela empreitada. Aquilo só o fez perceber que estivera certo em ir até ali. O descanso de sua alma élfica estava naquela floresta.

- Querda sleerien farsh – disse. “Que a morte seja breve e eterna”, falava em um ditado para a alma élfica.

- Canh triani lus malari – completou alguém, que agora colocava a mão em seu ombro. “Para que nenhum deus nos culpe de falta nobreza”, dizia o restante do ditado.

Ainion fincou de vez a faca no chão e olhou para as duas figuras silenciosas que estava atrás dele. Um era Alyan nih Narceliene, outro elfo guerreiro que ele conhecia desde os tempos do império, antes da queda que destruíra a alma de Ainion. A elfa que o seguia era a sacerdotisa Marwen nih Sarntir, serva da deusa cujo nome Ainion não pronunciava.

- Você matou amigos, Ainion – disse Alyan, agachando-se ao lado do amigo.

Lágrimas desceram pelo rosto do líder mercenário.

- Eles não acreditavam.

- Nem precisavam. Vieram para salvá-lo dessa crença maldita.

- Vocês só estão vivos porque acreditam que é verdade.

- Acreditamos e tememos – disse Alyan, olhando em volta.

- Não tememos... Desprezamos – corrigiu Marwen.
Alyan ajudou o amigo a se levantar. Olhou para a face triste. As lágrimas escorriam pela cicatriz na bochecha esquerda. Entregou-lhe uma fita marrom bordada com frases de glória.

- Não tenho mais orgulho – disse Ainion.

- Creia e você terá – falou Marwen, adiantando-se. Tomou cuidado para não pisar no sangue dos humanos.

- Um elfo perece sem seu orgulho e sua morte não se torna breve nem eterna – falou Ainion, recitando os ensinamentos religiosos pelos quais passara na infância.

- O orgulho vem da deusa, não de você, pois o seu sangue vem do ventre dela. Seu espírito vem da benção dela. Venha, eu vou purificá-lo – disse ela, colocando as mãos sobre o peito dele.

- Não estou arrependido de tê-los matado. Não posso ser purificado.

Marwen passou por ele, retirando a fita bordada de suas mãos. Prendeu os cabelos do guerreiro após retirar algumas folhas secas. Notou um pouco de sangue coagulado, mas cuidaria daquilo depois.

Alyan segurou a mão do amigo.

- Não há nada nessa mata, meu caro. Nada...

- Há sim. Aqui há algo que não descansa, cuja morte não foi breve e nem eterna. Eu posso sentir.

- Não há – insistiu Alyan.

- Há sim e eles observam junto ao sofrimento dessa alma ignóbil.

Marwen se colocou diante dele mais uma vez. Deu-lhe um beijo na bochecha e sentiu a lágrima quente que escorria.

- Você está apenas desnorteado, Ainion. Pense consigo mesmo e em breve a doçura de sua alma o levará ao arrependimento. Você sentirá misericórdia dessas criaturas, mesmo elas sendo inferiores.

Ainion baixou a cabeça. Marwen estava para levantá-la quando a temperatura na floresta caiu repentinamente. Alguma coisa gritou com uma voz estridente.

- Misericórdia é tudo o que eu quero!

Era um grito doloroso que feriu os corações dos elfos. Era como vidro sendo arranhado. Sacaram suas espadas longas e olharam em volta. Só viram uma escuridão densa que foi se afinando aos poucos, até formar o vestido glamoroso de uma criatura que se sentava em um galho. A saia dela descia pelo tronco. Tinha a face pálida e triste, as orelhas pontudas de um elfo e o olhar desesperado de alguém que encontrou a morte e não sabe como reagir. Não sabe que deve seguir adiante.

- Ela existe! A banshee está aqui! – gritou Ainion, olhando em volta, procurando por “eles”.

- Criatura patética! – gritou Marwen, adiantando-se. – Que Nossa Mãe Gloriosa lhe dê paz por seus pecados e a arraste para o domínio em que será purificada.

A criatura riu amargurada e saltou da árvore, voando na direção deles. Marwen continuou imóvel, levantando um símbolo sagrado. A banshee passou por ela. Ainion e Alyef saltaram, escapando de garras fantasmagóricas. Marwen virou-se para procurar a criatura. Ela sumira.

- Venha receber sua purificação!

- Não! – respondeu a voz agonizante.

- Ela quer ou não quer ser salva? – perguntou Alyef.

- A dor dela impede que aceite. Ela só consegue pedir o que ninguém pode dar. Se eu a ofereço a salvação, ela nega e passa a me odiar – respondeu Marwen.

As garras da criatura seguraram o pé de Alyef de repente. Agora ela vinha do solo. Subiu como um raio levando o elfo. Marwen orou com fervor e um raio atingiu a banshee. Ela soltou o elfo, que caiu e se levantou rapidamente com a mão no ombro.

Ainion procurava o fantasma élfico. Estava com a espada meramente em posição de defesa. A banshee agora voava no alto esfregando o rosto e gritando.

- Ela vai gritar – disse Marwen, orando.

A criatura abriu a boca de um modo que um mortal não conseguiria. Saiu de dentro dela um ar de outro mundo, repleto de dor e morte, carregando o som da angústia. Os elfos sentiram aquele brado de morte como espadas atravessando seus espíritos e os fazendo se lembrar de suas dores. Marwen se manteve de pé protegida por sua deusa. Alyef caiu de joelhos lívido, enquanto Ainion chorou, apenas chorou.

Então a banshee desceu com as garras apontando para o pescoço de Marwen. Ela preparou a espada para golpear, mas Ainion foi mais rápido. Saltou e interceptou o fantasma. Sua lâmina mágica, que cortava aço, atravessou a inimiga com um brilho que separou as trevas que compunham aquele ser. A banshee deu seu último gemido e desapareceu. As trevas do mundo retomaram sua essência assim como a terra exige de volta a carne de um mortal.

Ainion ficou parado olhando em volta. Marwen abaixou-se para ver Alyef e rezou para a deusa para que ele melhorasse.

- Ele não está bem. Minha magia pode ajudá-lo, mas o espírito dele está enfraquecido.

- Se o espírito de um elfo se enfraquece, só seu sangue pode fortalecê-lo – disse outra voz que vinha das trevas como a da banshee, só que essa tinha o vigor dos vivos e a vontade férrea dos imortais.

Um elfo surgiu da escuridão da noite. Usava um manto que cobria todo o corpo. Portava uma tiara dourada com uma pedra negra no centro. Seus cabelos eram escuros como as entranhas de um demônio e os olhos eram o espelho negro do ódio.

- Shimay! – gritou Marwen, mal acreditando no que via. Era a primeira vez que estava diante de um. Era a primeira vez que realmente levava a sério aquela lenda maldita.

Ainion olhou para o recém-chegado com a primeira fagulha de esperança que já tivera em quase duas décadas. Andou até ele, fincou sua espada no chão e se ajoelhou.

- Salve-me, pois eu não tenho mais orgulho do meu sangue, nem me lembro mais de minha linhagem.

- Afaste-se dele, Ainion! – gritou Marwen, se adiantando com a espada na mão.

- Só tenho palavras como armas, sacerdotisa moribunda – disse o elfo negro, andando até ficar ao alcance da espada dela e com a oportunidade de tocar Ainion. Encostou um dedo nele e então recitou toda a linhagem, dos seus pais, aos pais dos seus pais e a seus antepassados que haviam pisado em seu continente.

Ainion sorriu e chorou.

- Me dê a glória deles – disse.

- Não posso lhe dar o que você já carrega. Está no seu sangue – disse o elfo negro.

- Não! Está no seu espírito. A Deusa lhe deu e está junto dele!

- A Moribunda não dá nada há muito tempo, mas nos faz acreditar que o que é inerentemente nosso é presente dela – falou o elfo negro, paciente.

Marwen queria atacá-lo, porém sentiu que fazê-lo seria o mesmo que dar crédito para as ações de Ainion. Seria mais combustível para o que o shimay dizia.

- Fortaleça minha alma – pediu Ainion. – Eu perdi família, perdi um império. Um elfo não é nada sem o orgulho de seus parentes ou o que seus antepassados construíram. Minha alma se torna mais bárbara, mais... humana... a cada dia que passa... Parece que tudo vai mudar de um dia para o outro... dia após dia.

- O mundo muda, mas os elfos ficam, Ainion – disse Marwen. – O mundo muda, mas nossa graça se mantém aqui ou junto à deusa, pois tudo aqui acaba, mas o reino dela é eterno.

- Nossas vidas acabam, sacerdotisa moribunda. Nossa cultura e glória continuam. Esse é o propósito. Ou isso, ou seria melhor todos vocês passarem para junto dela logo.
Segurou a face de Ainion.

- Quer vir comigo?

Ele chorou e disse que sim. O elfo negro se ajoelhou diante dele e o abraçou. Marwen quis matar os dois, porém não podia atacar. Não deu atenção para o elfo negro, mas apenas para a alma de Ainion que era seu único propósito ali.

- Você nunca mais se ajoelhará a não ser para abraçar outro elfo que estará de joelhos para você também. O que tem a fazer agora, é ter o sangue de um dos Venesse... que os fracassados sucumbam – falou ele. Retirou uma adaga de dentro do manto e enfiou-a no coração de Ainion. Levantou-se e se afastou. – Cada um sabe em seu coração o que deve ser feito. Que a agonia escorra com seu sangue.

- Vai me matar também, elfo negro? Quer a batalha derradeira? – gritou Marwen.

Ela se adiantou com a espada na mão. Apontou-a para o elfo negro.

- Você matou quantos de nós?

- Vários. O primeiro foi aqui, quando minhas mãos ainda tremiam e eu não era mais do que um agricultor sem terras para arar e que chorava por perder tudo o que tinha. Foi quando minhas cicatrizes ainda ardiam e um pedaço de metal que os goblinóides enfiaram em mim ainda ardia dentro de minha barriga. Eu matei minha senhora ali. Eu a servia carregando suas coisas com essas mãos feitas para arar a terra. Quando ela chorava para a Deusa e percebi que eu precisava mais do abraço daqueles que sofriam comigo dessa divindade – contou o elfo negro, olhando distraído para onde estavam os corpos dos humanos.

Marwen ouviu um murmúrio repentino. Olhou para trás para ver Ainion diante de Alyef. O guerreiro estava com a faca que deixara fincada anteriormente no chão. Sangue escorria de seu peito quando ele enfiou a lâmina no coração do elfo ajoelhado.

- Um coração destruído para a salvação de uma fagulha de esperança – disse Ainion.

Alyef segurou a mão do amigo, sentido o próprio sangue brotar. Viu o ferimento no corpo de Ainion se fechando. Seus cabelos começaram a escurecer, assim como seus olhos. Arrancou a faca e andou até ficar ao lado do elfo negro.

Marwen olhava estarrecida. Correu até Alyef para invocar sua deusa e pedir a cura do colega.

- Não há magia que possa curá-lo. Sugiro que vá embora elfa.

Ela viu que não conseguia fechar a ferida, por mais que rezasse. Ergueu-se furiosa, com a espada nas mãos.

- Não vai querer me matar?

O elfo negro sorriu.

- Não. Se Ainion quiser, ele pode fazê-lo, mas nós só matamos vocês quando precisamos nos aliviar ou quando já estão perdidos. Vpa embora elfa, antes que seu amigo desperte...

- O quê?

Ela ouviu os gemidos. Ouviu o vento mórbido que passava pelo corpo de Alyef e sentiu a raiva dele ao ter falhado com Ainion, a raiva por não ter sobrivido ao tentar provar o erro do amigo. Havia angústia demais embaixo da fé daquele elfo. E todo aquele fracasso havia acabado de tocar sua alma quando seu amigo finalmente se rendeu a escuridão e passou para aquele lado extinguindo a luz no coração de Alyef.

- Banshee... – disse ela chorando.

O elfo negro e Ainion deram-lhe as costas e andaram para as trevas.

- Eu voltarei para caçá-lo, elfo negro.

- Espero que sim, sacerdotisa moribunda.

- Eu sei qual sua tática e como seu ritual funciona.

- Não saberá mais – disse ele, desaparecendo nas trevas. E ela não soube mais assim que deu o primeiro passo rumo a sua vingança.
Shaftiel
Enviado por Shaftiel em 08/01/2007
Reeditado em 08/01/2007
Código do texto: T34058

quarta-feira, 12 de março de 2014

Em Busca de lenora - Capitulo II

HUNC!

- Realmente não sei o que passa na minha cabeça para aceitar vir em um bairro tão sinistro e repleto de criminosos dos mais vis! Meus pés estão chapinhando em mais lama neste lugar do que aconteceria no pântano mais encharcado! Já contei dez becos repletos de olhos e lâminas que nos espiaram todo o caminho! Sinceramente, seu pai ficará demasiadamente decepcionado com você por ter vindo, menina Petra!

Caminhando mais atrás do grupo, Klauskinsk vinha reclamando desde que fora convencido em escoltar a pequena Petra junto a Luigi Sortudo até um estabelecimento aonde poderiam encontrar mais facilmente o troglodita anão que lhes forneceria a ajuda necessária para a missão.

Mesmo conhecendo o mercenário monstro, famoso nas histórias narradas em vários reinos ao leste do Reinado, assim como já tê-lo visto algumas vezes bebendo e xingando pelos mais imundos bares, o bardo teria maior facilidade para atraí-lo com Petra a seu lado, mesmo tendo que aturar o mal-humor do elfo chato com odor de tequila que se recusava a deixá-la andar sozinha por tal lugar.

No momento caminhavam em uma rua estreita, cheia de buracos e poças d’água acumulada. O céu claro mal iluminava o local, sombreado pelos prédios enormes que o cercava, também criando becos aonde vultos espiavam qualquer transeunte, sem cessar. Em certo momento passaram por áreas de dignidade duvidosa, como prostíbulos, onde meretrizes acenavam para os dois homens, ou casas repletas de mal feitores que espiavam a menina incauta e sua sacola de moedas. Apesar daquilo, Luigi seguia com seu sorriso bobo cravado nos lábios sob as abas de seu chapéu emplumado. Após entrar na rede de ruas mal cuidadas e travessas sujas, passaram entre uma multidão de seres de todo tipo esquisito correndo desesperadamente entre eles. Momentos depois um odor pior que de flatulência de abutre instigou suas narinas e embrulhou o estômago, menos da jovem Petra que desde pequena sofria de disosmia e continuou respirando normalmente. Luigi pôs o braço na frente do nariz.

- Heh! Acho que encontramos o tal baderneiro! Petrinha, fique próxima!

A menina sorriu obedecendo enquanto ajeitava a capa mágica para evitar que encostasse na lama. Finalmente chegaram. Taverna Sorriso Banguela, uma casa de madeira velha e escura com as portas abertas. Ali o odor era pior, Klaus, com seu olfato apurado graças a vida de produção de poções, evitou afastando-se e pondo um lenço com perfume sobre o nariz.

- Por Wynna, que fedor! Nem os zumbis do porão na mansão do Mestre Vladislav fedem tanto! Arrghh!

Segurando a respiração com todas suas forças, Luigi se aproximou calmamente da porta e espiou o interior do estabelecimento. Estava escuro, alguns lampiões estouraram e haviam muitas pessoas desacordadas pelo chão, mesas, cadeiras e balcão, de repente um movimento, um estouro e novo fedor nauseante, só que de pólvora. Só deu tempo de se jogar em Petra indo ao chão quando um projétil atravessou a janela e perfurou a parede do muro ao lado.

- O que foi isso? – Petra perguntou coçando o ouvido que zunia com o barulho do tiro.

- Acho que o trog baixinho está resolvendo seus assuntos! – disse Luigi rindo e desafivelando seu bandolim.



A taverna estava uma bagunça. Mesas tombadas, cadeiras quebradas no meio da correria, comida e cerveja cobrindo o chão, bêbados desacordados, pessoas pisoteadas, garrafas aos cacos e um odor pestilento que levara muitos dos clientes a nocaute, formando um carpete de corpos nauseados e inconscientes. O chapéu negro e esfolado de Snizzel surgiu por trás do balcão, com seus olhos de íris em fendas verticais espiando sob as abas. Tantos anos produzindo e cheirando pólvora e várias outras substancias chamuscadas, levara parte de seu olfato, tornando-o parcialmente imune ao fedor do troglodita que lhe caçava. Preparado para um novo tiro, procurava seu alvo, sem muito sucesso, pois o mercenário era baixinho demais, se escondendo entre os entulhos com facilidade incrível. Erguendo-se um pouco mais, mal pôde desviar quando o trog saltou detrás do corpo de um meio-orc e subiu no balcão cortando o ar na horizontal com sua foice. Aparou o golpe com o flanco de sua carabina, empurrando a foice contra ele mesmo e aproveitando para disparar sua pólvora mal-cheirosa enquanto se afastava. Por azar, pisou em uma caneca, caindo no chão e atirando no teto. Tork sorriu com seus dentes ameaçadores e investiu com a arma. A distancia, disparou a lâmina. Presa por uma corrente ao bastão, se estendeu e fincou no chão próximo do homem serpente que levantou-se e preparou o próximo tiro.



- Nem ouse apontar essa porcaria para minha fuça, malandro! – o trog rosnou puxando a lâmina de volta, correndo na direção do oponente.

- Perdão, sssó posssso me divertir com você usssando-a! – o pistoleiro chiou saltando para trás e apertando o gatilho. Uma nuvem preta estourou na frente do cano disparando um projétil numa velocidade incrível que estourou antes de chegar à Tork.

A bala não era comum. Assim que explodiu em meio ao ar, soltou um aroma doce e irritante que penetrou na narina do troglodita fazendo-o espirrar enquanto seus olhos ficavam irritados.

- Hunc! Atchim! Hunc! Atchim! PUTAQUEPARIU! Que merda é essa? Atchim!

O homem-serpente sorriu, com a língua bifurcada dançando em sua boca de lábios falsos e fendidos.

- Meusss projeteisss sssão essspeciaisss! Hisss-hisss-hisss!

Com os olhos e narinas irritados, Tork abriu a guarda, apenas muito tarde para sentir a aproximação do inimigo que lhe cortou parte da crista com uma adaga.

- PORRA, NA CRISTA NÃO!

Ignorando os olhos que lagrimejavam, rodopiou em um golpe giratório que atingiu o flanco do oponente, mas apenas lhe rasgando o manto. Ainda cego, por pouco não teve a garganta trespassada por um tiro da carabina, pois antes de tal tragédia, um som muito alto abafou o estouro, levantou todo entulho e corpo espalhado pelo chão e desviou a bala em uma onda sonora. Era um som agudo que rompeu vidro e causou certa dor aos tímpanos de Tork. Uma mão tocou o rosto do troglodita que tentou morder por reflexo seja lá quem fosse, porém, sem sucesso. Foi quando ouviu a voz macia e carinhosa.

- Calma, Tork, agora estou aqui! Vou curar seus olhos! – a voz então falou com um eco arcano em seus ouvidos – Innova kárhinos!

Uma ardência subiu o focinho do monstro mercenário, causando uma dormência relaxante pelo caminho até alcançar os olhos e nariz fazendo-o voltar ao normal e enxergar com perfeição.

- GURIA!? O que faz aqui?

- Orasss, amigosss? – Snizzel sibilou ameaçador sobre o balcão apontando a carabina na direção dos dois.

- Deixa ela fora, rapá! – Tork rosnou colocando-se na frente de Petra que agachou atrás do amado parceiro.

Enfim veio o tiro, mas não encontrou algo, foi aparado por uma nova explosão sonora aguda quando Luigi Sortudo entrou no estabelecimento.

O bardo sorria bobo.

- Parece que teremos uma peleja antes! Vamos, caro Klaus…

- Homessa! Espero que pelo menos as tequilas estejam intactas!

Klaus ergueu as mãos sobre a cabeça, girou em torno do corpo e apontou as mãos na direção do homem serpente, saltando fios de teias de aranha da extremidade de seus dedos. Snizzel desviou com um salto, preparou um novo tiro e ocultou-se atrás de uma mesa, evitando a teia de grude mágico. Tork se pôs na frente de todos.

- Ae, cavalaria! O trog anão aqui pode cuidar desse filho da puta sozinho! Hunc!

Assim investiu sobre o homem serpente que deu um novo tiro. A bala estourou no ar liberando uma breve cortina de fumaça alaranjada que o trog inspirou, sentindo penetrar em suas veias. Veneno sem dúvidas. Ignorou, cortou ao meio a mesa que o atirador usava de escudo e avançou com uma mordida contra o cano da arma, arrancando-a da mão do oponente. Snizzel deu um salto para trás e pareceu crescer, arrebentando seus trajes e criando mais escamas pelo corpo. As pernas viraram cauda, as mãos viraram garras e logo era uma serpente imensa e humanóide com braços e um chapéu preto na cabeça. Abriu a bocarra disparando um jorro de veneno ácido. Petra correu e foi protegida por um frasco de poção que Klaus lançou perto dela. O ingrediente mágico em contato com o ar fazia uma barreira de fogo, protegendo-a por completo. Logo se virou, começou a mover os braços e proferir palavras arcanas. Tork estava irritado. Levou uma surra, pisou em cerveja desperdiçada e outras pessoas apareceram para meter pau naquele que ele mesmo queria fazer o sangue escorrer.

- Ah… To muito puto!

Saltou contra o mostro ofídio descendo a lâmina contra as escamas, raspando nelas sem penetrar. A cauda o atingiu jogando contra uma mesa que se despedaçou enquanto as mãos livres lhe apontavam pistolas retiradas de coldres do cinto preso à sua cintura, assim disparou ágil contra o mercenário.

- Nueva lombaridaraa! – Petra proferiu fazendo o ar queimar e uma bola flamejante voar em direção ao monstro imenso explodindo em faíscas abundantes. O inimigo chiou.

Tork sangrava um pouco no ombro esquerdo por uma bala que lhe atingira. A lâmina de sua foice, presa na corrente, silvou no ar, mas o homem-serpente conseguiu desviar, pegando a carabina e preparando um novo disparo. O troglodita saltou desviando do projétil letal e puxou a própria arma, fazendo a parte afiada retornar com um tranco e cortando o ombro do oponente que jorrou em sangue roxo. Com a lâmina de volta em sua foice, bateu com o equipamento no chão de forma que a ponta ficou na vertical, como uma lança, e investindo contra o ser bizarro lhe enterrou no abdômen até sair pelas costas. Snizzel fez seu chiado de dor ser ouvido há muitos metros dali, mas logo parou quando Tork abocanhou seu corpo ofídio, penetrando os dentes afiados fundo na carne de cobra e arrancando as tripas com um único movimento da cabeça. O pistoleiro serpente foi ao chão inerte com os olhos mirando a morte. Klaus não resistiu e vomitou em um canto da taverna com a cena. Petra fez uma careta ao ver o amigo com as tripas na boca, achava assustador. Anos atrás teria ficado em choque, por sorte as aulas de anatomia no seu curso de necromante na Academia Arcana lhe deu maior resistência à cena. O troglodita anão mastigou as tripas e engoliu antes de se aproximar dos três visitantes.

- Guria! – falou com Petra – Quem são esses caras, e o que fazem aqui?

- Papai mandou procurá-lo, o tio Luigi pensou que eu poderia ajudar a fazer você vir com a gente!

Ela abraçou o amigo, logo assistindo a seus ferimentos com uma pinça e atadura.

- Esqueceu quem sou? – Klaus perguntou limpando a boca com um lenço após vomitar.

- Hunc! Você é o pulha boiola que serviu o mago… To falando do guri da musica explosiva!

- Ora seu, nan… - Klaus se enfureceu com a ofensa, porém Petra lhe impediu.

- Heh! Prazer, senhor Tork! Ouvi falar muito sobre você em minhas andanças! Sou Luigi Sortudo, bardo companheiro de aventuras de Vladislav Tpish!

O troglodita ponderou após um palavrão quando petra apertou demais seu machucado. Acariciou a cabeça da menina com a garra. Eles tinham uma grande amizade há tempos, ela o salvara da morte uma vez e era uma das poucas pessoas no mundo que não o tratava como um demônio verde e fedido, apesar de às vezes achar que era um bichinho de estimação para ela.

- Hunc! Lembro de tu! O mago já falou de você! Afinal, o que querem comigo?

- Temos uma proposta! Queira nos acompanhar até o Solar Tpish!

Segurando o ferimento estancado, Tork guardou a foice, que chamava de machado, prendendo-a na parte detrás do peitoral de aço. Em seguida pegou o grande homem serpente pela cauda, dando a carabina dele para o bardo.

- Pode ser, devo uma pelo mago ter dado um trato em meu machado! Levo esse filho da puta para a milícia, vocês pagam uma guaroba ae, e sigo com vocês!

O troglodita baixinho saiu porta afora com olhar ranzinza e resmungando pela péssima luta que teve. Com o gosto azedo de tripas em sua boca, sentia que a merda estava só começando a feder.
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ASS: ANTONYWILLIANS, O MAIOR ESPADACHIM DE ARTON

segunda-feira, 10 de março de 2014

Em Busca de Lenora - Capitulo I

COMBATES BÁRBAROS

  O maldito ladino era bastante esguio e astucioso. Não conseguia acreditar que se deixara ser enganado tão facilmente, agora precisava reparar sua falha antes que alguém descobrisse o erro cometido. O veloz trapaceiro halfling cruzava os corredores em passos ligeiros demais para serem alcançados, até por que o guerreiro sob uma armadura de ferro tão pesada quanto eram quase todas as dos membros da guarda imperial, ainda carregando a lança longa e o escudo, mal conseguia dar um passo mais longo sem ter sua carne rasgada pelo metal frio. Os guardas mais acostumados com a rotina de perseguições talvez já estivessem adaptados, porém era a primeira vez que Katabrok tinha que correr atrás de um alvo tão ágil quanto um kobold, e ainda por cima, usando armadura tão desconfortável.

Eles corriam pelos vastos corredores de pedra, subindo e descendo as glamorosas escadarias, através de passagens secretas e paredes falsas, entre celas repletas de prisioneiros condenados ou feras esfomeadas, além de câmaras suntuosas, contudo, nenhum dos dois tinham sucesso em seu objetivo, fosse despistar Katabrok ou capturar o gatuno. A Arena Imperial de Valkaria era enorme e moldada em um labirinto complexo de passagens secretas que somente a cabeça de um anão ranzinza que vive em um reino formado por redes de túneis escuros seria capaz de ver como casa.

- Malditas porcarias ininterruptas! – Katabrok resmungou tacando uma adaga no pequeno ladrão sem acertá-lo – Não será um primo de kobold que vai despistar Katabrok, O Persistente! Não vou permitir que ninguém descubra o que você fez!

- Então é bom correr, ou ficará para trás! – o pequeno disse sorrindo trapaceiro enquanto investia contra a parede dando uma ombrada e atravessando quando esta girou, Katabrok veio logo em seguida, parando diante da entrada que voltava a ser nada mais que uma parede sem sinais de passagens.

- Malditas porcarias ininterruptas! – avançou sobre a parede com o ombro também, bateu contra a solidez impenetrável e foi ao chão sem abri-la. Tentou mais uma vez, mirando mais para o lado direito, e ela girou jogando-o de queixo do outro lado – Pior que magia, só essas coisas falsas que enganam Katabrok, O Crédulo!

O roubo acontecera há poucos minutos. Katabrok permanecia estacionado na frente da porta trancada que levava ao baú com o prêmio do torneio de gladiadores daquele dia. O bárbaro conseguira bico no emprego graças à ajuda e influência de seu famoso amigo Vladislav, o necromante lecionador de necromancia na Grande Academia Arcana, e assim assumira a armadura da guarda imperial protegendo algo que pedia extrema responsabilidade e inteligência, todavia, a última virtude lhe era escassa. O trombadinha lhe enganara direitinho, fantasiado com uma armadura de isopor pintada “fielmente” como a de aço e com uma lábia astuciosa, logo o convencera de que realmente era um guarda enviado para levar o prêmio a fim de apresentá-lo na arena. Apenas o destino lhe desvendara a verdade, quando Katabrok lembrou que naquele mês nenhum halfling guarda imperial havia sido designado para a Arena, na realidade, nunca viu um halfling na guarda real de Valkaria, o que é bastante previsível. Agora devia recuperar o pequeno baú que o salafrario carregava antes que os patrocinadores dessem por sua falta.



O túnel em que estavam agora era extremamente apertado e escuro, as tochas que havia ali estavam repletas de teias de aranha, como pôde sentir ao tentar pegar uma. Não resistiu a soltar uma exclamação nem um pouco educada. Assim que conseguiu acender com um fósforo falho, pôde ver a silueta do ladino ao longe, correndo com a pernas diminutas e hábeis, não podia perdê-lo e seguiu logo atrás. “Ele deve conhecer muito bem a arena! Entra por passagens secretas como entraria em portas abertas! Sem dúvidas já conhece o mapa do lugar! Melhor tomar cuidado com isso!”. Katabrok prendeu a lança às costas e retirou seu mangual de batalha preso às costas, na fivela.

Correram brevemente até que pôde sentir que subiam uma espécie de ladeira… para onde estavam indo? Ignorando a curiosidade, o guerreiro apertou a corrida e logo estava quase em cima do maldito halfling. Foi quando passaram por uma alavanca que ele acionou e o teto começou a elevar-se fazendo entrar uma cascata de areia fina e poeira junto à luz intensa. Sons de metal batendo incessantemente, brados de guerra, gritos de dor, estalos de ossos sendo partidos, multidões ovacionando, cantigas homenageando e muita luz misturada com um cheiro forte por pouco não fizeram o guerreiro desmaiar pela tonteira. Quando se acostumou, procurou pelo chão para encontrar o que o fizera chegar ali, mas não havia nem rastro de passagens, então recebeu uma trombada de um corpo trespassado por dezenas de flechas. No mesmo instante Katabrok se deu conta de onde foi parar.

- Malditas porcarias ininterruptas!! Como vim parar no picadeiro de combates da Arena Imperial???

...

A Arena Imperial é uma das maiores maravilhas arquitetônicas de Arton, assim como maior anfiteatro para espetáculos em todo o mundo. Feita inteiramente de blocos de mármore sobrepostos como apenas a raça anã seria capaz de erguer, sem precisar de cimento ou qualquer material para mesmo fim, trazia uma arquibancada monstruosa de quatro andares capaz de comportar até vinte mil espectadores em toda sua extensão, e, não raramente, ainda assim permanecia lotada ao menos duas semanas por mês. Entretanto, os mais notáveis comumente não se encontravam misturados à platéia que urrava, vaiava, ovacionava, suava, bradava técnicas de luta, xingava os combatentes, espremiam-se para assistir aos melhores momentos e por vezes ficavam mais ativos que os próprios gladiadores. Os mais ilustres ocupavam camarotes de visão privilegiada sobre os combates, diretamente sob o enorme Pavilhão Imperial, aonde apenas a família real e os convidados desta podiam assistir, sentados em luxuosos sofás ou almofadas aromatizadas e sob panos coloridos e tapeçarias com o símbolo do reino ou a imagem do regente.

Uma vez por mês o Imperador Rei Thormy surgia em seu manto real, com os belos bigodes negros e pose heróica acomodando-se no trono almofadado de seu pavilhão coberto de toldos, ao lado de sua esposa, a rainha Rhavana. Era um momento em que a família imperial se aproximava de seu povo, tornando-se mais íntima e carismática, partilhando o lazer com seu povo súdito.

- Mera ilusão conjurada por um mago da corte de Deheon! – Vladislav alegou a Leon Galtran que via-se maravilhado em estar passando tão perto daquele ser altivo que mesmo sendo mortal, parecia acima dos homens normais, por sua capacidade de reger todo o Reinado – O Imperador Rei tem problemas maiores a resolver do que se prender à jogos de morticínio puro e simples!

Leon fez uma careta de decepção enquanto o pequeno Tarso ria, sem emitir som e só com as mangas flutuantes em frente à caveira. Eles desciam uma escadaria ao lado do Pavilhão Imperial, em direção à entrada para um dos camarotes.

- Yikes! Já lhe disseram que é um estraga prazeres, amigo Vlad?

- Tantas vezes quanto já salientaram que represento um verdadeiro modelo de lúcido exemplar! – o necromante expressou um sorriso matreiro enquanto passavam pelas persianas do arco de entrada para o belo camarote espaçoso com sofás em um canto, uma mesa com banquete aonde alguns nobres pomposos se serviam e um parapeito espaçoso para assistir aos combates.

Leon assim que pisou em lugar tão importante, correu como uma criança para experimentar a melhor visão das pelejas. Seus olhos brilhavam encantados enquanto Vladislav relaxou os ombros, adentrando com comedimento e cumprimentando alguns condes e barões que conhecia. Desde que era pequeno, Galtran sempre sonhara em estar ali, e quis durante toda sua vida trazer seu filho Sandro para ter aquele gosto, porém, a vigília era austera ali envolta, impedindo casuais tentativas de infiltração. Após algum tempo no camarote até sentiu-se incomodado com o número de guardas que entravam e saíam examinando cada detalhe com olhares tão aguçados quanto de aves de rapina. Acima de tudo, ele ainda era o criminoso mais procurado em todo Reinado, sua vantagem era desconhecerem seu rosto.

- Espero sinceramente que se sintam bem acomodados, senhor Tpish! – disse o homem robusto em trajes verdes fazendo leve mesura – Raramente o encontro ocupando nossas acomodações durante os torneios de gladiadores!

- Certamente, Alfradan, não me simpatizo muito com esta espécie de espetáculo!

Alfradan Girard, ou “Al”, como é mais conhecido no circulo das lutas de arena, é um dos membros da guilda que coordena os acontecimentos da Arena Imperial e empresário pessoal de algumas estrelas dos combates, como a meio-elfa, Loriane. Influente, sádico, esperto e ambicioso são seus melhores adjetivos. Adorava bajular aqueles que pagavam boas sacolas tilintantes de tibar para acomodarem-se no camarote nobre.

- Ora, senhor Tpish, espero que o espetáculo de hoje lhe mostre o verdadeiro gostinho do som no encontro de duas gládios, logo estaremos trazendo uma quimera para apimentar as coisas! – Al sorriu burguês ajeitando sua boina.

Tarso se aproximou do companheiro ladino e observou os combates até que apontou algo em meio às pelejas. Ao ver também, Leon ficou confuso e permaneceu observando com mais atenção como se quisesse ter certeza se via realmente o que pensava que avistava. Vladislav cansou-se das adulações e esquivava-se das palavras do empresário de gladiadores.

- Perdoe-me, Alfradan, contudo, há possibilidade de me alegar em que área poderia encontrar um caríssimo companheiro meu? Creio que ele esteja servindo de guarda para a Arena hoje! Seu nome é…

- Errr… Vlad, a Arena atualmente tem o costume de enviar guardas imperiais para os combates? - Leon indagou interrompendo-o.

Vladislav sentiu-se desconcertado com a pergunta, porém, Al adiantou-se.

- É óbvio que não, e guardas imperiais só interferem para impedir que as coisas saiam do controle, senhor… err… Perdoe-me, mas acho que não me disse seu nome, senhor!

- Por que a súbita indagação, caro Leon? – Vlad caminhou até a murada e viu o guarda que corria em meio aos combates acertando gladiadores que avançavam sobre ele, enquanto o mesmo parecia tentar alcançar um pequenino ágil. Galtran e o necromante se entreolharam – Tenho um mal pressentimento!

- O QUE AQUELE IDIOTA ESTÁ FAZENDO? – Alfradan bradou ao ver o guarda tropeçando em meio à poeira do pátio de combates.



Katabrok cuspiu toda areia que se alojara dentro de sua boca quando tropeçou em um corpo inerte que estava em seu caminho. A terra tinha um gosto péssimo misturado ao sangue e suor que os combatentes exalavam. O bárbaro ficou realmente confuso, depois de parar ali por acidente, não sabia o que fazer e aquela multidão de prisioneiros armados pareciam ter-lhe feito de alvo, afinal, trajava a armadura dos guardas que tinham por ofício caçá-los e prendê-los nas mais imundas masmorras. Os gladiadores vestiam roupas praticamente simbólicas, a maioria trazia o peito nu e usando apenas tangas ou saiotes, expondo sua anatomia e protegidos apenas por elmos ou braçadeiras. Nas mãos, armas de verdade. Um homem de olho esquerdo arrancado e ainda sangrando pelo orifício horrendo, com seus fartos cabelos negros tomados por terra, avançou sobre ele com uma rede enquanto bradava alto. Katabrok cuspiu para o lado e não viu jeito a não ser revidar, pisou forte com o pé esquerdo apoiando seu corpo todo para uma forte rasteira com a perna direita. O homem saltou sobre ela e o bárbaro atrapalhado acabou preso na rede que foi lançada, em seguida o homem investiu com um tridente pontiagudo.



- Malditas porcarias ininterruptas, como Katabrok, O Agourado, veio parar nesta maldita situação? – ele resmungou jogando-se ao chão para evitar o golpe.

Com os músculos enrijecidos, saltou desembainhando sua espada bastarda, aparou novo ataque do tridente deixando sua lâmina entre os dentes do equipamento inimigo, e com um empurrão desarmou o gladiador que lhe jogou areia no rosto. Por sorte Katabrok fechou os olhos e investiu como um touro cortando-lhe o peito e dando um encontrão que jogou o homem longe. Ouviu um mugido alto atrás dele, quando se voltou assustado foi atingido no quadril por uma cabeça imensamente forte com chifres quebrados. Girou no ar e caiu de barriga no chão cuspindo um pouco de sangue. Era um minotauro prisioneiro e entregue à sede de vingança contra a guarda. Katabrok amaldiçoou aquele dia enquanto rolava o corpo esquivando dos cascos do monstro que aterrissaram por pouco no lugar em que estava sua cabeça. Com um salto ergueu-se girando seu mangual que o monstro tentou aparar com a mão, porém, acabou perdendo o membro que terminou esmagado. A arquibancada foi à loucura, rosas choveram sobre o miliciano embananado. Desconcertado, se levantou e viu a vida passar na frente de seus olhos quando duas flechas assoviaram palavras de morte próximas a seus ouvidos. Um combatente ao longe disparava com um arco hábil, por sorte devia ter sido ferido na perna, pois mancava, dificultando uma boa mira. O minotauro voltou segurando o braço decepado de um cadáver, Katabrok impulsionou-se nas pernas detrás e investiu com velocidade portando uma espada bastarda em punho, cortou mais ainda o braço que o oponente usava como arma, rompeu um broquel ao meio junto ao pescoço de um gladiador elfo no caminho, trespassou avançando sobre o arqueiro que atirou mais uma flecha, que por sorte atingiu um guerreiro que passou na frente e quando pôde ver, Katabrok estava sobre ele de mãos nuas pegando o arco com tal violência que o partiu ao meio enquanto a outra mão lhe pegava a cabeça para bater no peito de aço de sua armadura, levando o atirador à nocaute.

Novos assovios, ovacionação da platéia e rosas choveram sobre ele. Inveja e ódio… isso que era visto queimando nos olhos dos demais gladiadores. Katabrok sorriu amarelo, até que estava gostando de lutar um pouco. Foi então que avistou o diminuto salafrario halfling com o baú do prêmio, correndo em meio às armas e corpos em busca de uma escapatória. O bárbaro agachou esquivando de um soco monumental do braço sadio do minotauro, e saltou sobre o pequeno rolando com o mesmo pelo chão. O gatuno soltou o baú. Então um imenso e alto rugido ecoou pelo pátio de combates levando a arquibancada a bradar muito alto em excitação.

- Katabrok, O Vitorioso, sente que esse som não foi emitido por nenhum felino com menos de três metros!

Assim que viraram o rosto, tanto bárbaro quanto halfling depararam-se com a grande jaula que surgia do chão por uma passagem elevadiça no solo, aonde uma quimera enorme os espreitava com suas cabeças de leão, dragão e bode, todas bastante esfomeadas e furiosas.

- Malditas porcarias ininterruptas! – os dois disseram em coro quase às lágrimas de desespero.



- Como estou lhe dizendo, prezado senhor Tpish, não posso simplesmente retirar aquele guarda atrapalhado do meio da arena! Ele luta bem, a platéia gosta dele e se for “salvo” sairemos, a Arena e a milícia imperial, desmoralizados! – Al alegou ainda sorrindo burguês enquanto atravessavam as escadarias no interior do colisseu.

Vladislav franziu o cenho e ajeitou o cabelo engomado. Forçava sua mente em descobrir um meio diplomático fácil para convencer o empresário em retirar Katabrok do meio da Arena antes que causasse mais problemas. Alfradan por instantes quase teve um ataque de fúria ao ver o bárbaro entre os prisioneiros que digladiavam, contudo, após assistir sua habilidade nas lutas e a emoção do público, percebeu quão bom para seu bolso era aquele fortunoso acaso.

- Mas tem uma quimera na arena agora! – Leon adiantou-se recebendo um olhar repreensivo do companheiro conjurador que se mantinha imerso em raciocínios.

- Sim, a mesma que anos atrás ele libertou acidentalmente, fazendo a milícia procurar por quase toda a capital! Leona guarda remorsos por ele desde aquele dia! Será um reencontro incrível! – Al imaginou quanto faturaria por aquele “bônus” do show.

- Deve haver algum meio de interferir em tal equivoco, Alfradan! – Vladislav tentou uma última vez com um tom negociador.

Como um bom burguês, Al analisou a situação brevemente. Quais possibilidades haveriam e o que lhe traria mais sucesso? Vladislav e Galtran ficaram apreensivos, observando o homem gorducho que coçava o queixo em meio a um sorriso pervertidamente ambicioso. Enfim, chegou a uma conclusão.

- Seu companheiro aqui… - apontou para Leon –… é algum tipo de combatente?

- YIKES!!??



Os gladiadores recuaram instantaneamente para próximo do fosso, poucos foram os que gargalharam da situação brandindo armas, como foi o caso do minotauro. A quimera não era tão grande quanto seu rugido amedrontador parecia dizer, possuía apenas o dobro do tamanho humano, corpo e cauda leonina, uma cabeça de leão, outra de bode e outra de dragão de escamas vermelhas. Era amedrontadora e possuía um olhar selvagem que encarava cada combatente como se fossem nada mais que alimentos. De súbito avançou sobre a grade quase arrebentando a tranca que a prendia. Katabrok e o halfling estavam acuados, andando lentamente para trás. Uma tossida do bárbaro chamou a atenção da criatura que rugiu até o chão tremer com a bocarra de leão enquanto as narinas de dragão soltavam vapor aquecido. Como que se tivesse entrado em uma fúria intensa, o monstro avançou contra as barras de ferro arrebentando-as, tombando e logo levantando-se novamente para investir na direção de Katabrok. Incomodado pela armadura, o bárbaro lançou longe a parte da cintura para baixo e correu em disparada enquanto desafivelava o peitoral. O halfling tentou escapar, porém acabou recebendo uma patada que o jogou dentro do fosso. O minotauro bufou e saltou sobre a fera com seu tridente apontado, a cabeça dracônica mordeu o cabo, desarmou-o e por pouco o ser taurino não foi atingido por uma patada.



- Muuuhuhuhuhu! Ninguém irá deter Gaio Samnita, maior mercador de servos desta região! – o minotauro bradou ignorando a dor que sentia em sua mão esquerda esmagada.

Katabrok correu na direção dos outros lutadores e apontou as fivelas.

- Tirem a minha armadura, e podem usá-la se quiserem! – disse tentando empurrar o aço até sair tamanho pavor que sentia de ter que lutar usando aqueles trajes desconfortáveis.

Os gladiadores entreolharam-se e não demorou para combaterem entre si para saber quem tomaria posse das partes de aço. Katabrok interfiriu na mesma hora.

- Tirem e depois se matem, Katabrok, O Alvo, não deseja morrer enlatado aqui!

Os lutadores quiseram bater no guarda imperial, entretanto, ao ver a aproximação do monstro que urrava mergulhado em ira, puseram-se a despir a armadura de Katabrok, que livre, de peito nu e calças de couro, iniciou uma fuga perseguida pela quimera. De repente o monstro parou e sentou-se, a cabeça de bode parecia ter… engasgado com alguma coisa (?). Ela tossiu seco ininterruptamente, balançou a cabeça, forçou a garganta e enfim saiu a coisa verde, pequena e repleta de saliva.

- TASLÓI?

- Oir chersfi, ur monstru mi engurliu dirpois di abir a jaura! – disse a criatura verde, peluda e pequena como um goblin, de orelhas pontudas com brincos, nariz alongado e sorriso de dentes amarelos. Este ser de raça indefinida era o escudeiro e maior amigo do bárbaro Katabrok, quando este último conseguiu o emprego de guarda real dentro da Arena, Tasloi foi convidado para faxinar os corredores e ajudar na alimentação de prisioneiros e feras, mas como é perceptível ele é tão atrapalhado quanto seu parceiro musculoso.

A arquibancada observava estupefata a cena, e logo elevou os braços junto à inúmeras exclamações quando a cabeça de dragão vermelho vomitou uma onda de labaredas que consumiu a terra correndo em direção aos dois. Katabrok agarrou o braço do companheiro verde e arrastou-o consigo, com as chamas chamuscando um pouco suas vestes. Após o sopro, virou-se com seu mangual e investiu sobre a fera, saltando sobre ela e girando a imensa bola de ferro, pronta para esmagar a cabeça de bode, contudo, bastou um urro bestial da cabeça leonina que o golpe foi interrompido e o homem recebeu uma patada sendo arremessado longe com um arranhão da pata queimando seu peito nu. A multidão foi à loucura. Tasloi disparou velozmente na direção do parceiro para assisti-lo, salvo pelo minotauro persistente que tentou uma chifrada bem sucedida contra o queixo do dragão que esperava um novo sopro. Com a boca fechada repentinamente quando ia expelir, todo o cone de fogo explodiu dentro de sua boca. Não que lhe tivesse causado dano, todavia, o deixou tonto por momentos. A pata traseira jogou areia no rosto do bovino antes de fugir do lutador.

- Cherfi! Cherfi! – Taslói falava seu Valkar agressivamente errado e sacudia Katabrok que estava levemente desacordado, ainda sangrando um pouco pelo peitoral nu. Em pouco tempo o bárbaro começou a recobrar a consciência e ao sentar-se com a mão na cabeça que girava, a arquibancada foi à loucura.

- Taslói!!! O que está fazendo aqui? Ora, deixemos isso para depois! – o bárbaro levantou cambaleando e desembainhando a espada bastarda que trazia à cintura – Agora Katabrok, O Domador de Feras, irá cuidar dessa besta!

No mesmo instante sua perna cedeu e foi ao chão novamente, havia sido bastante ferido com o último golpe. A fera monstruosa então se voltou para os dois e correndo em rugidos, avançou com a cabeça de bode mirando uma chifrada que os jogaria na arquibancada, porém, algo zuniu no ar, houve um estalo e uma rede envolveu as cabeças, prendendo-as por algum objeto pesado preso ao chão. Tasloi não demorou muito para achar o motivo do aparato e apontou para seu parceiro. Katabrok arregalou os olhos, aquela arma pertencia a apenas uma pessoa.

- Yikes! Primeira vez na arena como gladiador e já devo combater uma quimera enfurecida?

- Kobolds me mordam, tio Leon? – Katabrok bradou quando Leon Galtran entrou na arena ajeitando suas luvas de ladinagem para o embate que estava prestes a inserir-se.



Realmente, não havia outro meio legal de retirar o parceiro abrutalhado do meio das lutas senão acabando com a batalha de gladiadores. A proposta de Al era permitir que Leon fosse ao picadeiro de combates e assim ajudar o guarda inconveniente a derrotar Leona, a quimera. Sem saídas, Vladislav concordou contanto que o ladino pudesse ir com sua arma própria, o Kailash, um equipamento mágico criado por halflings que desde o dia que fora presenteado ao companheiro se tornou sua arma favorita. Alfradan sentiu-se bastante descontente com a proposta, afinal a maioria das armas na arenas não tinha ponta ou possuíam pouco fio, para que os combates durassem mais. Nada que uma boa lábia de um homem influente como Vladislav resolvesse. Agora o jovem de cabelos castanhos revoltos pisava na areia manchada de sangue e suor da Arena Imperial. Nunca se imaginara ali, desde pequeno assistia aos torneios como um fã, todavia, jamais se imaginou sendo assistido, principalmente agora que teoricamente deveria estar oculto já que era o homem mais procurado em toda Arton. Como as pessoas nunca imaginariam que o criminoso mais caçado pelos mais poderosos mercenários estaria ali diante de todos, pedia que Nimb apenas rolasse bons dados para que todo mundo se preocupasse mais com as batalhas e menos com sua aparência.

- E TEMOS UM NOVO GLADIADOR NA ARENA, TREINADO POR ALFRADAN GIRARD, O GRANDE LEON!!!! – a voz aumentada magicamente do narrador do torneio comentou para a arena.

A arquibancada surpreendeu-se, fazendo “ôlas” com seu nome. Leon estava constrangido, sinceramente a última coisa que um gatuno quer é chamar a atenção. Katabrok veio andando em sua direção segurando o peito arranhado, parecia já ter se recuperado da dor que o monstro lhe causara, o pequeno e exótico Taslói o acompanhava segurando uma espada de lâmina curta e cintilante.

- Tio?

- Sim, pequeno Katabrok… - era como Leon chamava seu sobrinho - … eu e Vladislav viemos buscá-lo, precisamos conversar um assunto, mas antes vamos ter que acabar com este torneio!

Leon ergueu a mão sobre a cabeça e a rede soltou a fera enquanto o equipamento voou até sua mão. Era um globo de ferro do tamanho de um punho fechado, com espinhos e uma corda similar a de uma funda. Leona, a quimera rugiu erguendo-se após livre novamente. A cabeça de dragão sacudiu espantando toda tontura, rugiu com a bocarra bem aberta soltando faíscas e começou a sugar o ar para um novo sopro de fogo. A platéia prendeu a respiração. Katabrok tinha uma idéia, logo segurou Taslói pelo colarinho e o arrastou enquanto corria até o monstro. Leon disparou para o lado contrário. A cabeça de dragão soprou as brasas crepitantes, neste momento Katabrok jogou Taslói na cara de bode que assustou-se, recuando o corpo e surpreendendo a cabeça dragônica que engasgou com o próprio fogo, tossindo sem ar e queimando pelas narinas, Katabrok saltou com o mangual preparado que desceu pesado contra a cabeça leonina de Leona, não a esmagou como era o propósito, porém a deixou tonta. Leon segurou a kailash pela corda, girou até zunir e soltou-a atingindo o focinho do dragão que liberou o fogo preso em sua garganta, porém queimando as outras duas cabeças. Taslói às costas do monstro passou uma corda enorme de escalada envolta do pescoço de bode como um garrote que lhe retirava o ar. A quimera foi ao chão e as arquibancadas ergueram-se em vivas e aplausos jogando tibares dourados e prateados.



- Esperem! – um dos gladiadores bradou se aproximando dos três e fixando o olhar em Leon. Era um homem alto, musculoso, com o rosto encoberto por um elmo de péssima qualidade e formato reptilineo, ele trazia um broquel de aço no braço esquerdo, uma rede na mão direita e uma espada curta embainhada na cintura – Eu o conheço…

- Ah, não conhece! Heheh! Devo parecer com alguém muito conhecido seu! – Leon já imaginava o que ia acontecer.

- Não, eu tenho certeza que é você seu maldito! – a voz do homem se tornou mais áspera – Meu pai, Sir. Louis Dartha’nan, Cavaleiro da Ordem Justa o caçou a vida toda e morreu com seu cartaz nos braços graças a uma armadilha que você deixou naquela floresta! Hunf! – o gladiador já bufava, e Leon apenas afastava-se andando de costas, acuado. Não desejava problemas.

- Ah… err… bem, não sei sobre que armadilha está dizendo, senhor… - realmente não sabia, isso era comum: surgir um eventual vingador que o culpava por coisas que nunca fizera somente por um parente seu ter morrido em um contexto de caçar o prêmio exorbitante que tinha por sua cabeça.

- Claro que sabe, maldito! Você é o maior procurado do Reinado, reconheceria teu rosto em qualquer lugar! Por sua causa me tornei um caça-prêmios após minha família ter caído em desgraça por meu pai que o procurava, Galtran!

A arquibancada não era capaz de ouvir o que conversavam no meio do picadeiro de combates, porém, os outros gladiadores ouviram o sobrenome nitidamente. Alguns instantaneamente lembraram da similaridade com o rosto dos cartazes e outros apenas viram uma oportunidade de serem libertos e ainda ficarem repentinamente ricos como heróis, mesmo que nunca tenham visto o procurado nenhuma vez na vida, nem em cartazes. Armas em punhos, passos de quem dará o bote, ameaça iminente e confusão na certa.

- Você é Galtran! – o homem repetiu.

- Ah sim, esse é meu tiozão, mas não acho que ele tenha feito isso com seu pai! O tio Galtran é um cara legal! – Katabrok abraçou o parente sorridente, Leon sorria de nervoso procurando a primeira rota de fuga.

- Pequeno Katabrok… err... Você não está ajudando! Em boca fechada não entra fada!

Os gladiadores investiram de armas em punho. Taslói, Katabrok e Leon se prepararam para os nove lutadores sedentos por sangue e ouro. O primeiro disparou uma flecha de longe, contudo, sem acertar nenhum dos três. Taslói correu em subterfúgio para trás do corpanzil da quimera nocauteada. Leon lançou a kailash que soltou sua rede envolvendo dois gladiadores, só que teve de trazê-la de volta no exato momento quando esquivou de uma maça que lhe descia pelas costas em um ataque furtivo de um homem de pele escura e metade do rosto queimado. Seu desvio impressionou a platéia, era como se tivesse o feito como sexto sentido e um corpo mais esguio do que parecia ser. Katabrok correu aparando uma espada, forçando para a lâmina do oponente erguer-se abrindo uma guarda, assim lhe perfurando o abdômen para em seguida trespassá-lo girando o corpo e encontrando o broquel de outro. Fez uma fissura no escudo, só que ficando com a espada presa. O oponente aproveitou a oportunidade para desferir-lhe o cabo do tridente, Katabrok abaixou a cabeça, deu uma rasteira no homem e preparou para um golpe de misericórdia com seu mangual. Uma nova flecha foi disparada, mirada nas costas do bárbaro, todavia, um ágil tridente aparou-a. Era um cavaleiro surgido de em meio a um clarão branco, montado em um imenso alasão, a luz prateada ofuscava um pouco a visão de todos, até que a arquibancada bradou com todo timbre da voz até o chão tremer.

- Por mil kobolds fêmeas, quem será que… - Katabrok ficou boquiaberto pelo encanto da beleza do ser.

- YIKES! Loriane???



- A cavalaria chegou! – Alfrandan alegou com sorriso amarelo para Vladislav que estava surpreso.

- Hah! O que você não faz para dar um bom combate para estes clientes, não é, Alfradan?

O necromante e seu parceiro Tarso estavam no camarote assistindo àquilo tudo. Vlad mal podia acreditar quanta trapalhada havia ocorrido, porém tinham de ser ágil para encaminharem-se o quanto antes para a missão de recuperar Lenora. Um anão conde idoso, com um exótico topete, bigodes fartos, barba com apliques de fios de ouro, trajes púrpuras e monóculo cravejado com esmeraldas, observava as pelejas, sobre um banco para melhor alcançar a murada. Tinha um interesse soberbo.

- Deveras surpreendente como seu parceiro aparenta com aquele lendário ladrão procurado, o tal Galtran! Não é senhor, Vladislav! – a voz do nobre se perdia às vezes pelas complicações de respiração trazidas com a idade mais avançada.

- Sim, amigo Conde de Jonniest, deveras similar! – Vlad sorriu bonachão.

- Ah, perdoe-me, venerável conde, posso afirmar que o senhor Leon não é o homem mais procurado do Reinado! Jamais o senhor Vladislav andaria com alguém desse tipo! – o necromante sentiu-se incomodado com a afirmação – Na verdade, há dois anos o filho do lendário Galtran infiltrou-se na Arena Imperial para roubar um grande prêmio nosso, o Rubi da Virtude, chegou a combater no torneio e vencer! Era um exímio combatente, aliás! Não conseguimos capturá-lo, pois era um rapaz muito esguio, sumindo nos corredores como se tivesse escapado entrando nas sombras! Sandro Galtran era seu nome todo, se não me engano…

O conde ficou boquiaberto com a história, arrependido de naquela época ter tido que viajar para Nova Ghondriann a fim de resoluções diplomáticas, mas não ficou mais pasmo que o necromante que nunca soube sobre o fato do filho de Leon, Sandro, ter participado das lutas de gladiadores.



As pequenas orelhas pontudas e seus traços bem desenhados denunciavam seu sangue bastardo, de humana e elfa; os olhos bem trabalhados e quase felinos traziam uma tonalidade azul clara como duas pequenas gemas de safira que fascinavam quem os mirava, e trazia os longos cabelos de fios dourados presos em uma trança que ia até a altura de seus joelhos. Sem dúvidas Loriane parecia uma deusa da beleza e guerra. Maior estrela das arenas da grandiosa capital, a gladiadora arrancava suspiros luxuriosos dos rapazes e o aplauso da platéia. Seu maior charme era sua montaria, um unicórnio de grande porte, chifre cônico, com baixo relevo espiralado e um brilho mágico incomum, o eqüino mítico era o símbolo de sua pureza e virgindade intocada. Leon ficou sem ação ante as curvas daquela linda mulher de olhares selvagens, pensamentos combativos e certeza do próximo golpe no espetáculo. Boquiaberto, mal percebeu quando uma rede o envolveu e uma ponta de espada veio na direção de suas costas. Ao perceber, a meio-elfa aparou o golpe com um tridente desequilibrando o oponente e despertando o rapaz do transe. Com um reflexo ágil, Leon pegou uma espada próxima e com maestria aparou uma nova investida.



- É melhor tomar mais cuidado quando invadir o picadeiro! Nunca mais apareceu, querido Sandr… - a meio elfa parou por um instante observando o homem, era idêntico ao Sandro Galtran que conhecera anos atrás quando o mesmo apareceu magicamente no meio de uma batalha sua contra Leona – Mas quem é você???

- Yikes! Parece que conheceu meu filho moça! – “menino de sorte”, pensou consigo brevemente – Prazer, sou Leon Galtran, só não espalha o sobrenome!

Foi a vez de Loriane ficar boquiaberta. Katabrok saltou sobre um outro lutador, sua lâmina bateu na guarda da arma inimiga, fazendo o gladiador de moicano soltar sua espada curva abrindo a guarda para uma oportunidade de aplicar-lhe um soco no abdômen e nocauteá-lo. A ilusão do Imperador Rei e sua esposa ergueram-se do trono e caminharam até a borda do pavilhão como um titãs em beleza e poder, dando passos reais que silenciaram a multidão, o manto do Rei Thormy, confeccionado em pêlo de grifo albino, reluzia com a luz emanada da coroa imperial presa em seus cabelos, levantaram as mãos à frente do corpo e aplaudiu cinco vezes em um ritmo nobre. Leon pôde reparar melhor na aparência sedutora da rainha Rhavana, uma mulher de meia idade, olhos carinhosos e ousados, cabelos vermelhos presos em um coque e trajando uma armadura de batalha que lhe valorizava as curvas. A multidão se entregou à vivas, palmas, assovios e mesmo algumas brigas entre torcidas organizadas. Novamente uma ação do imperador, este esticou a mão, só que fechada, o braço esquerdo fazia gestos para a platéia que repetiu o primeiro movimento esticando a mão e fazendo um sinal positivo com o dedão para então abaixá-lo em significado negativo, o Rei Thormy (ou sua ilusão no caso) reproduziu o aceno. Katabrok ficou desconcertado e mandou um “legalzinho” para todo mundo nas arquibancadas.

- Eles pedem que finalize o guerreiro caído, é uma ordem do Imperador! – Loriane lhe disse enquanto voltava a montar em seu unicórnio.

- Katabrok, O Piedoso, acha isso muito desonroso! – então jogou sua arma no chão e lançou uma rosa sobre o homem nocauteado por seu poderoso punho, antes de mandar uma piscadela, sorriso de canto e outro “legalzinho” para o alto. Apesar de ir contra a vontade dos espectadores foi ovacionado a berros histéricos e moedas que choviam sobre o picadeiro. O Imperador Rei aplaudiu com comedimento e sorriso antes de voltar a seu trono.

Leon até que achou interessante a vida de um gladiador, porém, caso demorasse muito, Luigi ficaria furioso pela negligência de seu comprometimento, sem contar os sermões do parceiro necromante. Faltavam sete a derrotar ainda. O que tinha posse do arco e flecha afastou-se o máximo que pôde e começou a arremessar armas caídas pela arena para economizar seus projéteis. Parte do cabelo de Katabrok foi cortado por uma adaga, Leon aparou uma espada bastarda que vinha em sua direção, girou a kailash e lançou. Loriane teletransportou-se para trás de um homem ágil que tentou aparar o trajeto do equipamento e lhe aplicou um coice de sua montaria que bufou como se risse. A kailash abriu uma nova rede e capturou o arqueiro, mais que isso, arrastando-o para longe como se ignorasse a resistência de seu peso, depois desfez a rede e voltou às mãos do ladino que apertou um certo espinho enquanto o girava e fazendo o espeto superior e inferior de ferro crescer imensos, ficando como uma lança.



Leon a segurou e fincou contra o tronco de um gladiador em posse de uma maça, contudo, sem muito sucesso, este, diferente dos demais que enfrentava, trajava um peitoral de aço resistente, ombreiras, manoplas e um elmo partes de uma armadura da guarda imperial.

- Yikes! Mas como ele conseguiu um traje desse? – perguntou pasmo enquanto saltava para o lado desviando da maça que lhe romperia os ombros.

- Por mil kobolds pernetas, me perdoe tio Leon, culpa minha! – disse Katabrok batendo um elmo na cabeça de um oponente e logo em seguida recebendo um chute contra suas costas.

- Novidade… - Leon resmungou.

O Ladino correu para a esquerda enquanto o homem de armadura tentou alcançá-lo, sem sucesso pelo impedimento que a armadura causava a seu torso, balançando desajustada ao corpo. Fazendo a Kailash retornar a ser um pequeno globo de ferro espinhoso, a girou e lançou contra o oponente com toda força. O gladiador esquivou e jogou sua maça, rapidamente Leon pegou um broquel de aço sujo de sangue no chão e recebeu a arma projétil, fazendo-o cair no chão desequilibrado pelo choque do golpe. O inimigo pegou a própria espada e ergueu-a preparando para enterrá-la no peito do ladino.

- O cartaz diz vivo ou morto! – o oponente comentou sádico.

- Você ou eu? – Leon fez um sorriso maroto quando a Kailash retornou atingindo seu algoz pelas costas com tamanha força mágica que lhe rompeu a armadura e jogou metros dali até próximo da meio elfa que se teleportou com a montaria e ao reaparecer aplicou um coice no homem derrotado.

Taslói finalmente apareceu e correu em círculos, envolta dos oponentes numerosos. O arqueiro recuperou o fôlego e sentado na areia disparou uma flecha atingindo o ombro de Loriane que tombou e rolou na grama, a platéia perdeu o ar, assim como Alfradan. O sorriso amarelo do arqueiro mudou quando o unicórnio bufando ferozmente lhe deu uma cabeçada no tronco, perfurando o peito e jogando dentro do fosso envolta do picadeiro, para então retornar com teleporte para servir de montaria para sua dona e assisti-la quanto ao machucado.

- Cherfi, arfasta todu mundu! – Katabrok foi o único que entendeu aquelas palavras tão erradas, lançando-se sobre Loriane, e correndo com a mesma nos braços.

- Katabrok, O Cavalheiro, informa que todos devem recuar! JÁ PARA TRÁS DA QUIMERA!!!

Leon estava atordoado com a pressa do sobrinho, foi então que o unicórnio de Loriane apareceu passando a seu lado, ele tentou montar, sem sucesso com o eqüino mágico lhe dando um sanafão com os pêlos da cauda lhe acertando o rosto. Assim que estavam todos atrás do monstro desacordado, os gladiadores ainda de pé avançaram, pois até então estavam prestando atenção no movimento dos mesmos.

- É nagora! - disse Taslói rindo – Dispois das pirulas, só atacar!

- Pérolas? – Katabrok tentou entender.

- Pérolas? Você diz aquelas pérolas? – Leon estava surpreso.

- PEGUEM O GALTR…

Uma explosão súbita envolveu os gladiadores, além de erguer uma densa cortina de areia. Loriane viu a oportunidade, esqueceu o enfermo com a flecha ainda perfurando-lhe, saltou sobre sua montaria com audácia e galopou atravessando a cortina de areia enquanto girava seu tridente. Leon subiu no corpo da quimera e de lá saltou para dentro da cortina de areia com a kailash apenas com um espinho grande agora – o que segurava –, fazendo-a de maça de combate. Katabrok bradou, espantado com a estratégia de seu companheiro verde e esquisito, enquanto arremessava-se com um soco mirado ao acaso. A arquibancada e os nobres dos camarotes alongaram os pescoços e forçaram a visão para tentar desvendar o que ocorria ali.

Não demorou muito, a cena começava a tomar forma, a areia caía lenta e a cortina se dissipava, até que puderam discernir Loriane ferida, mas ainda montada em seu unicórino como uma heroína, Katabrok com um gladiador sendo derrotado com soco no maxilar e o recém-revelado lutador Leon ajeitando os cabelos revoltos e sujos de grãos da areia, envolta estavam cercados de corpos nocauteados. O público só faltou explodir em excitação, alguns até saltaram para dentro da arena ignorando o que fosse, entretanto eram transportados devolta magicamente por magos da arena localizados em pontos estratégicos. Choveram pétalas de rosa, moedas brilhantes de tibar e vivas emocionados. Os nomes de Loriane e Leon ecoaram pela Arena Imperial e além, chegando às ruas de Valkaria mais próximas.

- ISSO MESMO, SENHORAS E SENHORES! OS QUATRO COMBATENTES VENCERAM O GRANDE TORNEIO DE GLADIADORES DE HOJE… SEUS NOMES SÃO, A NOSSA DIVA LORIANE; O MARAVILHOSO LEON; E ACREDITEM SE QUISER, O GUARDA REAL… - houve uma pausa, Leon percebeu que tal evento era por em momento algum seu sobrinho e seu parceiro pequeno não terem sido apresentados, apesar que Alfradan resolveria o incidente o quanto antes – …KATABROK, O HERÓI DA ARENA! E O ESGUIO TASLÓI!!!

- Katabrok, Herói da Arena, gostei! – o bárbaro ponderou com um sorriso maroto.

- Mi carmarram di isguicho? – Taslói tentou entender o que tinha a ver com uma mangueira.

- Ora ora, então quer dizer que você é o homem mais procurado do Reinado!? Prazer, senhor Galtran! – disse Loriane sorrindo para ele de cima de seu unicórnio – Agora sei de quem o Sandro puxou aquela carinha de anjo!

- Ah, bem! Galtrans, fazemos o que podemos! – Leon sorriu corado – Quer dizer que meu filho então realmente esteve neste picadeiro?

- Um grande guerreiro devo dizer, acho que puxou o pai nisso também! – riram juntos.

- Sempre sonhei em conhecê-la de perto, Loriane! A assisto desde que era jovem! Ficava encantado com seu carisma!

- Desde jovem? Para mim você tem nada de velho! – ela sorriu sedutora.

- Ai se Karin escuta isso… - Leon murmurou para si mesmo lembrando da falecida esposa, sem tempo para depressão com lembranças do passado.

- Tio Leon, Katabrok, O Herói da Arena Atento, acha que não é hora para cantar gladiadoras meio-elfas e prestar atenção no Pavilhão Real!

O Imperador Rei Thormy e sua esposa levantaram-se novamente, e neste momento surgiu outra figura ilustre ao seu lado, a sua filha Princesa Rhana. Uma dama da realeza sem dúvidas, porém sem negar sua herança amazona adquirida por parentesco materno, com mesmo tipo de cabelo revolto e ainda assim belo e ruivo, solto ao vento desafiando-o rubramente. Seu olhar era superior, diferente do amigo e humilde que Thormy expressava (tudo não passava de uma mera ilusão projetada por um mago da corte). A realeza aplaudiu cortesmente e jogou espadas de prata cravejadas com diamantes sobre o picadeiro.



Entretanto, o combate não se revelou terminado. Tamanho barulho despertou a cabeça de dragão da quimera que rugiu alto fazendo toda Arena tremer e as demais cabeças acordarem bocejando.

- Agora sim: Malditas porcarias ininterruptas! – Katabrok bateu com a palma da mão na testa.

- Elavainosmatarelavainosmatar elavainosmatarelavainosmatarelavainosmatar! – Leon lastimou falando rápido e olhando os céus como se buscasse uma graça dos deuses.

O minotauro gladiador de braço esquerdo inutilizado então saltou sobre a cabeça de bode aplicando um mata leão.

- Arrr!!! Dessa fera eu mesmo cuido! Muuuu!

Leon ficou perplexo com a cena, até perceber um punho fechando envolta de seu calcanhar, ao olhar para baixo encontrou um dos lutadores que derrubara segurando-o e pegando uma adaga próxima para lhe atingir a coxa. Por sorte, ao perceber com antecedência, aplicou-lhe um chute com a outra perna. A quimera ignorou a cabeça de bode que perdia ar e saltou sobre o grupo. Katabrok preparou o mangual quando sentiu um odor horrendo de putrefação. Loriane soltou um grito de terror quando os gladiadores mortos no torneio, sem cabeça, com espadas fincadas no pescoço ou os com lança perfurando o coração, levantaram-se soltando uma fumaça pestilenta pelos lábios junto a um urro lamurioso. A arquibancada misturou vários gritos agudos de mulheres e crianças, causando incômodo às orelhas do unicórnio e de Leona. Os corpos reanimados levantaram-se estalando ossos quebrados, revirando os olhos e tendo a pele apodrecida antes do tempo até virarem poeira e restar apenas esqueletos vivos segurando as armas que lhes mataram e trajando ainda as vestes de gladiadores. Taslói corria de um que tentara lhe segurar o braço com força descomunal, e nunca evadiria se não fosse sua habilidade sobrenatural de esquiva e o pêlo escorregadio pelo suor.

- M-mas o-o que é isso? Zumbis? – Loriane estava acuada, não estava acostumada com gente morta, todas as que ocorriam por suas mãos no colisseu eram falsas, com atores que ensaiavam o momento – exceto uma única vez, caso que lhe atraíra uma certa necrofobia. Ali mesmo apenas havia apenas nocauteado os combatentes.

- Mald…

- Malditas porcarias ininterruptas, sei, sei, pequeno Katabrok! Mas relaxe, algo me diz que são aliados! – Leon alegou de braços cruzados e sorrindo, apenas esperando a aparição do amigo.

As sombras da arena enviaram vários fios negros pelos chãos e paredes unindo-se em um único ponto formando um globo sombrio de onde emergiu lentamente um ser totalmente negro composto de trevas, ao abrir os olhos, revelou-os rubros como um demônio. Bastou um gesto para trevas e sombras dissiparem-se revelando um homem de meia idade, cabelos bem arrumados e mantos roxos bastante finos. Vladislav Tpish.



- Basta, esta peleja já se estendeu em demasia! – sua voz era imperativa. Voltou-se à Loriane, e a reverenciou em cumprimento (ele era bastante reconhecido na Arena, principalmente por cuidar dos corpos de prisioneiros sem família) – Boa tarde, senhorita, perdoe minha falta de postura, todavia temos pressa! Katabrok… eu e o Leon viemos buscá-lo, doravante iremos à minha mansão para melhores explanações! Ah, sim! Olá caro amigo Taslói!

Katabrok sorriu em ver o amigo e acenou para a pequena caveira flutuante ao lado dele, Tarso. Subitamente lembrou de algo extremamente importante.

- Espere, Vladislav, eu tenho que primeiro resolver um problema com um halfling filho de kob…

Vlad girou a mão direita sobre a cabeça e as sombras de cada um saltou da terra mergulhando-os em um mundo de penumbra e escuridão instantes antes de reaparecer na frente dos portões do Solar Tpish.



A porta rangente da Taverna Sorriso Banguela, nas periferias mais sinistras da cidade de Valkaria, abriu com tamanha violência que foi ao chão. Os clientes, homens da pior reputação, levantaram-se de suas cadeiras com armas em mãos. Não brigariam a toa, só não sabiam se era algum justiceiro em nome do Imperador ou algum tipo de inimigo pessoal. Com uma olhada para o ser ficaram bastante intrigados, somente gente daquele estilo vinha àquela travessa para visitar uma taverna tão perigosa freqüentada por criminosos, monstros e todo marginal na cidadela. Aquele que entrou com violência deu uma cuspidela preta no chão e caminhou três passos observando um homem de manto esfarrapado sentado em frente ao balcão com uma carabina fedida à pólvora encostada na parede ao seu lado, enquanto tomava uma sopa quente.

- Snizzel, Pólvora Inoculadora? – a voz rouca e agressiva do recém-chegado consumiu todo som daquele ambiente por segundos. O taverneiro, homem de músculos abrutalhados e semblante que revelava quase a demência de um ogro, além dos lábios fendidos por uma cicatriz cerrou os olhos medonhos pressentindo uma confusão que reduziria algumas partes da taverna à ruínas como todo dia ocorria.

- Sssim… Asssasssino de aluguel ao ssseu disspôr! Hisss-hisss-hisss!

- Hunc! FINALMENTE TE ACHEI, FILHO DA PUTA! Sou Tork, o caça-prêmios que vai arrancar suas tripas para fazer uma persiana com elas e usar sua recompensa para beber até vomitar em sua carcaça!

O homem sob manto retirou o capuz revelando um rosto careca, sem pele, só escamas em cor coral sobre couro e traços ofídios. Ele parou com sua sopa limpando a boca sem lábios com um guardanapo sujo, levantou com certa elegância e pegou sua carabina amada enquanto punha um chapéu preto chamuscado nas abas em sua careca.

- Hmmm… Pensssei que ninguém fosssse me atazzzanar hoje! Você ssserá minha centéssssima sssegunda cabeça de caça-prêmiosss na parede…

O homem cobra dizia sorrateiro e confiante olhando o seu inimigo, um membro da raça troglodita, porém com metade do tamanho normal – devia até bater na cintura do próprio Snizzel –, verde, carrancudo, vestindo uma placa de aço no peito e com uma foice muito esquisita com um material estranho e espinhoso, além de afiado, no lugar da lâmina.

- …nanico… Hisss-hisss-hisss!

Os olhos do troglodita anão se estreitaram enquanto os dentes ameaçaram afiados e brilhantes.

- Hunc! Me chamou de nanico? – o tal Tork perguntou puxando ranho.

- Hisss-hisss-hisss! Por que? Ssse ofendeu, bebê? Pode voltar para sssua mãe lagart…

- SEU GURI DE MERDA, VOCÊ ME CHAMOU DE NANICO?